Edward Hopper & a poesia

Se Sam Peckinpah — estrela de uma postagem recentíssima — foi chamado por mim de poeta da violência (mesmo sendo cineasta), Edward Hopper, um dos meus pintores favoritos, é o poeta da solidão. Espero que meus sexto e sétimo leitores compreendam que a poesia pode estacionar em qualquer arte — e fora dela. Sabem também, claro, que a poesia (também) está em quem olha e vê, e não somente em quem a presumivelmente produz. Falemos, então, de Hopper. Se você nunca ouviu falar dele, deve, ao menos conhecer esta tela, cujo título é Nighthawks, de 1942:

Os críticos diziam que Hopper representava a vida moderna norte-americana, marcada pela angústia da recessão, das guerras e dos conflitos internos. Isso é balela, quase clichê — o que resume mal o artista e a obra per si. O olhar de Hopper mostrava o quase óbvio: os sentimentos, os arroubos românticos, o erotismo e o afeto são elementos secundários. Não contam porque o ser humano é um solitário por princípio, está por conta própria: vê a solidariedade e o companheirismo como substantivos distantes, quase nulos. É cada um por si e Deus contra todos.

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Natureza e civilização distanciam-se nas telas de Edward Hopper. Esse novo realismo prioriza os elementos concretos, distantes do elemento bucólico, ao mesmo tempo que, influenciado pelos impressionistas, cria uma atmosfera cuja estética privilegia as mesmas cores e, em muitos casos, as mesmas formas daqueles artistas. A obra acima, denominada Autômato, de 1927, revela tal influência – de Renoir a Pissarro, passando por Manet e Sisley. Todos parecem presentes. Mais do que uma influência, Hopper parece homenagear os grandes mestres. Abaixo, Soir Bleu, de 1914: todos juntos, mas solitários.

Janela do Hotel 1955

Talvez valha a pena saber: a vida de Edward Hopper era monótona, simples. Viajou pouco (esteve na Europa duas vezes, mas nada muito longo), viveu a vida inteira com a mesma mulher — que também era pintora e que dava pitacos no trabalho do marido. Viveram com razoável modéstia por opção, possuindo apenas uma casa de campo, que funcionava também como ateliê. É possível que a aparente simplicidade dos seus quadros seja reflexo da forma como enxergava a vida e a si mesmo. Acima, Janela de Hotel, de 1956

Hopper era minucioso. Preparava, durante meses, os esboços para uma nova obra. Pacientemente corrigia o que considerava excessivo. Não era pragmático, mas infinitamente preocupado com a exatidão do que queria expor. Olhar para seus quadros é perceber a poesia que há na combinação entre ambiente, luz e personagem. Um poeta tarimbado poderia, claro, criar belas obras transformando em palavras as cenas que Edward Hopper produziu. Resta saber se isso é realmente possível. Capturar a atmosfera é talento de poucos — e a atmosfera desse grande pintor não é tão fácil de traduzir. Abaixo, a fera — com cara de mau.

Pedro: poeta & bispo

A segunda vez que ouvi falar de Dom Pedro Maria Casaldáliga foi ao ouvir, assim que veio ao mundo, em 1982, o disco Missa dos Quilombos, de Milton Nascimento. É um disco de rara beleza, de temática social e cristã, gravado na Igreja de Nossa Senhora dos Homens, em Minas Gerais. É, de fato, uma missa musical, estruturada para ser primordialmente ouvida. Mas não é sobre Milton que quero falar — e sim sobre um dos parceiros (o outro é Pedro Tierra), o bispo católico nascido na Espanha — era catalão — e naturalizado brasileiro, defensor dos direitos humanos, taxado de comunista por invasores de terra, que o juraram de morte.

