Jethro Tull revisitado (um prelúdio para Mick Abrahams)

Album Art Exchange - Stand Up by Jethro Tull - Album Cover ArtSe alguém perguntar — a quem gosta realmente de rock — qual a grande banda progressiva, é possível que se ouçam nomes como Yes, Pink Floyd, King Crimson e Genesis. São essas, evidentemente, e com justiça, as mais conhecidas, mais famosas. Rock progressivo é coisa de europeu, flerta com o jazz, com a música erudita, usa e abusa de sintetizadores, teclados, algumas letras são longas, os arranjos são complexos. É a parte adulta do rock: não é, em sua essência, feito para dançar nem  para servir de música de fundo. É som para se ouvir mesmo. Mas por que falo de rock? Porque acabei de ouvir Stand Up, o segundo álbum da ótima banda Jethro Tull. Está AQUI, caso queira ouvir.

Eu conheci o Jethro Tull em meados dos anos 1980, quando ouvi Thick as a brick por acidente, na casa de um amigo. Não dei muita bola, mas fiquei curioso — para dizer o mínimo — quando soube que o mesmo artista, no caso Ian Anderson, líder da banda, dava conta da flauta, do acordeão, do trompete, do saxofone e do violino. E ainda cantava, com uma voz que, se não tinha muito alcance, era marcante, singular. Apreciei e, algum tempo depois, ouvi This Was, o primeiro disco da banda. Se já apontava como destaque no rock progressivo, ainda havia uma vantagem: o guitarrista Mick Abrahams, que só tocou com o grupo neste disco. Consta que, por não viajar de avião, optou por deixar a rapaziada a ver navios.

A versão oficial é outra: diferenças criativas com Ian Anderson. Ok, então. O disco que ilustra a postagem, e que acabei de ouvir, é de 1969 — segundo álbum —, e Mick, sem alçar voo, deu lugar a Martin Barre, outra fera nas cordas, além de cuidar de muitos arranjos de canções. Há quem diga que foi o par perfeito para o líder da banda. Pode ser, mas eu ainda fico com Mick Abrahams; confesso, todavia, que Mr. Barre deu conta do recado. Ouça o disco e você perceberá isso. Há uma outra questão, que, a meu ver, valoriza o álbum: Ian Anderson, e ele mesmo afirma isso, bebeu na fonte jazzística de Ornette Coleman, de Charlie Parker e do alucinadamente criativo Rahsaan Roland Kirk.

Cinco Músicas para Conhecer: Jethro Tull sem flauta

Claro que ao ouvir o disco, mesmo en passant, qualquer um que aprecie a música vai perceber o quanto há de folk nas faixas. Jon Renbourn, do Pentagle, Bert Jansch e, claro, Bob Dylan são influências evidentes. Um tempo depois, já em fins dos anos 1990, comprei um cedê intitulado At Last, da banda de Mick Abrahams, meu guitar hero que, claro, será assunto de uma postagem só dele. Por enquanto, o Stand UP, do Jethro Tull, dá as cartas. Aprecie sem moderar-se.

Caetano, Luiz Guilherme: última palavra

Domingo após a segunda prova. Enem, 2024.

Rola um vídeo na internet em que o grande compositor e cantor Caetano Veloso resolve uma questão do Exame Nacional do Ensino Médio — o ENEM — em que ele mesmo fora citado.  Caetano não titubeia, escolhe a alternativa – e acerta. Poderia ter errado, como já aconteceu anteriormente, há uns dois anos. Eis então a pergunta de resposta óbvia: como pode o autor não saber a resposta correta sobre o texto que produziu? Resposta simples: o autor escreveu o texto, criou-o, produziu-o. O autor não o leu, de modo que a pergunta é feita para quem leu o texto; não para quem o escreveu.

Lembro-me de quando, há mais ou menos 35 anos, a UFES tornou obrigatória a leitura do romance A Nau Decapitada, de Luiz Guilherme Santos Neves. Sendo eu professor para alunos que querem acessar a universidade, preparei-lhes, como uma prova simulada, questões relativas à obra. Alguns acertaram; outro, não. Lembro-me também de mostrar as questões ao próprio autor, Luiz Guilherme que, ao tentar resolvê-las, não obteve êxito. Em bom vernáculo: errou-as. Eis mais uma vez o axioma: o autor não é leitor de si mesmo. Não possui a isenção necessária para, racionalmente, avaliar o texto.

