Elvis e Cocker: preteridos

A curiosidade dizem! – mata gatos. Curioso que sou, fui à web em busca de informações acerca dos grandes cantores do rock. Em outras palavras: tenho meus preferidos e, num certo sentido, senti-me no direito de comparar meu gosto pessoal com predileções de gente que não conheço. Evidentemente há concordâncias. Quem, numa lista de 10 cantores de rock, deixaria de fora Freddie Mercury, Robert Plant e Tina Turner? Observando listas pela internet – Billboard, Rolling Stones etc –, surpreendi-me com duas ausências que, inclusive, entrariam no meu top 5.

A primeira defecção chama-se Elvis Presley, o maior cantor do rock – apenas para mim, pelo jeito. Ok, para os fãs mais alterados também. A segunda ausência tem o nome de Joe Cocker que – mais uma vez minha visão pessoal – só perde para Elvis, e olhe lá! O que me causou espécie foi que nenhuma lista, a considerar os veículos mais “respeitados”, sequer mencionou esses dois senhores. E olhe que a lista da Billboard traz 50 nomes! Das duas uma: ou não entendo nada de música, mais especificamente de rock e de quem os canta, ou eles são um rebanho de amnésicos cujas audições são, para dizer o mínimo, duvidosas.

Tudo bem: não haveria rock sem Chuck Berry. Convenhamos, porém: sem Elvis, o gênero não teria a amplitude que teve. Sem contar que Elvis deu ao rock um apelo sexual que ele não tinha. Ele, o rock, bem entendido. Um branco com voz de preto, unindo universos que se distanciavam, fazendo caucasianos reverenciarem o blues, fazendo os pretos apreciarem o country. Elvis foi além da música, essa é a verdade. Isso sem falar na voz poderosíssima, na sensualidade inequívoca, no suinge incomparável e na capacidade de cantar baladas, valsas, canções de natal, blues e gospel com a mesmíssima competência.

Salió el trailer de "Elvis", biopic del Rey del rock and roll • Canal C

Quanto a Joe Cocker, bem, há, no rock, cantor mais visceral? Mais dramaticamente sedutor, capaz de transformar canções modestas em espetáculos de voz e trejeitos? Seu vocal parecia ter saído de cavernas escuras, parecia ter atravessado oceanos de lava e sofrimento, até desembocar numa explosão de beleza, sensualidade e vigor. Não conheci – leia-se ouvir – nenhum outro cantor que provocasse tamanha pressão sobre o ouvinte. Sim, claro: é opinião, assim como é a opinião de quem cria uma lista e deixa de fora esses dois monumentos vocais. Elvis Presley e Joe Cocker merecem, talvez, uma lista só para eles.

Músicos pintores #2: Ron Wood

“Se Miles Davis pode, por que não você, Ronnie?”, perguntou, certa vez, Charlie Watts, o célebre baterista dos Rolling Stones. Segundo a lenda, a frase foi proferida quando o guitarrista Ron Wood, entre a oitava e a nona dose de uísque, afirmou que não somente apreciava Van Gogh como sentia que tinha talento para fazer, numa tela, o mesmo que o genial holandês fez. Bem, o C₂H₆O fez a autoestima do guitarrista ir à estratosfera – o que não chega, para muitos, a ser uma vantagem. Eu, de minha parte, aprecio os quadros do stoned. O Keith abaixo é uma beleza:

 Ronnie Wood is looking to earn a bit of extra cash by selling portraits of his fellow Rolling Stones bandmates

A partir de então, Ron Wood frequentou a Ealing Art College, levando a sério a arte de pintar. Percebendo o óbvio, que as cenas de rock são plásticas per si, o guitarrista dedicou-se a imprimir, em cores e pinceladas, o que havia de mais emblemático – e por que não acrobático? – nas performances não somente dos Stones, mas de outros músicos que lhe chamavam a atenção. É o caso de Jimi Hendrix, abaixo, cuja essência parece bem capturada. A pose de beatitude, de reflexão cósmica está lá, nos olhos fechados e lábios cerrados. Quer mais? AQUI você vê Jeff Beck e Eric Clapton, pela mão de Ron.