E quanto à primeira vez? Também com a participação de Milton, no encarte do disco Sentinela, de 1980: um dos melhores discos desse artista extraordinário. Mas repito: Milton, nesta postagem, é secundário. Em primo plano está o bispo, a figura ímpar, o ativista, para muitos o santo (epíteto que sempre descartou, sem qualquer falsa modéstia). Religioso e hábil com as palavras, um herdeiro de Vieira, célebre orador. Casaldáliga, humanista como o padre seiscentista, indignou-se com o tratamento aos povos nativos, originários – antigamente chamados de índios. Dedicou-se, de corpo, alma e palavras, a defendê-los. A eles e aos trabalhadores rurais, que carinhosamente o chamavam de Pedro. Ei-lo:

Evangelizou sem colonizar, porque sabia que eram termos excludentes. Foi um poeta social, para quem as palavras deveriam servir à liberdade, à justiça, à luta. É, nessa seara — assim como Pe. Antônio Vieira, mais uma vez — autor de Versos Adversos, dentre vários textos. Se quiser ler, AQUI você consegue. O prefácio é de um dos meus ídolos literários, o professor Alfredo Bosi. Para muitos, a religião, algo limitador, é incompatível com a arte — elemento libertador. Não sei. Sem a religião, o que seria da obra de Bach, de Vivaldi, de Palestrina? Essa questão fica para depois.

VERSOS ADVERSOSSua poesia é contundente, ao mesmo tempo que lírica. O domínio da palavra é tão evidente quanto a fé que, edificada, alicerça sua visão de fraternidade, amor ao próximo, luta contra a desigualdade e em prol da paz entre os homens. Ele sabe, entretanto, que a paz é consequência do ânimo e da união. Sabia o que estava dizendo, e o dizia de forma simples, sem arroubos sentimentais ou arabescos verbais. Era um poeta em sua essência: vivo para quem metonimicamente o ler. Hoje, 16 de fevereiro, ele faria 97 anos. Ave, Pedro!

Augusto nasceu na época errada

Augusto Frederico Schmidt é poeta moderno, morto há 60 anos, num dia 9 de fevereiro. Nasceu na época errada, porque, enquanto modernista, participou do mesmo grupo em que Carlos Drummond, Cecília Meireles e Vinícius de Moraes reinaram quase absolutos. Só não foram absolutos porque Jorge de Lima e Murilo Mendes estavam lá, para incomodar. Pois é: como sobressair — ou sequer ser notado — quando seus pares são quem são? Sem contar que a poesia dessa época ainda sofria com a ascensão da chamada Prosa de 30, com Jorge Amado, Graciliano Ramos e Érico Verissimo fazendo grande literatura.

Augusto, entretanto, sobreviveu. Fez a poesia melancólica do Modernismo, próxima de Drummond, mas ainda mais intensa. Fez a poesia de quem via o amor como falta, tendo a saudade como consequência, e o sexo como ausência. Tinha muito de Romantismo e Simbolismo, mesmo modernista. Mário de Andrade criticava-o, porque não via modernidades em sua poesia, como se o elemento moderno fosse a base estética para a grande poesia da época. Augusto Frederico Schmidt, aos olhos de muitos modernistas, nasceu velho. Talentoso, mas serôdio.

Li há poucas semanas alguns poemas de Mar Desconhecido, seu livro publicado no início dos anos 1940. É poesia confessional, um tanto adolescente, que não agrada a ouvidos e olhos de quem desemboca — como eu — num João Cabral ou, mais tarde, num Roberto Piva. Os versos livres se misturam à métrica; os versos brancos estão lado a lado com rimas bem postas, intencionais — é claro! É um sonetista de primeira linha, herdeiro de Guilherme de Almeida e, antes, de Alphonsus de Guimarães. Descambou para a poesia cristã, assim como fizeram os já citados Murilo Mendes e Jorge de Lima, mas aí perdeu a mão. Fez uma poesia careta e sem brilho.

Augusto Schmidt e o Galo Branco

Há certo erotismo, um tanto contido — talvez pela expressividade cristã de seus poemas. Mesmo assim, a figura feminina é desejo e é morte, elementos teoricamente díspares, mas nem tanto, porque os psicanalistas fazem dessa dicotomia uma festa. Augusto Frederico Schmidt tem seu valor, e tal valor seria mais celebrado se tivesse feito poesia 40 anos antes, quando Cruz e Sousa conflitava com Bilac et caterva. Teria sido um bom companheiro para uma poesia que, no mundo, foi poderosa, e no Brasil teve vida curta. No fundo, Augusto era um simbolista no corpo de um moderno. Ainda assim, os compêndios literários mencionam-no com a devida e merecida frequência. Eis uma palinha de Elegia:

                                     Tua beleza incendiará os navios no mar. / Tua beleza incendiará as florestas.

                                     Tua beleza tem um gosto de morte. / Tua beleza tem uma tristeza de aurora.