Caetano, na verdade, avaliou uma crônica em que era citado – não um texto de sua lavra, criado e produzido por seu cérebro privilegiado, além da sensibilidade aguçada que possui ao escrever canções. O envolvimento emocional do autor com sua obra atrapalha-o, confunde-o. Tente imaginar um poeta, um escritor ou um compositor que, diante de sua criação, pergunta-se: o que eu quis dizer com isso? Ou, pior: como esse texto pode ser interpretado? Não é essa a função do artista.

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Eis uma outra questão: quem tem a última palavra sobre um texto literário? Qual a interpretação tão correta quanto definitiva? Claro que interpretações pressupõem elementos que as justifiquem, mas a arte — como um todo — pode (e deve) possui inúmeras significações. Eis sua beleza e sua função: multiplicar-se em significados. Textos literários cuja interpretação não é variável correm o risco de não serem tão literários assim. Ou de serem mal escritos. Enfim, é um debate que merece atenção. Por enquanto, no meu caso, fico assim: torcendo para não precisar resolver uma questão sobre meus próprios livros.

Tom Jobim & Jon Bon Jovi

Um querido amigo, professor no RJ, contou-me, estupefato:

“Pedi a meus alunos, todos na faixa dos 16 anos, que me apontassem um grande sucesso de Tom Jobim. Os alunos entreolharam-se, e os olhares pareciam perguntar ‘Quem é Tom Jobim?’. Eis que uma menina, mais espertinha e contumaz usuária de celulares conectados ao mundo, perguntou: ‘É esse?’, e mostrou-me uma foto — e subsequentes preciosas informações — sobre Jon Bon Jovi.” Para quem não sabe, este, abaixo, é Antônio Carlos Jobim:

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Sim, caros sexto e sétimo leitores, é sério. A despeito do distante parentesco — afinal ambos os nomes possuam o, j e i, sem contar a nasalização após o fonema /o/ —, o problema não é confundir o gênio com o pop star. O real problema reside em não fazer ideia de quem é Tom Jobim. Ou pior: sequer ter ouvido falar nele. Convivo com essa realidade e, ao contrário de lamentar e pensar em suicídio, tomo-a como combustível para continuar meu trabalho. Insisto no árduo (e muitas vezes infértil) ofício de levar a essa meninada — no meu caso, pré-vestibulandos entre 17 e 20 anos — informações sobre o que vale a pena. Ou, por outra: o que eu penso que vale a pena.

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Claro que há exceções. Dia desses, surpreendi-me: uma aluna perguntou-me se eu conhecia a cantora Carmen McRae. Pensei imediatamente em pedir a Jorge Bergoglio que, sendo ele meu xará, rezasse uma missa — no Vaticano. É uma pergunta que, dado o ambiente e o costume, chega às raias do milagre dos pães e dos peixes. Comemorei tanto que estou escrevendo sobre. Aproveitei e sugeri a ela que lesse uma postagem sobre a distintíssima e extraordinária cantora Carmen. AQUI, caso alguém, além da aluna, deseje ler.

Eis a questão: qual o papel de um professor? Entristecer-se e, sozinho, no silêncio da noite, embebedar-se? Crer-se cúmplice do desconhecimento e, então, ingerir a letal ricina, proteína encontrada exclusivamente no endosperma das sementes de mamona? Frustrar-se com a duvidosa opção dos alunos ou, sabendo dessa triste realidade, oportunizar que eles conheçam algo além do que é veiculado pela restrita web que frequentam? Creio que a opção em negrito seja a adequada. Vou em frente, sempre. Drummond tinha razão ao afirmar “Lutar com palavras / é a luta mais vã. / Entanto lutamos / mal rompe a manhã.” Sem heroísmos, mas cumprindo a tarefa.

Músicos pintores #4: Dorival Caymmi

Acho Dorival Caymmi chato de doer. Não somente ele, mas a família inteira: Danilo, Dori e Nana entram na dança. Evidentemente, falo da música, do que eles produzem. Acho realmente entediante — ao mesmo tempo em que, paradoxalmente, não somente reconheço a importância musical dos 4 (o patriarca, mais), como chego a desconfiar que cometo um grande pecado ao achá-los chatos. Pode ser, mas, por enquanto, concordo comigo mesmo. Por outro lado, Dorival, o chefão familiar, pintava bem à beça. Era um craque, sua pintura era tão contundente quanto de aparente simplicidade. Observe isto:

Sem título - Dorival Caymmi - Dorival Caymi

Não há título, não há olhos, não há feições. Apenas o movimento da família em busca de algo – que provavelmente não será alcançado. O traço é aparentemente simples, sem rasuras, mãe grávida, pai pescador, crianças em fila. Eu, dentro de limitações críticas sobre pintura, acho um quadro genial. O primitivismo foi muito além; a simplicidade obteve algo lírico, pela citada leveza, e ao mesmo tempo narrativo. Há uma história sendo contada, que continuará num próximo capítulo. Caymmi foi certeiro.

