Os poetas marginais da Ilha

Ninguém discute que o que diferencia a literatura da não-literatura é a linguagem – e é justamente ela, instrumento essencial, que, lato sensu, determina as estéticas, adequando-se a um determinado momento histórico ou refletindo-o, como um espelho verbal. Dia desses reli o clássico 26 Poetas Hoje, organizado por Heloísa Buarque de Hollanda, livro considerado por muitos o resumo quase bíblico de uma geração chamada marginal, cujos integrantes – muitos deles, ao menos – compõem o panorama “estabelecido” da poesia brasileira, encaixados que foram num modelo que enquadra e rotula tendências e comportamentos.

Encaixados foram Ana Cristina César – hoje um acepipe para os acadêmicos -, Wally Salomão, Chacal, Charles, Torquato Neto, o global Geraldo Carneiro, Bernardo Vilhena e outros tantos. Nenhuma crítica a isso, que fique claro. Não há qualquer julgamento de valor no fato de um autor, outrora à margem, fazer parte, hoje, do time principal e ser convidado, com devida honraria, para coquetéis e convescotes promovidos por aqueles que antes os criticavam. Não vejo problema: queria eu (mesmo não sendo poeta) estar na pele e no lugar deles. É aí que entra uma outra questão: a marginalidade ainda existe ou se desfez como sorvete ao sol neste mundo globalizado? Existe, claro, e qualquer escritor – ou poeta – residente no ES sabe disso, e com essa triste realidade precisa conviver, sabendo que seu destino será, metonimicamente falando, ser lido por seus pares domésticos, seu vizinho, seu amigo – ou até seu inimigo, mas sempre aquele com quem pode conversar, via whatsapp, redes sociais, fazendo chamadas locais.

Resultado de imagem para paulo roberto sodré poemas desconcertantesIsso não é, nem de longe, uma lamentação – não sou um choramingas -, e sim uma constatação, uma quase obviedade. De quem é a responsabilidade (evito a palavra culpa por ela me parecer freudiana demais)? Dos próprios autores, que deveriam se mobilizar e, munidos de seus originais sob os sovacos, bater às portas das editoras paulistas, mineiras, cariocas? Dos leitores, que pouco se interessam por autores locais e muito menos por aquilo que eles têm a dizer? Das próprias editoras, que não veem a literatura feita no ES como produto em que se deva investir? Do jabá? (Não se iluda: o jabá não é prerrogativa do meio musical). Da qualidade sofrível dos textos por aqui produzidos?

Resultado de imagem para cae guimaraesPoetas são, por princípio e quase obrigação, marginais. Lê-se pouca poesia, neste país. Marginais de qualidade inquestionável – mas ainda assim marginais! – são Waldo Motta, Flávio Sarlo, Orlando Lopes, Benilson Pereira, Gilson Soares, Oscar Gama, Caê Guimarães, Sérgio Blank, Fernando Achiamé, Paulo Sodré. Sem contar os que, em carne e palavras, não estão mais entre nós, como Miguel Marvilla e Renato Pacheco. Quer mais? Consulte o catálogo da Editora Cousa, de Saulo Ribeiro, e você encontrará, entre os novíssimos autores, algumas gemas de valor. A discussão, entretanto, reside num ponto específico: a marginalidade continua na ordem do dia, há muito. Não, não há resistência quanto ao fato – a não ser que se considere a insistência em produzir bons poemas como um exemplo de. Somos todos (poetas ou não) marginais, e com essa dura e triste realidade o escritor capixaba é obrigado a conviver. E evito perguntar até quando?, com medo de que a resposta sugira eternidade.

16 opiniões sobre “Os poetas marginais da Ilha”

  • 29 de outubro de 2017 em 12:30
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    A pouca valorização dos capixabas não é uma exclusividade da poesia, Grijó. Capixaba tem pouco orgulho do que é produzido aqui e valoriza demasiadamente o que vem de fora. É uma miopia inexplicável que faz com que os nascidos aqui no estado – na ilha principalmente – não enxerguem valor simplesmente pelo fato do indivíduo ter nascido e produzido sua obra aqui. A não ser que ele seja projetado ao estrelato, como Roberto Carlos. Neste momento conta-se com o maior orgulho do mundo que o perneta é seu conterrâneo.

    E, definitivamente, a culpa não é de quem produz. Mas do público mesquinho que aqui reside. Algumas casas de show de Rock na cidade têm superlotação quando alguma banda de São Paulo ou Rio de Janeiro dão as caras por aqui – ou quando alguma banda capixaba resolve fazer cover destas bandas consagradas. Na noite da semana dedicada ao artista capixaba autoral, o recinto fica às moscas. Já fui em bienal aqui no estado com a presença do capixaba Anaximandro Amorim e em outra com o mineiro Ziraldo. Não precisa nem perder tempo verificando qual levou mais público e vendeu mais exemplares.

