Freud, Chico, cavalos, charutos

9 Curiosidades Sobre Freud - Curiosa História“Às vezes um charuto é apenas um charuto”, disse Sigmund Freud a um analista que o questionou se o charuto, empunhado pelo fundador da Psicanálise em muitas fotografias, tinha significados fálicos. A autoridade de Freud criou um costume: interpretar à revelia, como se um padrão conceitual pudesse ser encaixado em qualquer situação. Não sei se a resposta do grande pensador é verdadeira; não sei se tal breve diálogo aconteceu, mas serve para ilustrar algo ocorrido nas Olimpíadas de Paris — ainda em andamento. E que gerou este texto.

Eu explico. Foi perguntado a alguém da organização dos jogos se os cavalos — cúmplices dos atletas do hipismo — eram fornecidos pelo comitê olímpico ou se os proprietários dos animais cuidavam do transporte dos equinos até o país em que sairiam pulando obstáculos, trotando e se exibindo ao público e aos juízes. Um internauta fez uma brincadeira, usando as palavras de Chico Buarque, contidas na conhecidíssima parceria com Sivuca, João e Maria: “O meu cavalo só falava inglês.” Lembro-me dos meus 20 anos, quando, na universidade, conversávamos sobre política, ditadura e que tais, e alguém afirmar que o cavalo da canção representava a repressão dos militares. E a língua inglesa nada mais era que uma referência de Chico ao apoio dos EUA ao regime.

Músicas, vídeos, estatísticas e fotos de Chico Buarque | Last.fmEm outras palavras: houve um momento em que tudo o que o compositor carioca escrevia era interpretado como uma ação contrária ao repressivo momento político brasileiro. Isso soa tão resumitivo quanto injusto. Chico Buarque foi muito além da política, e essa atitude heroica — de baluarte da democracia — nunca esteve em seu radar, a despeito de canções como Apesar de você, Tanto Mar, Cálice, Acorda Amor (sob pseudônimo), Deus lhe pague e algumas poucas outras. Vale, entretanto, a interpretação do leitor/ouvinte, afinal ela diz muito mais sobre quem lê e ouve do que sobre a obra em si.

Eis aí uma das belezas da arte: a capacidade de ela nos fazer interpretá-la de acordo com o que somos, não de acordo com o que ela é. A carência de alguém que falasse por uma parcela significativa da juventude da época era tão grande que Chico Buarque se tornou essa voz, mesmo que muitas de suas canções não tivessem a intenção de dizer mais do que diziam. Não importa. Se um charuto, em algumas situações, é apenas um charuto realmente não faz diferença. Infeliz é o artista que quer ter a última palavra sobre sua criação.

14 opiniões sobre “Freud, Chico, cavalos, charutos”

  • 2 de agosto de 2024 em 09:20
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    Três amores em um só texto. Por ordem: Freud, Chico e cavalos – os meus, falam francês rsrsrs

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  • 2 de agosto de 2024 em 12:41
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    Eu sou da tribo que adora o cancioneiro buarquiano mais pela estética (sobretudo pela polissemia e pela melopeia). Palavras jamais vencem canhões. Geraldo Vandré foi um poeta e tanto, sim. Interpretação é qual umbigo e cachimbo: só o dono é que o sabe bem. ( MT)

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    • 3 de agosto de 2024 em 19:09
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      Chico é um grande poeta, mais até que um grande letrista.
      Creio que sejam coisas distintas, embora próximas.

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  • 2 de agosto de 2024 em 15:50
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    Esse texto (muito bom, como sempre!) me fez lembrar de duas canções: “Senhora liberdade”, de Wilson Moreira e Nei Lopes, e “Tô voltando”, de Maurício Tapajós e Paulo César Pinheiro. Ambas tiveram interpretações diferentes das ideias iniciais dos autores. Na primeira, Wilson Moreira lembrava dos lamentos que ouvia dos presos, quando trabalhava como carcereiro. E na segunda, a inspiração foi simplesmente a vontade de voltar para casa que o Maurício Tapajós manifestava quando em excursão pelo país.

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    • 3 de agosto de 2024 em 19:10
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      Lembro-me da canção “Tô voltando” como um símbolo dos exilados, que retornaram a partir da anistia.
      É vero.
      Mas vale, não? Essa é a questão.

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  • 2 de agosto de 2024 em 18:03
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    Caro mestre Grijó,

    Seu texto me interpelar para uma pintura surrealista do belga René Magritte: um cachimbo com a frase “ceci n’est pas une pipe” (isto aqui não é um cachimbo). Como “realmente” não é. É uma pintura. E somente uma pintura. Mas o pintor interpela o espectador para uma reflexão.

    A frase final do seu texto “Infeliz é o artista que quer ter a última palavra sobre sua criação” diz muito disso. A obra de um artista, ainda que esta tenha uma razão, a única razão de uma obra de arte e causar uma reflexão. Se não for assim, não é uma obra de arte, mas um artezanato. Numa simples diferenciação, enquanto um decora, a outra interpela e dialoga com o observador. E como escritor, digo que isso vale para um texto literário. Pois uma obra literária, em qualquer gênero, é escrita para isso. E nesse diálogo com o leitor ela se recria como se a diegese do texto entrasse em simbiose com a psique (onde o texto é imaginado durante a leitura) e o mundo externo do leitor. E esse processo de recriação é único em cada leitor, o que faz com que o imaginário (e a interpretação) de uma obra pertença a quem a lê ou observa, e não ao criador da obra.

    Como na pintura surrealista de Magritte, nossa percepção das coisas depende de muitos outros fatores (internos e internos) para que possamos obter nossa própria interpretaçäo. E isso é arte. Uma imitação de uma suposta realidade. Se um charuto é apenas um charuto (Freud), ou se uma imagem não é o objeto em si (Magritte), depende de quem está a observar.

    Um abraço ao mestre.

    Uedison Pereira

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  • 2 de agosto de 2024 em 18:47
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    Seu excelente texto, Grijó, fez-me pensar em quantas interpretações fiz na juventude da música Losing My Religion do R.E.M. até saber pelo Wikipédia que o termo título da música é uma expressão idiomática do Sul do EUA relacionada a um amor não correspondido. De toda sorte, tenho certeza que os membros da banda me perdoariam pelos meus devaneios interpretativos.
    Abs!

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    • 3 de agosto de 2024 em 19:13
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      Hahahaha…tb não sabia disso.
      Boa!
      Se os membros da banda não perdoarem a vc, eu perdoo.

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  • 3 de agosto de 2024 em 07:20
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    Perfeito. Se o prazer no homem é sempre fálico, um charuto é sempre fálico. Para alguns o cigarro, o chiclete, o celular, o chapéu.

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  • 3 de agosto de 2024 em 16:04
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    O texto me lembrou de Bathes da autor. Mas também me transportou para o ensaio de Sartre, Que é a literatura?

    Um abraço, mestre.

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  • 6 de agosto de 2024 em 08:16
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    Realmente juma justa homenagem ao Chico. Está que sabe o que diz mesmo quando o charuto pareça apenas um charuto.

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