O Nordeste é um tema de cem anos. Ou mais, se considerar que Alencar escreveu O Sertanejo mesmo sem nunca ter pisado o sertão. Virou tema literário, de fato, com o pessoal de 1930: Zé Lins, Graciliano, Raquel, Zé Américo. E, claro, seu irmão de armas: Jorge Amado. Caymmi fez, na pintura e na música, o que Jorge fez nos enredos: uma Bahia cheia de graça, beleza natural, sensualidade, gente simpática e solidária, misticismo e religiosidade. A cultura baiana — e nordestina, como um todo — é seu tema quase único.

Bahia: candomblé, pescadores, percussão — cuja origem é africanidade —, natureza, mar. Que elementos são mais necessários que esses, perguntou certa vez o próprio Caymmi. Não se sabe se o assunto é restrito pela próprias limitações do artista ou se o universo que ele reconhecia lhe bastava. Não interessa: o resultado é tão simples quanto original. Mais ou menos como sua música – só não é pintura aborrecida, chata (a meu ver, repito!). Ao contrário: é vivaz, alegre. Abaixo, o artista em ação, e diante de si personagens caros à Bahia. Caros a ele também.

 Caymmi com pincéis e telas: Rubem Braga dizia que ele foi o único a captar seu jeito de ser em uma pintura Foto: / Divulgação

Chico, o mensageiro

O extraordinário Art Blakey é, para muitos apreciadores do jazz, o melhor baterista do gênero. Eu prefiro Louis Hayes e Max Roach, mas não é isso que interessa. Um dos grandes feitos de Mr. Blakey foi ter levado o jazz a quem não o conhecia — ou, ao menos, a quem não tinha informações suficientes sobre o que era aquela música. Criou os Jazz Messengers em 1955, com o auxílio luxuoso do não menos extraordinário Horace Silver, pianista de primeira.

Mas não é sobre o jazz que quero falar — e sim sobre o mensageiro. Ou seja, aquele que leva a informação e a dissemina. Vou explicar direito. Em 2024, ano corrente, Chico Buarque de Holanda completou 80 anos. Homenagens em redes sociais, tevês, jornais impressos ou não. Depoimentos de amigos, de críticos, de produtores musicais e de irmãos de armas. Por falar em irmãos, a família manifestou-se: como não admirar seu mais ilustre membro? É minha vez de agradecer. E falo com tranquilidade: obrigado, mensageiro! Vou explicar direito mais uma vez.

Em dezembro de 1978 eu era um rapaz de 16 anos que ouvia rock (obrigações adolescentes), disco music (influência da época) e as big bands norte-americanas, das quais meu pai era fã. Nesse mesmo dezembro, Chico Buarque — de quem eu apenas ouvira falar — lançou o disco Chico Buarque, o famoso disco da samambaia, em cujos sulcos brilhavam Cálice, Até o Fim, Trocando em Miúdos, Tanto Mar, a tristíssima Pedaço de Mim, a censurada Apesar de Você e outras. No outro ano, em seus primórdios — últimos dias de janeiro —, coloquei o disco na vitrola e a epifania veio à tona. Sim, foi um momento epifânico, revelador. A ponto de eu ignorar, quatro anos depois, a música de minha geração, o BRock.

Mantive-me na MPB, ao contrário da maioria dos amigos, que foram na onda de Paralamas, Titãs, Plebe Rude, Legião Urbana, Camisa de Vênus e mais algumas tantas. Para mim, uma estrofe de Chico valia mais do que tudo o que Renato Russo e Herbert Vianna escreveram. Ainda vale. E o mensageiro? Bem, Chico me levou a Caetano, a Gil e a Vinícius, de imediato. Depois, a Edu Lobo, a Toquinho, a Francis Hime, ao MPB4 e aos sambistas da velha guarda. Merece medalha, merece homenagem, merece agradecimento. Sem Chico Buarque, eu estaria ouvindo o quê? Dinho Ouro Preto? Humberto Gessinger? Valeu, Xará, pelo livramento!

