O Melhor do Jazz #4: os duetos

Eis mais uma postagem sobre o melhor do jazz: os duetos. Sei que poderia escrever sobre as melhores orquestras, os melhores condutores, os melhores arranjadores – e por aí vai. Preferi dar andamento à série com os duetos – ou as duplas, de preferência um cantor e uma cantora, embora haja uma exceção, como se verá. Escrevi sobre álbuns ao vivo, álbuns de estúdio e álbuns de cantores/cantoras. Agora, restrinjo-me à combinação entre dois artistas. Por que faço isso? Primeiro porque quero fazer; depois, porque juntar dois expoentes vocais – que quase sempre estrelam seus próprios discos – é sempre algo curioso.

Sammy Davis, Jr. é um dos grandes cantores populares do século XX. Cantou de tudo, incluindo o jazz. Carmen McRae, e eu já afirmei isso anteriormente, está entre as melhores cantoras do gênero. Boy meets Girl, coletânea da gravadora Decca, resume o que há de melhor nessas duas vozes espetaculares. Arrisco dizer que são as gravações definitivas, por exemplo, de clássicos como Tea for Two, Cheek to Cheek e Baby, It’s cold outside. Não deixe de ouvir a combinação de vibratos entre esses dois. É de aplaudir aos gritos. E, de quebra, com o acompanhamento luxuoso da orquestra de Jack Pleis.

Dizem que Bing Crosby é o maior cantor popular norte-americano. Para mim, é Sinatra, mas sei que a briga é boa. E quando ele se encontra com Rosemary Clooney, a coisa esquenta de vez. A limpidez da voz de Bing é algo notável, extensa. Rosemary tem a voz pequena, de pouco alcance, mas um sussurro seu vale mais que muitos repertórios de cantoras por aí. Esse disco, Fancy Meeting You Here, é uma beleza – e inclui-se nele a faixa Brazil, que na verdade é Aquarela do Brasil, de Ari Barroso. Um disco para quem quer conhecer por que os norte-americanos fizeram a melhor música popular do século XX. Ouça-o por inteiro AQUI.

Irving Berlin é um dos mais criativos e prolíficos compositores norte-americanos – apesar de ter nascido na Rússia. É um craque que compôs canções inesquecíveis como Cheek to Cheek, Alexander’s Ragtime Band e Let’s Face the Music and Dance. Duas dessas estão neste disco absolutamente imperdível de uma dupla que ficará para sempre: Sarah Vaughan e Billy Eckstine. Eu já disse, em algum momento, que Sarah é a mais completa cantora do jazz. Qualquer tema levado por ela torna-se uma gema lapidada, algo rico e eterno. Billy Eckstine é uma espécie de ante-sala do bebop, um barítono rápido e seguro, uma voz potente cheia de vibratos. E um brinde especial: o trompete de Harry Edison. Um discão, que você ouve AQUI.

Imagem relacionadaJunte a melhor cantora do jazz com o instrumentista símbolo do gênero e um disco com o sugestivo e óbvio título será eternizado. É o caso de Together, que só chegou às minhas mãos ano passado. Ella Fitzgerald e Louis Armstrong são duas lendas do jazz, e, como acontece com as lendas, merecem a reverência. São 16 faixas (2 discos em 1) em que tudo dá certo – mas como não daria? Tudo é bom neste álbum duplo, carregado de temas recorrentes da própria dupla: Moonlight In Vermont, They Can’t Take That Away From Me, A Foggy Day, April In Paris, I’m Putting All My Eggs In 1 Basket, Autumn In New York e outras gemas que fazem do jazz a música a ser ouvida sempre. E neste blogue também, se você clicar nas canções marcadas.

Duets With the Dames by Frank Sinatra (2003-09-23) - Amazon.com MusicTudo bem: o disco em questão não é o melhor exemplo jazzístico, mas canções como My Romance, Lover Come Back To Me, Embraceable You, This Can’t Be Love e a inesquecível Tea for Two são belas amostras do gênero. E deixar um disco como esse de fora da lista é algo herético. Frank Sinatra divide o estúdio com June Hutton, Peggy Lee, Dinah Shore, Judy Garland, Doris Day e por aí vai. As Damas não se acanham diante do maior cantor popular do século – ao contrário: parecem divertir-se como se estivessem sentadas num banquinho doméstico, cantando com um copo de uísque na mão. Se é que não estavam. AQUI você ouve um medley com Dinah Shore.

21 opiniões sobre “O Melhor do Jazz #4: os duetos”

  • 24 de dezembro de 2017 em 07:45
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    Grijó,
    Você tem razão. Depois da insuperável Ella Fitzgerald- é covardia colocá-la no páreo com qualquer outra – Carmen McRae vem em segundo lugar, passando monstros vocais como Billie Holiday, Sarah Vaughan, Dinah Washington entre tantas outras.
    Sammy Davis Jr é outro . Seu tom de voz consegue me agradar ainda mais que Frank Sinatra, que dispemsa comentários. Só não ouso dizer gravações definitivas pois é muito arriscado. Apenas para citar o pouco que conheço, gosto mais de Julie London cantando Tea For Two.
    Até hoje só arrisco falar em gravação definitiva para um – que nada tem a ver com jazz – Horowitz no Estudo op 42 numero 5 de Scriabin.