                                     Tua beleza é uma beleza de escrava. / Nasceste para as grandes horas de glória,

                                     E o teu corpo nos levará ao desespero (…)

Caetano, Luiz Guilherme: última palavra

Domingo após a segunda prova. Enem, 2024.

Rola um vídeo na internet em que o grande compositor e cantor Caetano Veloso resolve uma questão do Exame Nacional do Ensino Médio — o ENEM — em que ele mesmo fora citado.  Caetano não titubeia, escolhe a alternativa – e acerta. Poderia ter errado, como já aconteceu anteriormente, há uns dois anos. Eis então a pergunta de resposta óbvia: como pode o autor não saber a resposta correta sobre o texto que produziu? Resposta simples: o autor escreveu o texto, criou-o, produziu-o. O autor não o leu, de modo que a pergunta é feita para quem leu o texto; não para quem o escreveu.

Lembro-me de quando, há mais ou menos 35 anos, a UFES tornou obrigatória a leitura do romance A Nau Decapitada, de Luiz Guilherme Santos Neves. Sendo eu professor para alunos que querem acessar a universidade, preparei-lhes, como uma prova simulada, questões relativas à obra. Alguns acertaram; outro, não. Lembro-me também de mostrar as questões ao próprio autor, Luiz Guilherme que, ao tentar resolvê-las, não obteve êxito. Em bom vernáculo: errou-as. Eis mais uma vez o axioma: o autor não é leitor de si mesmo. Não possui a isenção necessária para, racionalmente, avaliar o texto.

Caetano, na verdade, avaliou uma crônica em que era citado – não um texto de sua lavra, criado e produzido por seu cérebro privilegiado, além da sensibilidade aguçada que possui ao escrever canções. O envolvimento emocional do autor com sua obra atrapalha-o, confunde-o. Tente imaginar um poeta, um escritor ou um compositor que, diante de sua criação, pergunta-se: o que eu quis dizer com isso? Ou, pior: como esse texto pode ser interpretado? Não é essa a função do artista.

De tropicalista inspirado, Caetano chega aos 70 abraçando contradições ...

Eis uma outra questão: quem tem a última palavra sobre um texto literário? Qual a interpretação tão correta quanto definitiva? Claro que interpretações pressupõem elementos que as justifiquem, mas a arte — como um todo — pode (e deve) possui inúmeras significações. Eis sua beleza e sua função: multiplicar-se em significados. Textos literários cuja interpretação não é variável correm o risco de não serem tão literários assim. Ou de serem mal escritos. Enfim, é um debate que merece atenção. Por enquanto, no meu caso, fico assim: torcendo para não precisar resolver uma questão sobre meus próprios livros.

Massaud & Machado

Discurso de recepção pelo Acadêmico Erwin Theodor RosenthalMassaud Moisés é figura obrigatória em qualquer curso de Letras, e merece — deve, na verdade — ser lido por professores, por estudantes e por quem se interessa por literatura. É um craque nas palavras, principalmente quando escreve sobre algum objeto definido: um escritor escolhido, uma obra de destaque, um gênero específico. É autor de livros seminais, como A Literatura Brasileira através dos textos, A Criação Literária e o essencialíssimo Dicionário de termos literários. Ao lado de Alfredo Bosi e Antônio Cândido, forma a tríade masculina da teoria literária brasileira.

Machado de Assis, bem, não há necessidade de que eu o apresente. O que realmente é necessário é mostrar quando essas duas figuras se encontram. Em Machado de Assis: Ficção e Utopia, um encontra o outro, e da maneira mais elegante possível. O adjetivo em itálico justifica-se, porque a linguagem de Massaud Moisés é de uma clareza tão absoluta que suas reflexões acerca do enormíssimo Machado tornam-se elegantes. É bom de se ler justamente por isso – além de, no meu caso, aprender um bocado.

Machado de Assis: Ficção e Utopia | Amazon.com.brOs ensaios contidos no livro não são inéditos. Foram publicados desde 1958 em revistas, suplementos literários — muitos deles no Caderno de Sábado, do Jornal da Tarde, na década de 1990. Recomendo a leitura de todos os 14 ensaios, mas um deles – justamente o que intitula a coletânea — é tão precioso quanto fundamental. Partindo de Brás Cubas, o notável professor traz uma ideia inédita: como o escritor-chave do Realismo brasileiro pode ser um utopista? Lá pelas tantas, ele nos diz: “Mirando-se no espelho do texto, contemplando os semelhantes transfigurados em personagens, o leitor dá-se conta da imperfeição do mundo e a um só tempo sente-se atraído pela promessa de um mundo melhor aqui na terra.” Genial.

