José Rubem Fonseca foi o camisa 10 durante os anos 1970. Manteve-se em campo até meados da década seguinte, quando se cansou. Não precisava provar mais nada: nem que sabia manejar as palavras, nem que sabia construir personagens ou boas tramas. Podia ter-se aposentado, mas continuou a insistir em criar — e criou. O talento continuava, mas o fôlego foi, aos poucos, perdendo força, mesmo sendo capaz de, em 2003, escrever o ótimo Diário de um Fescenino. É seu último grande voo, seu derradeiro salto para a eternidade. Seus grandes livros? O Caso Morel, A Coleira do cão, O Cobrador, Feliz Ano Novo, Bufo & Spalanzani e sua obra-prima, A Grande Arte. Todos, coincidentemente, entre 1965 e 1985.

Ok, ok. Uma exceção, talvez, para Agosto — mas eu disse talvez. Preciso pensar melhor sobre isso. O que quero dizer, com esse preâmbulo? Que não há livro melhor sobre o qual falar, nesta época do ano, do que Feliz Ano Novo — um clássico das histórias curtas na literatura brasileira. Em 1975, durante o governo Geisel, Fonseca expõe, com crueza e vigor estético, a oposição entre classes sociais. O livro não se resume a isso, mas o conto-título é o escancaramento da diferença entre os que dão as cartas e os descartados sociais. Há contos antológicos, como Nau Catrineta — sobre canibalismo —, o metalinguístico Intestino Grosso e o divertido e futurista O Campeonato, sobre potência sexual.
A linguagem (o que define a literatura) é marcada pela oralidade, e em algumas histórias o vocabulário — por muitos considerado chulo, pornográfico — é expresso de forma rude, desleixada, bem a gosto da realidade periférica que, em muitos casos, é retratada. Há outras histórias em que a linguagem é mais bem elaborada, mais acadêmica, como o diálogo entre o entrevistador e o Autor, no citado Intestino Grosso. Rubem Fonseca é craque nisto: representar linguisticamente cada camada social presente no enredo. Ninguém conseguiu isso — ao menos não com tanta precisão — na literatura contemporânea.

Uma curiosidade: no conto Dia dos Namorados, a personagem central é um advogado de apelido Mandrake. Sim, tornou-se famoso: estrelou A Grande Arte, vários contos e uma pequena novela, intitulada Mandrake, a Bíblia e a Bengala, de 2005. No citado conto, ele mesmo narrador, diz “quando nasci me chamaram de Paulo, que é nome de papa, mas virei Mandrake, uma pessoa que não reza, e fala pouco, mas faz os gestos necessários.” Alguém ainda se lembra de Mandrake the Magician? Aquele que, nos gibis que estrelava, hipnotizava instantaneamente seus oponentes fazendo gestos? Às novas gerações: ao lado, na imagem. Pois é. Rubem Fonseca foi mágico por 20 anos. E para muitos ainda é.
Para mim o melhor conto do Ruben Fonseca é Os anjos da Marquise. Melhor difícil – foram tantos!
Não esqueço o filme Extorsão, estrelado por Kate Lyra e Paulo Cesar Pereio. A série Agosto, Buffo Spalanzzini.
Só näo li Ruben mais que Carlos Heitor Cony.
O selvagem da ópera, li; Jonas – o copromanta li; Mandrake, a Bíblia e a bengala, li; e porque li Feliz Ano Novo é o que lhe desejo, Grijó.
Valeu, confrade.
Eu li quase todos dele. Gostei muito dos que citei, e “O Romance Morreu”, que é livro de crônicas.
Ótimo.
Fonseca, como eu disse, foj craque. Rivalizou com João Ubaldo e com Dalton Trevisan. Fera!
Os Anjos das marquises é ótimo.
Um tanto assustador, mas ótimo.
Excelente artigo e bela rememoração sobre o Fonseca.
A história não apagará sua obra e seu destino.
Um Mandrake (advogado investigador incansável) sem Lothar
Parabéns pela análise !
Sem dúvidas.
A história vai colaborar com sua memória.
Ruben Fonseca com sus sensibilidade escreveu “diferença entre os que dão as cartas e os descartados sociais”.
Em muitas outras histórias, sempre muito sensível ãs mazelas sócias que foram descritas com muita sensibilidade. “Foi mágico por 20 anos e para muitos ainda é”
É preciso falar mais?