Freud, Chico, cavalos, charutos

9 Curiosidades Sobre Freud - Curiosa História“Às vezes um charuto é apenas um charuto”, disse Sigmund Freud a um analista que o questionou se o charuto, empunhado pelo fundador da Psicanálise em muitas fotografias, tinha significados fálicos. A autoridade de Freud criou um costume: interpretar à revelia, como se um padrão conceitual pudesse ser encaixado em qualquer situação. Não sei se a resposta do grande pensador é verdadeira; não sei se tal breve diálogo aconteceu, mas serve para ilustrar algo ocorrido nas Olimpíadas de Paris — ainda em andamento. E que gerou este texto.

Eu explico. Foi perguntado a alguém da organização dos jogos se os cavalos — cúmplices dos atletas do hipismo — eram fornecidos pelo comitê olímpico ou se os proprietários dos animais cuidavam do transporte dos equinos até o país em que sairiam pulando obstáculos, trotando e se exibindo ao público e aos juízes. Um internauta fez uma brincadeira, usando as palavras de Chico Buarque, contidas na conhecidíssima parceria com Sivuca, João e Maria: “O meu cavalo só falava inglês.” Lembro-me dos meus 20 anos, quando, na universidade, conversávamos sobre política, ditadura e que tais, e alguém afirmar que o cavalo da canção representava a repressão dos militares. E a língua inglesa nada mais era que uma referência de Chico ao apoio dos EUA ao regime.

Músicas, vídeos, estatísticas e fotos de Chico Buarque | Last.fmEm outras palavras: houve um momento em que tudo o que o compositor carioca escrevia era interpretado como uma ação contrária ao repressivo momento político brasileiro. Isso soa tão resumitivo quanto injusto. Chico Buarque foi muito além da política, e essa atitude heroica — de baluarte da democracia — nunca esteve em seu radar, a despeito de canções como Apesar de você, Tanto Mar, Cálice, Acorda Amor (sob pseudônimo), Deus lhe pague e algumas poucas outras. Vale, entretanto, a interpretação do leitor/ouvinte, afinal ela diz muito mais sobre quem lê e ouve do que sobre a obra em si.

Eis aí uma das belezas da arte: a capacidade de ela nos fazer interpretá-la de acordo com o que somos, não de acordo com o que ela é. A carência de alguém que falasse por uma parcela significativa da juventude da época era tão grande que Chico Buarque se tornou essa voz, mesmo que muitas de suas canções não tivessem a intenção de dizer mais do que diziam. Não importa. Se um charuto, em algumas situações, é apenas um charuto realmente não faz diferença. Infeliz é o artista que quer ter a última palavra sobre sua criação.

A infância de Jesus

Hector Berlioz é o maior nome do romantismo francês. Na música, evidentemente. É o que Victor Hugo representa para a literatura: o gênio puro, o artista máximo de uma época. Ouvi, durante a manhã de sábado, o oratório L’Enfance du Christ, obra superlativa de todo o romantismo europeu. Charles Munch, maestro linha-dura, foi diretor musical da Boston Symphony por 13 anos, e em 1956, gravou essa peça musical de pouco mais de 90 minutos. Obra-prima, levada às alturas por Cesar Valletti — narrador e centurião romano —, Maria (Florence Kopleff), José (Gérard Sousay) e Giorgio Tozzi, que acumula as funções de Herodes, Polydorus e um anônimo pai de família.

Berlioz não era grande coisa como instrumentista. Mal sabia tocar violino, piano ou cello. Seu instrumento, de fato, era a orquestra, como um todo. Ninguém o superou, em qualquer época: é o pai orquestral de Wagner e de Strauss, que, pode-se afirmar, não foram além dele. Em L’Enfance du Christ, porém, está comedido, afinal é um ofertório, e arroubos orquestrais não são bem vindos. Sua influência é inegável, embora — e isso é realmente curioso — não tenha deixado discípulos. Não há registro de alunos de Berlioz.

Abordar a infância de Jesus não é algo corriqueiro. Preferem-se, claro, a vida milagreira, as peregrinações, a crucificação e, lógico, o que o distingue dos outros seres humanos: a ressureição. O que chama a atenção é a narração: direta, sem floreios. Cesar Valletti, tenor que brilhou como Don Otavio, na mozartiana Don Giovanni, abrilhanta o oratório com uma clareza de fazer inveja a um professor de francês. E olhe que Valletti era romano! A estrela, porém, é Giorgio Tozzi, que interpreta Herodes, em sua angústia cheia de terror e urgência. Hector Berlioz, um autêntico antirreligião, sentiu-se à vontade com o tema.