Massaud Moisés faz o que não havia sido feito: conecta Machado a Eça de Queiroz e a Proust (que viria depois); desmistifica a oposição entre os dois Machados: o romântico e o realista; apresenta a ideia de que o adultério de Capitu é algo secundário em Dom Casmurro. E por falar em Capitu, há um ensaio sensacional em que o professor conecta Minha Vida de Menina, de Helena Morley, publicado em 1942, com a heroína Maria Capitolina. É uma das melhores coisas do livro. Bem, se você nunca leu os textos críticos de Massaud Moisés, pode começar por esse. Além de traduzir o sempre necessário Machado de Assis, dá uma aula de como pensar literatura.

Em tempo: seu nome é pronunciado “Massaúde” e não “Massô”. Ele era descendente de libaneses; não de franceses.

Professores & Professoras em Vitrine

Em homenagem ao DIA DO PROFESSOR — 15 de outubro —, aí vão alguns vídeos do podcast Vitrine Literária com Francisco Grijó com professores e professoras ligados, cada um a seu modo, à literatura. Reitero meus agradecimentos a todos e a todas que, gentilmente, dialogaram com este que vos escreve. Agradeço também a quem assistiu aos bate-papos — ou os ouviu, porque estão disponíveis, também, no Spotify. Em frente, então: é só clicar e assistir.

E se quiser deixar um comentário, será muitíssimo bem vindo!

1. HERON MIRANDA, professor de Física e escritor.

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2. LILIAN MENENGUCI, professora e escritora.

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3. ORLANDO LOPES, professor e poeta

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4. ANAXIMANDRO AMORIM, professor, poeta e escritor

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5. RICARDO SALVALAIO e SAMIRA FREITAS, professores

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6. FRANCISCO AURÉLIO RIBEIRO, professor e escritor

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7. BERNADETTE LYRA, professora e escritora

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8. SAULO RIBEIRO, professor, escritor e editor

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9. THAÍS HELENA, professora e escritora

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10. PAULO SODRÉ, professor e escritor

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11. MARCELA AMARAL e PAULO SCARDUA, professores

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12. CAMILA DALVI, professora e escritora

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13. FERNANDO ACHIAMÉ, professor, poeta e escritor

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14. JERRY TONONI, professor

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15. RENATA BOMFIM, escritora e professora.

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16. INÊS AGUIAR DOS SANTOS NEVES, escritora e professora

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Blank & eu: pergunta e paradoxo

A Gazeta | Polícia prende homem que confessou assassinato do poeta Sérgio BlankNeste mês de abril, ano corrente, entrevistei – no meu podcast Vitrine Literária com Francisco Grijó – duas personagens por quem tenho imenso respeito: o poeta e romancista Caê Guimarães e o pesquisador e professor Vitor Cei. O assunto: a poesia de Sérgio Blank, esse senhor ao lado, artista maiúsculo, um dos grandes de sua geração. Sérgio teria feito 60 anos neste mês, caso não tivesse sido acometido de uma tragédia que o fez não estar mais entre nós. Faz falta, sim: em presença e em palavras.

Caso meus seis ou sete leitores queiram saber o que se disse sobre Sérgio Blank e sobre sua produção literária, basta acessar o conteúdo, seja no Spotify, seja no Youtube. Não é, contudo, sobre isso que quero falar, mas sim sobre um livro organizado por esse poeta, intitulado por que você escreve? Sim, com minúsculas. Por uma coincidência, eu e Caê estamos no livro, expondo depoimentos dos motivos que nos levaram a esse triste porém irresistível destino.

O livro, metalinguístico em sua gênese, quer uma resposta – e essa resposta é dada pelos inquiridos da vez, cujos nomes é possível ler (com lupa) na capa, à esquerda. Eis a questão: por que se escreve? Minha resposta foi tão lacônica quanto honesta (e paradoxal): escrevo porque gosto, porque me diverte. E – verdade seja dita – imaginei que minha relação com as mulheres fosse ser facilitada. Engano. As garotas da minha geração, ao menos na época em que comecei a escrever, gostavam de músicos. Escritores eram gente esquisita.