Alguns poucos críticos levam a sério quando o guitarrista sai do palco e substitui um instrumento por outro. A maioria diverte-se com as estripulias pictóricas que Ron Wood apresenta ao público – e isso inclui uma quantidade enormíssima de obras que vão da arte figurativa ao abstracionismo, passando por esculturas, line drawings, imagens naturais e representações de animais. AQUI, por exemplo, seu gorila. Para Ron, a arte é terapêutica: “Não há melhor terapia do que iniciar um quadro e conseguir terminá-lo.”

Critics tell Ronnie Wood to stick to music ahead of exhibition | Ronnie Wood | The Guardian

A crítica Louisa Buck disse  que “somente o ego de uma estrela do rock seria capaz de achar interessante colocar a si mesmo e a própria banda num quadro que representa a devastação de Guernica”. Tem razão, claro, em criticar a possível heresia em relação ao mestre espanhol, mas não é este um dos propósitos da arte: transgredir, subverter a ordem estabelecida? Para ela, Ron Wood deveria manter nas mãos uma guitarra, e não pincéis. Um outro crítico, Oliver Basciano, afirmou que “a arte deve possuir uma dose de ousadia, mas aí já é demais.” Talvez esteja certo, talvez não.

Rolling Stones Guitarist Ronnie Wood Is Also an Artist—But His Amateur Paintings Can't Get No Satisfaction From Critics

A quem interessar possa: AQUI, uma palinha.

Davis, Moon: biografias

Livro: Miles Davis - a Autobiografia - Miles Davis - Quincy Troupe | Estante VirtualEsta é para quem gosta de biografias. Dependendo do personagem sobre quem se fala, eu também gosto. Falei o óbvio. Para escrever a verdadeira história dOs Mamíferos, banda de rock capixaba que teve vida curtíssima — apenas 4 anos —, li sobre algumas vidas: de Lewis Carroll a Jorge Guinle, passando por Billie Holiday, Miles Davis, Frank Sinatra. Claro que priorizei biografias musicais, evidentemente. Aliás, há, sobre a biografia de Mr. Davis, algo a se considerar: a linguagem usada na tradução. Uma tristeza.

Eu explico. O livro é escrito a quatro mãos: o próprio Miles e Quincy Troupe, poeta e escritor que, entre outras obras relevantes, escreveu sobre Stevie Wonder e sobre o Weather Reports. Sabe o que fala, sabe o que escreve e, sendo ele um arguto observador da cultura afro, muitos dos termos usados no texto refletem a linguagem específica do universo negro norte-americano. E como traduzir isso? Não é fácil, eu sei, mas encher a tradução com expressões que adolescentes brasileiros falam é, no mínimo, inadequado. De resto, nada como ler sobre um dos homens que, em pelo menos duas ocasiões, mudaram o jazz.

Não é o que acontece com a biografia do maior baterista do rock — Keith Moon. Tony Fletcher, o biógrafo, assim como Quincy Troupe, ama a personagem de quem fala. Absolutamente detalhista, criterioso, mantém-se na linguagem que alia bom jornalismo e boa literatura. Herdeiro do new journalism, distanciou-se de Gay Talese, de Truman Capote ou de Tom Wolfe ao evitar os elementos romanescos e possivelmente fictícios — mesmo que para apenas ilustrar a obra. Eis um retrato de Keith para além do baterista.

Keith coloca Ginger Baker e John Bonham no bolso, deixando que se baqueteiem mutuamente disputando a vice-liderança. Não, não é pouco. De criança-problema ao estrelato mundial, essa figura mítica, intrigante e genial criou um mundo em que era o grão-vizir, fazendo o que queria, explodindo instrumentos, arrumando confusões com skinheads, bebendo quantidades industriais de uísque e vodca, brigando com colegas de banda, fantasiando-se de cavalo, divertindo-se às custas do constrangimento alheio. Foi ao limite. Era uma criança quando tinha de ser criança — e assim continuou até morrer, em 1978, mal tinha acabado de fazer 32 anos. Fica sua história, para gozo dos fãs e dos admiradores do bom e velho rock.