A novaiorquina Florence Kopleff faz uma Maria um tanto tímida, mas nem por isso distante da beleza e do gozo que essa figura gera nos católicos. Vale ouvi-la com cuidado, observando o frescor de sua voz límpida. Fui buscar no YouTube as imagens dessa gravação. Não há, após quase 70 anos. Há, entretanto, esta AQUI, com o Coral Monteverdi e John Eliot Gardiner mandando ver. Dizem que há uma gravação estupenda com o belga Philippe Herreweghe, mas eu não conheço. Certamente é coisa fina, mas eu gostaria mesmo era de ter testemunhado o trabalho de Munch.

A propósito: o disco em questão é duplo, e traz as obra Les nuits d’eté — que ficará para uma postagem futura.

A casa de Ahmet

Ahmet Ertegün foi patrão de Pelé, do Led Zepellin, de Ray Charles, de Aretha Franklin e dos Rolling Stones. Está bom para você? Foi chefão, junto com Herb Abramson, da Atlantic Records e do NY Cosmos, compôs várias canções, entre elas o clássico Mess Around, imortalizado pelo citado Ray Charles. Apaixonado por arte moderna, era um colecionador de marca — aquele que consegue, com seu prestígio, embutir valor em obras pouco conhecidas para, mais tarde, ganhar mais dinheiro ainda. Já era rico quando chegou aos EUA. O pai, embaixador da Turquia naquele país, amava a música — assim como a mãe, que levou os filhos a ouvir o que valia a pena.

Sua primeira paixão foi o jazz — que o levou ao ao rhythm and blues e, depois, ao rock, cujo apogeu presenciou e, de certa forma, colaborou para que existisse. O documentário mostra isso. Entrevistas com Mick Jagger, Keith Richards e Robert Plant — que se tornaram amigos pessoais dele — expressam, através do bom humor e com doses cavalares de gratidão, o que Ahmet Ertegun foi capaz de fazer. Não só por eles, mas pela música e por sua difusão.

A gravadora Atlantic é um braço da Warner Music Group, um colosso de produção musical. O jazz, especificamente, ficava sob o guarda-chuva de Nesuhi, irmão mais velho de Ahmet, e também alucinado por música. Foi ele o responsável por virem à superfície discos fundamentais de Charles Mingus, Ornette Coleman e John Coltrane. O dedo de Midas, entretanto, era de Ahmet, cujos olhos viam que o futuro pertencia à juventude e, portanto, ao rock.

Há quem torça o nariz — eu, por exemplo — para o cast da Atlantic, hoje. AQUI você entende o por quê. A questão mais importante é histórica, é o legado, a transformação. O que Ahmet Ertegun construiu não foi somente uma gravadora poderosa e fundamental — mas realmente uma casa, que abrigava filhos distintos, com visões tão distintas quanto. E que fizeram do século que passou, e ainda deste, o registro sonoro do que eles representaram. Só para constar: Ahmet não está mais entre os vivos. Morreu há 18 anos, após uma queda num show dos Stones, quando entrou em coma.

Morre Ahmet Ertegun, Midas da Atlantic Records

AQUI, o documentário na íntegra, sob a direção de Susan Steinberg. Caso queira saber mais.

Sammy Davis, Mike Curb

Já disse e repito: Laurindo de Almeida é um dos grandes artistas brasileiros. Os norte-americanos sabem disso melhor que nós, conterrâneos do violonista. Escrevi sobre ele AQUI, na mesma postagem em que mostrei minha predileção por Sammy Davis, Jr., um dos maiores cantores populares dos EUA. Ok, deu o azar de ter nascido no mesmo século de Sinatra e Bing Crosby, mas está no top 5, se é que um top 5 se faz necessário. Sammy é craque: seja no swing, no jazz, no blues, na Bossa Nova. Dividiu com Carmen McRae um dos melhores discos de pop jazz que conheço, e sobre o qual escrevi. Quer ler? Clique AQUI.