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    • 24 de dezembro de 2017 em 10:55
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      Horowitz é um gigante, embora eu prefira Alfred Brendel.
      Mas isso é papo para outra postagem.

      Ella é a melhor cantora, mas Sarah é mais completa.
      E Carmen é um caso à parte.
      Ou seja: é difícil escolher entre elas.

      Dinah Washington, Ernestine Anderson, Julie London, Blossom Dearie, Alberta Hunter e Billie Holiday são espetaculares, mas não pertencem, a meu ver, à Santíssima Trindade.
      Abraço.

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      • 24 de dezembro de 2017 em 11:10
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        Obs: falei Tea for Two com Julie London mas me enganei. É Blossom Dearie

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          • 25 de dezembro de 2017 em 20:52
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            Uma espécie de Nara Leão. Só que muito melhor

          • 26 de dezembro de 2017 em 17:34
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            Mas, convenhamos, não deixa de ser uma verdade, aimda que exagerada. Mas, com aquela afinação, quem precisa de tanta potência. Depois de Ella – que posso ouvir 1 semana inteira sem cansar – Carmen Mc Rae, Billie Holiday, Blossom Dearie e Julie London estão entre as minhas favoritas. Isso mostra como o jazz é democrático. Agora , Grijó, só me estendendo um pouco no seu post, invejo os norte-americanos em diversos aspectos, mas poucos me atormentam tanto como a escassez de bons cantores que temos em comparação a eles. Não que não tenhamos, mas temos muito mais cantoras que cantores – esses contamos nos dedos. Agora dá uma olhada no time deles….Frank Sinatra,Sammy
            Davis Jr, Tony Bennet, Louis Armstrong, Nat King Cole, Ray Charles, Billy Eckstine..isso que é dreamteam

          • 27 de dezembro de 2017 em 06:57
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            Bing Crosby, Johnny Hartman, Joe Turner…

            Impressiona-me mais o número de bons compositores – a começar por Cole Porter.
            Vc não menciona Sarah Vaughan, que para mim é a mais completa cantora do jazz.

          • 29 de dezembro de 2017 em 09:58
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            Para te ser sincero, neste nível fica difícil diferenciar quem é melhor. Os compositores são espetaculares…Irving Berlin, Rodgers e Hart, Duke Ellington e por aí vai.
            Quanto a Sarah Vaughan ela é excelente, sem dúvidas. Somente o tom de voz que prefiro (sem desgostar o mínimo dela) as outras. Mas, Grijó, para mim do lrimeiro ao décimo lugar é Ella Fitzgerald. O resto é resto (e “que” resto). Sou encantado por Ella.

          • 29 de dezembro de 2017 em 10:07
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            Ah sim uma crítica a Sarah é que, na sua imensidão técnica, me parecia exagerar um pouco nas escapadas da linha melódica

          • 29 de dezembro de 2017 em 10:58
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            Mostrar que era a mais completa não é exagerar, meu amigo Tálib!

          • 29 de dezembro de 2017 em 11:30
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            Mostrar que era a mais completa não é exagerar mas na minha opinião ela exagerava nas fugidas da linha melódica. Deixa ver se consigo me explicar….a título comparativo. Veja Everytime We Say Goddbye com Sarah https://m.youtube.com/watch?v=_47cG58h-XE

          • 29 de dezembro de 2017 em 13:10
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            Já imaginou se enumerarmos as canções que ambas gravaram e passarmos a comparar, como vc fez?
            Seria bacana, mas daria um trabalho dos infernos.
            É uma questão de gosto.

            Nunca neguei que Ella é minha preferida, mas Sarah cantava qualquer coisa. Ella, por exemplo, não gravou alguns gêneros, de modo que não dá para saber como ela se sairia.
            Ambas gravaram – só para constar! – canções dos Beatles. Acho que Sarah saiu-se melhor.
            Ninguém cantou canções de Duke Ellington como Ella.
            Ninguém foi melhor nas canções de Cole Porter do que Sarah.
            Quem cantou Thelonious Monk melhor que Carmen McRae?

            E assim vai.

          • 29 de dezembro de 2017 em 15:21
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            Verdade. Como disse antes…nesse nível as comparações começam a ficar muito difíceis. Grande abraço e um Feliz Ani Novo

          • 29 de dezembro de 2017 em 11:00
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            Tenho quase todos os discos dela.
            Selados.
            Incluindo os songbooks, que saíram pela Verve, e a caixa completa com tudo que ela fez para a Decca.
            Sei que há uns oito ou nove que não possuo, mas ainda encontrarei.

  • 24 de dezembro de 2017 em 13:26
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    Grijó,

    Discos todos excelentes. Meu favorito: Ella & Louis!

    Um abraço.

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    • 3 de janeiro de 2018 em 13:53
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      É boa mesmo.
      Aliás, existe algo do Cole Porter que não seja bom?
      Julie London, que fez um discaço com canções dele, não gravou essa.
      Sinatra e Ella, sim.
      Mas essa do Sammy, que eu ão conhecia, é uma beleza.

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      • 3 de janeiro de 2018 em 16:12
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        Realmente Cole Porter é único.
        Essa do Sammy Davis eu ouço e reouço e não canso.

        Resposta

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