Eu & Os Titãs

Qual o ponto alto de um show de rock? Quando o guitarrista ataca um solo monumental, daqueles que ninguém imita? Quando o vocalista, qual um tenor de ópera, arrisca um dó de peito e acerta em cheio? Naquele momento em que o baterista, à moda de Keith Moon, faz o instrumento eternizar-se? Cada espectador, claro, escolhe o momento primordial, inesquecível. Eu, por exemplo, escolhi – durante a apresentação da banda Titãs, em Vitória, ES, no último fim de semana – o instante em que Charles Gavin, batera do grupo, surrou os couros vestindo a camisa do meu time do coração, o doméstico Rio Branco.

Não sou um fã dos Titãs. A bem da verdade, quando surgiram, inaugurando, junto a outras bandas, o movimento BRock, no início dos anos 1980, não fui na onda. Embora gozando os meus 20 anos, mantive-me no gênero que havia me capturado (3 anos antes): a MPB. Chico Buarque, Gil, Caetano, a dupla Toquinho & Vinicius, Tom Jobim e Belchior valiam muito mais do que Renato Russo, Cazuza, Arnaldo Antunes e Nando Reis. Sim, claro, era – e ainda é – uma opinião. A bem de uma outra verdade: abstive-me da contemporaneidade, desconfiei da “revolução musical” que encheu o coração da juventude brasileira. Ignorei o movimento em si. Eu e minha senectude, disse-me uma amiga, certa vez.

Por curiosidade: ouvi a banda com bons ouvidos a partir do início dos anos 2000. Minha mulher – namorada, à época – apresentou-me a banda e, claro, a forma apaixonada como ela consumia música & letras contagiou-me – num certo sentido. Não, não foi suficiente para eu me tornar um ardoroso entusiasta, mas amoleceu meu coração. O show foi bacana – muito mais por resumir uma carreira de sucesso e trazer à superfície a memória afetiva de uma plateia que ali estava justamente para isto: lembrar-se de momentos vividos à custa das canções. E, evidentemente, emocionar-se.

Por falar em emoção, a homenagem ao falecido guitarrista Marcelo Fromer – sua filha Alice subiu ao palco, e cantou -, e ouvir Branco Mello cantar (vítima que foi de um tumor na laringe) deram o tom sentimental – mas nem de longe piegas – ao encontro de artistas que, marcados pela honestidade musical e pela satisfação inequívoca de fazer um bom trabalho, tornaram o público feliz por 140 minutos. Sim, repito: foi um show bacana: não me arrependo de ter ido. Não chegarei a me tornar fã ou consumidor, mas valeu ter testemunhado a História. Valeu, Titãs! E valeu, Charles, por vestir a camisa do meu time.

Sem Jeff, sem música

Jeff Beck nasceu pronto – mas por que digo isso? Porque aos 20 anos substituiu Eric Clapton como guitarrista dos Yardbirds. Se você gosta de rock, entendeu o porquê. Caso não, lá vai: somente um guitarrista pronto, sem necessidade de nada que se acrescente a seu talento ou performance, seria capaz de substituir um dos maiores guitarristas de todas as épocas. Jeff nunca teve – é o que me parece – o reconhecimento pleno. É um dos ases do gênero, mas sua popularidade (se é que precisou de uma) sempre esteve na corda-bamba. E daí? Quem curte a grande música sabe quem ele é – e ponto.