    Porém, não posso cometer uma injustiça sem falar do último festival de Jazz na prainha, com artistas capixabas, que estava lotado. Mas, pelo que eu pude constatar, a maioria dos jovens ali presentes estava mais interessada no food truck do que no som ambiente.

    Não vejo, a curto prazo, uma mudança nesse sentido. Na música, no futebol, na literatura, no teatro e por que não no turismo? Infelizmente o problema do Espírito Santo é o capixaba!

    A propósito, será que os capixabas sabem quem é Nara Leão? Tenho minhas dúvidas…

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    • 29 de outubro de 2017 em 22:48
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      Arthur, lamento dizer que talvez vc tenha razão.
      É cultural, concordo. O que não significa que fiquemos de braços cruzados.
      Não creio que o problema seja somente do público capixaba. No caso da literatura, acho o escritor/poeta da ilha um tanto acomodado em seu reduto tibiriçá.
      Não adianta exigir que se consuma arte feita por estas paragens. É preciso que a arte produzida aqui tenha qualidade. O problema é a divulgação, a penetração no mercado.
      O ES, massacrado por 3 estados potentes, fica às moscas. A culpa, entretanto, não é apenas da geografia. Receio dizer que há variáveis que, num certo sentido, paralisam o artista daqui.
      Mas vamos adiante: levantando as questões, procurando saídas (ou entradas), buscando soluções.

      Sim, muita gente sabe quem é Nara Leão. Sabe também quem São Carlos imperial, Carlinhos de Oliveira e Sérgio Sampaio.
      Abração.

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      • 30 de outubro de 2017 em 11:53
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        Vale a reflexão, Grijó! Essa mudança cultural faz parte de um processo de valorização do produto capixaba de todos os lados, com mais eventos, feiras e shows de pequeno, médio e grande porte com a “marca” capixaba.
        Mas tenho a impressão que o capixaba tem preguiça desse processo, ele só quer saber do produto final. Desportiva Ferroviária jogava para 1000 pessoas na Série D deste ano. Não tenha dúvidas que, se um dia a Desportiva voltar a disputar a Série A, o público capixaba vai voltar a se interessar – e frequentar –
        pelo futebol local. Aconteceu isso com a equipe de futebol de areia no começo do milênio. E assim acontece com a música, literatura, cinema e até mesmo quadrinhos.

        Acredito que quem pode mudar esse cenário é o próprio capixaba. O capixaba que produz, o que consome, o que vende e o que investe.

        Grande abraço, Grijó!

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        • 30 de outubro de 2017 em 23:02
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          Esta é uma questão que me persegue, Arthur, bem antes de estar secretário de Cultura de Vitória: os produtos com a marca capixaba.
          Prefiro trabalhar com a ideia de uma produção artística/cultural em terras capixabas, mas não algo genuíno, original, restritivo.
          Cairíamos na seara da panela de barro e de lá não iríamos muito longe.
          Os tais eventos, shows etc. aos quais vc se refere existem aos montes. a produção é contínua. Os espaços culturais, públicos ou não, são potentes e organizados (Casa Porto, Mucane, Museu do Pescador, FAFI, só para citar a capital). Há muitos outros espalhados pelo estado, sob a égide da Secult. Muita coisa acontecendo.
          O que se quer, afinal? Projeção nacional? Mais divulgação? Dinheiro? O que o artista/produtor cultural/empreendedor quer?

          Eis a questão.
          O debate é longo.
          Forte abraço.

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  • 29 de outubro de 2017 em 13:39
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    existe algum poeta em vitória que não seja marginal? rs

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    • 29 de outubro de 2017 em 22:39
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      Eis a questão.
      ser poeta, no Brasil (onde se prefere radicalmente a prosa), é ser marginal.
      Aliás, com poucas exceções, no mundo inteiro.

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  • 29 de outubro de 2017 em 19:12
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    Pego o gancho do Artur Barcelos lá em cima pra dizer uquiqui sempre falei na imprensa “escrita, falada, televisada e internetada”, quinemqui dizia meu manuvéi jornaista e cineasta Penna Filho.
    – O nativo do ES – fora os da capital secreta do mundo – tem complexo de inferioridade.