É uma pergunta que não faço a quem eu entrevisto em meu podcast. Não sei se haverá resposta que mereça ser ouvida, ser partilhada. É algo, penso eu, pessoal e intransferível. É a angústia e o prazer, ambas subjetivos, intrínsecos, que só dizem respeito a quem produz literatura. Respostas de jornalistas e de todos os pensadores que lidam com a palavra escrita têm um objetivo: informar, e ainda bem que existe a palavra destinada a isso. Quanto a nós, romancistas, poetas, cronistas, contistas, dramaturgos, bem, digo que, de fato, não interessa por que se escreve – mas o que se produz. Isso, sim, vale a leitura.

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*Copie e cole os links no seu navegador para assistir às duas partes do bate-papo:

PARTE 1

https://www.folhavitoria.com.br/videos/folha-vitoria/vitrine-literaria/lTQbYrPG6Zo

PARTE 2

https://www.folhavitoria.com.br/videos/folha-vitoria/vitrine-literaria/5mQtBCIkXWU

Jorge, Oswaldo & minha sogra

Ganhei de minha sogra, boa professora aposentada de literatura e, portanto, apreciadora das belles lettres, os três livros que compõem os diálogos entre Jorge Luis Borges, o enormíssimo ensaísta, contista e poeta argentino, e o jornalista (e também afeito à poesia) Oswaldo Ferrari. Leitura fluente, para quem já é iniciado nas obsessões borgeanas – tempo, labirintos, escrita antiga, literatura inglesa, Buenos Aires, mitologia escandinava, filosofia, o ato de escrever – e para aquele brasileiro curioso e ignorante que não entende como um cegueta manco (e argentino) pode ser um ícone literário de todos os tempos. 

Se completa la trilogía de los diálogos de Borges y Osvaldo Ferrari traducidos al chino

Imagine um programa de rádio em que se fale de literatura, de filosofia, de história, de sonhos, de lendas. Um bate-papo entre dois homens cujo interesse intelectual transgride as preferências superficiais da maioria dos viventes. Pois é. Esses três livros que me foram presenteados pela sogra tratam justamente disso. São conversas que foram, mais tarde, transcritas para o jornal Tiempo Argentino, um espaço dedicado a quem se interessa por aquilo que a maioria dos brasileiros despreza: a leitura. Os argentinos, por sua vez, levam a coisa a sério.

Livro: Sobre a Amizade e Outros Diálogos - Borges / Osvaldo Ferrari | Estante VirtualEstou terminando o volume cuja capa ilustra esta postagem. Altamente recomendável pela beleza linear da conversa, pela versatilidade dos conteúdos e, principalmente, porque figuras como Edgar Alan Poe, Spinoza, Virgílio, Shakespeare, Bertrand Russel, Swedemborg, Francisco de Quevedo e G. K. Chesterton planarem como aves rarae no céu pintado pelo extraordinário argentino. É ler para crer – e se regozijar. Sim, o prazer dessa específica leitura é potencializado. Aposte nisso.

Jorge L. Borges foi um erudito – e dos bons. Um bom erudito é aquele que traduz o saber grandioso, estimulando quem o lê. Não rechaça o ignorante; ao contrário: consegue seduzi-lo a ponto de torná-lo fiel, mas crítico. Os diálogos, para Borges, são a grande descoberta intelectual, legado dos gregos, a partir da amizade entre Sócrates e Platão, o assunto do título. Daí para Holmes e Watson, ou para Sancho e Quixote, é um pulo, um salto olímpico cuja distância não se mede. Conversar, sei disso, é descobrir.

Filmes (re)vistos #10: Fahrenheit 451, 1966

Fahrenheit 451 (Filme), Trailer, Sinopse e Curiosidades - Cinema10De volta.

Qualquer estudante secundarista já estudou escalas termométricas: Celsius, Kelvin, Reaumur, Rankine e, claro, aquela que possui o nome mais charmoso, Fahrenheit. Esse nome alemão pertence a Daniel Gabriel, físico teuto-polonês que inventou o termômetro de mercúrio e que adorava spaghetti. Na escala Fahrenheit, o papel combure a 451 graus – daí o título. Um filmaço, dirigido pelo meu xará, François Truffaut, e com a presença luminosíssima da bela Julie Christie.