Aos 78 anos, morre Jeff Beck, um dos mais influentes guitarristas da  história - ISTOÉ Independente

Em 1986, ganhei, não me lembro de quem, o elepê Wired, gravado dez anos antes do meu privilégio de ouvi-lo. Ouvinte de jazz, lembro-me de ter estranhado a gravação de Goobye Pork Pie Hat, escrita por Charles Mingus, o grande orquestrador, band-leader e maior contrabaixista do jazz. Você pode ouvir AQUI. Não consegui, exceto por algumas passagens bem breves, encontrar semelhanças com o original jazzístico. Só isso – que não é, nem de longe, um detalhe – já me fez apreciar aquele de quem eu compraria, quase imediatamente (creio que poucos dias depois), outro elepê: Blow by Blow, um clássico em que as homenagens ao jazz continuam: há uma faixa, escrita por Stevie Wonder, intitulada Thelonius. Ah, claro: o próprio Stevie participa da faixa, nos teclados.

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Por falar em teclado, Jeff e Max Middleton, tecladista, compuseram You Know What I Mean, Air Blower e Scatterbrain. Middleton, sozinho, escreveu Freeway Jam. A propósito: se você gosta dos Beatles, vai apreciar She’s a Woman: uma beleza de execução. A guitarra fala, literalmente. Bem, ouça o disco, por inteiro, AQUI. Vai gostar.

Antes de escrever este texto, fiquei pensando quantos discos dele eu possuía. Não são muitos: Truth, Wired, Blow by Blow, Flash, Crazy Legs e Emotion & Commotion (do qual não gosto), que foi lançado no dia em que completei 48 anos, num 13 de abril. Jeff Beck morreu anteontem, dia 10 de janeiro, aos 78 anos, vítima de meningite. Continuava na ativa, mantendo agenda de shows (inclusive em companhia do ator-músico Johnny Depp) e, algo tristemente irônico, cuidando da saúde. Uma tristeza para o rock; outra para a música.

Guy, o cara

Guy Ritchie | Moviepilot.deGuy Ritchie fará 53 anos amanhã, dia 10 de setembro. Não, não é só ex-marido de Madonna, como muita gente acha. É um cineasta de primeira, que dirigiu três filmaços dignos de entrar em qualquer lista em que o sarcasmo, o deboche e a iconoclastia sejam prerrogativas. Quais são eles? Pela cronologia, Jogos, trapaças e dois canos fumegantes, de 1998; Snacth – Porcos e diamantes, de 2000; e Rocknrolla, de 2008. Sem trocadilhos, Guy é “o cara”, que parece divertir-se ao contar histórias – afinal, em dois desses três filmes ele foi o roteirista. Pois é: sabe escrever.

Como a maioria das pessoas, assisti aos três filmes separadamente, em épocas distintas. Já tomei providências para assistir a eles, em sequência. Comprei os blu-rays, os quais devem chegar em poucos dias, para o deleite solitário de quem quer ver rock and roll em forma de película. Sim, o que Guy Ritchie faz, em minha humilde opinião, é música em forma de cinema. E música veloz, com mudanças de andamento, de vocalização grave, com a marcação paquidérmica da bateria, com guitarras gritando alto.

Jogos, Trapaças e Dois Canos Fumegantes | Uma Dose de Cinema

Meu preferido é justamente o primeiro: o arrebatador Jogos, Trapaças e dois canos fumegantes. Carregado de humor – um dos pontos fortes de Guy Ritchie -, o filme é uma homenagem às tramas norte-americanas que aliam gangsterismo a marginais um tanto ingênuos, mas ambiciosos porque a contravenção pode compensar, desde que bem pensada. Os dois ex-atletas Jason Stathan e Vinnie jones estão nele, assim como também se fazem presentes em Snatch – Porcos e diamantes. Bem, mas nesse quem brilha é Brad Pitt, boxeador cigano de um soco só. Ah, claro: Dennis Farina e Alan Ford fazem parte da grande festa.