    Professor Grijó: teria algum tempo nas 24 horas de sua agenda, algum dia, para fazermos um debate desses na Rádio Clube da Boa Música? http://www.donoleari.com.br , no novo PDO pegando facim, facim, no compuador, celular e outros breguessos infernéticos.
    Tô no @donoleari, tô no [email protected] , tô no maledeto feissibuqui (Oswaldo Oleari ou Oleare) e no 27 33762812. Sim ou não, por favor, me dê um retorno. Abração do seu admirador de sempre, Oleari

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    • 29 de outubro de 2017 em 22:42
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      Oleary, caro amigo e personagem (vc já leu “Os Mamíferos”?), estou à sua disposição, honrado e reverente.
      Vc manda.

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  • 1 de novembro de 2017 em 00:47
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    Mais um inteligente comentário de quem bem conhece o meandro das Letras. Francisco Grijó é sempre corajoso: não tem meias palavras. Sequer o cargo de Secretário de Cultura o faz ter bons modos, ser asséptico, ante uma dada realidade. Ouvi-lo é ter certeza de que verdade não será camuflada.
    Já aqueles marginais de outrora não o são mais: todos (ou quase todos) aderiram ao “status quo”, o que não é nenhum pecado. Vimos em Vitória, na década de 80, um Geraldo Carneiro todo marginal (se bem que grafara um neologismo bem erudito : “milkshakespearian”). Só podia mesmo acabar na ABL. Ou o queriam no IML ,hein ?

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    • 1 de novembro de 2017 em 13:27
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      Marcos Tavares abrilhantando este blogue com suas observações trocadilhescas e sábias.
      Apareça mais, meu caro contista/poeta/marginal!
      Grande abraço.

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  • 2 de fevereiro de 2018 em 14:46
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    Aqui, Brasília, é a mesma coisa.
    O brasileiro Lê muito pouco. A maioria de nossa população vive em centros urbanos com facilidades à leitura, porém não há interesse.
    Hoje em dia mesmo com a internet facilitando o contato com textos, nota-se que a navegação é pela superfície.
    Textos com mais de 10 linhas nem pensar. Vivemos entre a imagem e o vídeo. O texto é somente um chamado.
    Mas há entre esse véu escuro alguns admiráveis leitores, poucos, mas existem. Para a poesia, raros.

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    • 5 de fevereiro de 2018 em 14:00
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      É um grande paradoxo, Humberto. A internet, com sua abrangência (exposição, conectividade, informação), não consegue, como deveria, proporcionar sequer um bom debate sobre literatura e/ou leitura.
      A coisa se tornou cada vez mais superficial, como vc apontou.
      Mas ainda há esperança.
      E como disse Drummond: “Lutar com palavras é a luta mais vã/ Entanto lutamos mal rompe a manhã.”
      Vamos adiante.

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  • 17 de fevereiro de 2018 em 22:50
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    Lembrei-me de Benilson Pereira, creio que era 1994 ou 1995, em Vilha Velha ES, talvez. Estava com minha, à época, esposa e filha, numa praia de ES, tomando refrigerante e comendo camarão quando ele apareceu com sua mochila de couro, oferecendo seus livros, convidei a juntar se a nós, o qual aceitou, numa pequena trégua de um árduo dia de escritor neste país, conversamos, comprei um de seus livros e pedi uma dedicatória. Despedimo-nos, aí senti a dificuldade de ser escritor marginal aqui, a próxima oferta que ele fez para uma pessoa que encontrava -se próximo à nós, fora recusado, pois o mesmo era um engenheiro e nada teria a ver com livros de poesia.

    Onde se encontra Benilson ? um grande abraço .

    Santo Antonio do Sudoeste-PR, 17/02/2018.

    Kenzo.

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    • 18 de fevereiro de 2018 em 12:09
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      Encontrei Benilson há 3 ou 4 meses, quando foi concedida a alguns artistas capixabas a comenda Maurício de Oliveira.
      Conversamos rapidamente e ele me disse que apareceria na Secretaria de Cultura, para tomarmos um café.
      Até agora não apareceu. É um bom sujeito e um bom poeta. Incansável, deve ter vendido uns 50 mil livros em sua trajetória marginal.
      Quando ele aparecer, mencionarei essa sua postagem.
      Vleu!!!

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  • 25 de fevereiro de 2018 em 00:38
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    Valeu, Francisco Grijó, obrigado. Sou apenas um leitor ocasional e eclético, mas o ocorrido na ocasião com o Benilson me marcou, nada contra qualquer profissão e pessoa, mas poderia , penso eu, apenas ter recusado a oferta do escritor trabalhador. Mas faço idéia de como é ser poeta, escritor ou artista aqui nestas terras. abraço.

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    • 25 de fevereiro de 2018 em 21:53
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      Não é fácil.
      Leitores são como caça e pesca. É preciso ter disposição para ir a eles.
      Para alguns escritores, eles nem existem.

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