E quanto a Mike Curb? Já ouviu falar? Possivelmente sim, mas, por descargo de consciência, aí vai uma súmula: produtor musical, compositor de primeira, ex-vice governador da Califórnia, chefão de eventos esportivos automobilísticos, cristão até a medula e criador de um dos grupos vocais mais bacanas dos anos 1970, The Mike Curb Congregation. E daí? O que Sammy Davis, Jr. tem a ver com isso? Pois o distinto cantor se encontrou com o grupo vocal e produziu um disco/coletânea extraordinário, intitulado Best of Sammy Davis Jr. and The Mike Curb Congregation. Eis a capa:

A potência vocal de Sammy, limpa e precisa, combinada ao primor melodioso do grupo, resultam numa festa — na melhor acepção que essa palavra possa ter: alegria, diversão, qualidade musical, técnica, identificação, entusiasmo. Temas já consagrados como The Candy Man, That Old Black Magic, I Can Do That e Singing in the Rain estão lá — sem contar a deliciosa Keep Your Eye on the Sparrow, tema do seriado policial Baretta, que passava na Globo nos anos 1970. É também conhecida pelo título óbvio de Baretta’s Theme. O título, numa tradução livre, é algo como Fique esperto!

Sammy Davis, Jr. | Biography, Movies, & Facts | Britannica

Não é fácil — aliás, nunca foi — encontrar discos de Sammy Davis, Jr. no Brasil. Tenho alguns vinis e alguns cedês, mas, levando em conta a discografia desse enormíssimo cantor (47 discos oficiais), conheço pouco do que ele deixou registrado. O Spotify ajuda um bocado, embora esse disco da postagem não esteja lá. Em compensação, o disco dele com Buddy Rich, The Sounds of ’66, e o fabuloso encontro com Count Basie, Our Shining Hour, estão lá. Se você não conhece nenhum dos dois, está perdendo. Ganha quem ouve Sammy Davis, Jr., um dos maiores cantores populares do século passado. Não, não duvide dessa afirmação. Ouça e me diga se estou certo.

Músicos pintores #3: Bob Dylan

Bob Dylan é o grande trovador norte-americano. Ganhou Nobel, fez um punhado de discos, escreveu letras longas que diziam verdades para a juventude, mudou de gênero uma ou duas vezes, fez rock, fez folk, influenciou gerações e escreveu canções imortais. E ainda por cima usou sua música para aventurar-se numa outra área: a pintura. É o nítido caso da Teoria das Correspondências, de Baudelaire. Bob Dylan assumiu essa ideia, e fez a audição conectar-se à visão numa sinestesia mais-que-perfeita. Observe o quadro Closing Time, de 2020.

See Bob Dylan's Cinematic Paintings, Welded Sculptures and More | Smart News| Smithsonian Magazine

Olho para o quadro e vejo a desolação do blues, o after hours decadente, do submundo, a tristeza exposta como se fosse uma obrigação para a arte. Ouço a música sublinhando significativamente a cena: a melancolia da guitarra, o som da bateria espaçado e simples, cheio de lacunas. Uma possível Marilyn, ao alto, observando, de sua cama, a derrocada de um homem enquanto o ambiente vai-se fechando. Abaixo, Manhattan Bridge, Downtown New York, de 2016, a visão pessoal (e de um ângulo improvável) de um dos pontos mais icônicos de Nova Iorque.

Limited edition Bob Dylan painting collection set to go on display in Bath | Bath Echo

Há algo de Edward Hopper nos trabalhos de Bob Dylan. A solidão das personagens é explícita, tendo a degradação do ambiente como testemunha e consequência. Dylan volta no tempo: opta por retratar uma época extemporânea — anos 1950 e a década seguinte —, como forma de expor parte da cultura norte-americana urbana, desolada, sem perspectivas. Álcool, cigarros, tristeza, blues. Hopper foi o primeiro a ir por esse caminho, compreendendo que, para alguma parcela social, não há saída. Apenas desapontamento. O quadro abaixo tem o título de Florida Keys.

Bob Dylan - Art Works - 2021 Retrospectrum - NSF - Magazine

O trovador não se restringe, entretanto, ao universo da consternação. O trabalho Abandoned Drive-In, Yucca Valley é um exemplo de como se pode observar o abandono de forma positiva: cores variadas sob um céu azulado. Dylan pinta desde 1968. É dele a capa do primeiro álbum do grupo The Band, além de Self Portrait, dele próprio. Em 1973 veio a glória pictórica: a editora Knopf publicou Writings and Drawings, contendo as letras das canções de Dylan + várias ilustrações feitas por ele. Eis aí a correspondência: Baudelaire confirmado por Bob Dylan.

In '*Abandoned Drive-In, Yucca Valley,' a sign points to a swap meet; above it, against a backdrop of blue sky, a sign for the 'Sky Drive-in Theater' by the Forward

Vale a pena checar os trabalhos dele na Halcyon Gallery. é só clicar AQUI.