Rocknrolla é o rock per si. Da trilha sonora à trama, envolvendo um cantor punk e drogadíssimo cujo pai adotivo é um gângster envolvido com bandidagem russa e com políticos corruptos. É outra festa, da qual fazem parte escroques, parasitas, mafiosos e, claro, advogados. A velocidade narrativa, os recursos fílmicos e as personagens cínicas fazem do filme um clássico recente, mesmo sendo o tema algo tão batido quanto um solo dos Ramones. E Mark Strong, Gerard Butler, Idris Elba, Tom Hardy e Toby Kebbell ainda não tinham sucesso mundial. Vale ver e rever, tenha certeza!

Rock ou pop quarentão

Arthur Dapieve é um cara boa praça. Entende de música, sabe escrever, é irônico – uma necessidade nesse ofício -, está na folha de pagamento da Globo, aprecia demasiadamente o rock e, dentre outras peças escritas, apresentou ao público, em 1995, este livro que você, possível leitor, está vendo:

Brock O Rock Brasileiro Dos Anos 80 Arthur Dapieve Editora34 | Parcelamento sem juros

BRock é a denominação do autor para o gênero pop-rock desenvolvido no Brasil no início dos anos 1980. Antes que você pergunte: escrevo sobre o assunto porque ontem, dia 21 de abril, assisti a partes de um show em homenagem aos 40 anos do chamado rock brasileiro. O Canal Brasil proporcionou o encontro entre várias bandas que, há 40 anos – ou um pouco menos -, fizeram a cabeça da moçada.

O evento, até onde sei, vai-se estender até dia 24, e muita gente conhecida vai-se apresentar: de Marina Lima a Nando Reis, passando por Fernanda Abreu, Biquini Cavadão, Blitz, Paulo Ricardo, Frejat, Leo Jaime, Barão Vermelho, Os Paralamas do Sucesso e alguns mais. Bem, eu não tenho uma opinião formada sobre rock brasileiro, mas isso é irrelevante. O que é relevante, para mim, é o motivo pelo qual não a tenho.

O espaço do Rock brasileiro na música atual – vibeculturalblog

Em 1982, quando tudo começou, eu tinha 20 anos. Seria absolutamente natural que, nessa idade, eu me interessasse pelo rock nacional. Seria, mas não foi. Primeiro, porque eu já me interessava por jazz e por MPB, e, sendo assim, meu parâmetro musical e textual era outro. As letras do BRock pareciam-me bobocas demais, quando comparadas ao magnífico trabalho de Chico Buarque, Caetano Veloso, Gilberto Gil, Belchior, Toquinho & Vinícius, Edu Lobo. Sem contar que a “atitude política” roqueira daquela rapaziada sempre me pareceu artificial demais.

Resultado: envelheci sem usufruir daquela atmosfera de (pseudo)rebeldia que cercou o movimento, e que fez muitos de meus amigos felizes. Fiquei ouvindo The Who, Led Zeppelin, Pink Floyd, Joe Cocker e Jethro Tull, e poderia ter adicionado algumas doses de rock brazuca, condizentes com minha faixa etária. Não sei se errei, mas certifico-me de que perdi uma oportunidade. Ou me livrei dela.

Dylan, 80 anos (eu, serôdio)

Escrevi sobre Bob Dylan quando ainda era secretário de Cultura, na capital, Vitória. Muita gente discordou do que escrevi. Fui chamado de corajoso por expor algo em que acredito. Sou fã do Dylan compositor, deixo isso claro. O texto está aí, para quem quiser ler novamente – ou pela primeira vez, o que seria mais comum.

Geddy deve ter razão

Meu querido amigo – admirador e conhecedor profundo do rock – Alfonso Favalessa, professor da área exata, enviou-me uma mensagem na qual Geddy Lee, baixista e líder da banda canadense Rush, afirma, com todos os fonemas, que Who’s Next, álbum de 1971 da banda The Who, é o melhor disco de rock de todos os tempos. Você encontra a entrevista AQUI. Eu não sou daqueles especialistas no rock cujas opiniões definem o gênero. Longe disso. Meu amigo Favalessa é.