Revi o filme porque queria apresentá-lo a um amigo que havia lido o livro – homônimo, de Ray Bradbury – no qual o filme se baseou. A película é uma declaração de amor aos livros: a mais potente, precisa e poética forma de dizer aos livros o quanto eles importam. E como seria o mundo sem eles? Eis a questão: o que seria deste planeta sem Shakespeare, Cervantes, Dante, Camões? E olhe que cito somente gente ligada à literatura, porque sem a Arte em geral e Filosofia, estaríamos de 4, no bosque, uivando para a lua.

Num futuro distópico, os livros representam o perigo, afinal versam sobre o conhecimento, sobre a informação. Não são eles os grandes inimigos do totalitarismo? Devem ser extirpados, destruídos como se fossem uma lepra social. Em se tratando de um Brasil recente – e considerando as proporções óbvias -, passamos por isso. Artistas, neste país, durante quatro anos, foram os vagabundos, os inomináveis párias contrários à pátria amada. Enfim, isso é papo para outra postagem.

VIVER É PERIGOSO: FAHRENHEIT 451

Truffaut foi feliz. Conseguiu imprimir no celuloide a força poética do romance de Bradbury. Conseguiu contar uma história cheia de suspense, amor, erotismo, aventura. Criou um cenário fotográfico nebuloso, tenso, corroborando a ideia de que algumas ações representam perigo tão imediato quanto fatal. Ler é crime, e criminosos devem ser punidos e educados a abominar a fonte de onde vêm as ideias. É um filmaço, uma ode à memória literária. E a propósito: esta aí embaixo é Julie Christie, de quem falei. Bonitinha, não?

Джули Кристи (Julie Christie) - актриса - фильмография - голливудские актрисы - Кино-Театр.Ру

O poeta Magritte em 3 telas escolhidas

Sou fã de Magritte, René Magritte: belga, surrealista, morto há 56 anos num dia 15 de agosto. O gênio da raça, embora menos (re)conhecido que Salvador Dalí, que sabia como ninguém autopromover-se. Magritte, mais discreto mas tão inovador (ou mais) quanto o pintor espanhol, criou um universo próprio dentro do imenso universo surreal. Suas imagens não têm aparente sentido no mundo consciente, posto que usem a geometria e a exatidão realista. Não são o que parecem ser, e essa é a premissa surreal.

o império da luz por Rene Magritte (1898-1967, Belgium) | Museu De Reproduções De Arte

A reprodução acima tem o título O Império das Luzes, de 1954: a cena noturna sob o céu diurno. Há algo de poético no quadro, algo que brota do contraste e da simetria. Se existe um pintor no século XX capaz de aproximar poesia da pintura, este é René Magritte, admirador de Lautréamont e Rimbaud – não por acaso, poetas simbolistas franceses que influenciaram o Surrealismo. Assim como a poesia se recusa a explicar o que quer (a quem quer) que seja, os quadros de Magritte nada revelam – a não ser, evidentemente, aquilo que o observador consegue ver.

Magritte – A VIOLAÇÃO - VÍRUS DA ARTE & CIA - Lu Dias Carvalho

A Violação é uma ideia. É a subversão do valor milenar, da distinção entre corpo e face, ambos expostos e ao mesmo tempo cobrindo um ao outro. Pediram a René Magritte que dissesse algumas palavras sobre a obra, e dele receberam “é um sorriso muito antigo”. Eis a questão: o que isso quer dizer? Explicar a frase equivaleria a envenená-la, e o mesmo pode se dizer da tela diante dos olhos. Se há poesia nessa subversão, somente quem observa poderá dizê-lo.

Tempo Trespassado de René Magritte | Tela para Quadro na Santhatela

Um túnel ferroviário transformado em lareira é o tema de O Tempo Trespassado. O absurdo da tela – legítima, para o Surrealismo – funde movimento e direção, mas, para onde? A fumaça que brota da locomotiva dá a ideia de que tal movimento nunca cessará, com independência e tenacidade. Se o observador tenta transpor a ideia para o real, perceberá que a anomalia nada tem de artística. O que vale, claro, é a forma como René Magritte expõe o paradoxo. Eis aí a grande poesia.

Só por curiosidade: o título original desse quadro é La durée poignardé, que significa Tempo correndo esfaqueado por uma adaga. Bem, esse é René Magritte.

AQUI, o Musée Magritte. Aproveite!