Já escrevi sobre o Who aqui, neste blogue. Foi lá no começo, em 2017. Repito um dado que considero fundamental: Keith Moon e John Entwistle são, a meu ver, o maior baterista e o maior baixista do rock. Sim, respectivamente. E digo mais: Pete Townshend é o melhor compositor que há, no gênero. Melhor que Dylan, melhor que as duplas Lennon/McCartney e Jagger/Richards. Claro que é opinião pessoal, e minha opinião vem com um aval poderoso: Geddy Lee concorda comigo. Isso está na entrevista também.

Sei que é difícil dizer qual o melhor disco de rock que existe. Além da infinidade de grandes discos, muitos deles concentram-se em determinadas épocas, e sob determinadas perspectivas culturais. Como comprovar que Chuck Berry é melhor que Tony Iomi? Ao comparar essas duas lendas, claro, a subjetividade prevalecerá. Aproveitei para (re)ouvir Who’s Next. Sinceramente? Não há canção ruim. Ao contrário: com exceção da curtinha Love Ain’t for Keeping, todas – rigorosamente todas! – são obras-primas.

The Who | Who's Next Cover | Relaxing

Tenho Who’s Next em vinil e em cedê, que traz faixas adicionais, gravadas naquele mesmo ano, mas não durante a enxurrada de gravações que deram origem ao disco original. Naked Eye, Pure and Easy e Water são ótimas, mas a razão de não terem entrado na seleção em vinil é óbvia. Não estavam no mesmo nível. Geddy Lee deve saber disso, assim como Favalessa. Ouvindo mais uma vez – como agora faço – fico na dúvida quanto a meu julgamento. Mas qual, você pergunta. Até o momento, eu considerava Abbey Road, dos Beatles, e Electric Ladyland, de Hendrix, os melhores discos de rock que conheci. Acho melhor reavaliar. Obrigado, Geddy!

A propósito: se você quer saber as histórias acerca do álbum, clique AQUI.

Eric aos 75

Era o ano de 1979 e eu iniciara minha coleção de Gigantes do Jazz, que a Abril Cultural tinha acabado de lançar. Os discos e os encartes eram comprados em bancas de jornal e eu ainda não conhecia bem o jazz, embora reconhecesse minha inclinação para o gênero. Sem contar a inestimável influência de meu querido primo, e também baterista, Marco Antônio Grijó. Sem ele, talvez, o jazz tivesse passado despercebido por mim. Mas aonde quero chegar? A série Gigantes do Jazz apresentou-me Ella Fitzgerald, que por sua vez me apresentou Sunshine of Your Love. Sim, eu cometia a heresia de, aos 17 anos, desconhecer Eric Clapton. Ouvia falar, mas, sabe Deus por quê, não acompanhava sua produção.

A gravação de Ella conta com a participação da orquestra do pianista e leader Tommy Flanagan. É uma gravação de 1969, com 4’25”. Notável, extraordinária. Ella Fitzgerald tem brilho eterno. E quanto a Eric Clapton? A referida canção foi apresentada ao mundo pelo supergrupo Cream, do qual Eric era o guitarrista, em 1968. Os outros componentes, ambos definitivos em seus instrumentos, eram Ginger Baker (bateria) e Jack Bruce (contrabaixo). Quem escreveu, entretanto, a canção? Foi escrita a 6 mãos: Clapton, Jack Bruce e o poeta Pete Brown, que também era roqueiro, mas era bom mesmo com as palavras. Pois não é que o jazz me levou ao hardrock do Cream e, felizmente, apresentou-me Eric Clapton? Então, hoje, dia 30 de março, aniversário deste que é um dos maiores guitarristas de todos os tempos, vai meu presente e minha homenagem:

Play

Assim como sou grato a meu primo, pelo jazz, sou grato a Ella, por Eric. Acho que é assim mesmo que a vida é. E, de preferência, ouvindo Eric Clapton e o Brilho do Sol do seu Amor.

p. .s : Se alguém se interessar pela versão citada de Ella Fitzgerald, é só clicar AQUI.