Jorge, Oswaldo & minha sogra

Ganhei de minha sogra, boa professora aposentada de literatura e, portanto, apreciadora das belles lettres, os três livros que compõem os diálogos entre Jorge Luis Borges, o enormíssimo ensaísta, contista e poeta argentino, e o jornalista (e também afeito à poesia) Oswaldo Ferrari. Leitura fluente, para quem já é iniciado nas obsessões borgeanas – tempo, labirintos, escrita antiga, literatura inglesa, Buenos Aires, mitologia escandinava, filosofia, o ato de escrever – e para aquele brasileiro curioso e ignorante que não entende como um cegueta manco (e argentino) pode ser um ícone literário de todos os tempos. 

Se completa la trilogía de los diálogos de Borges y Osvaldo Ferrari traducidos al chino

Imagine um programa de rádio em que se fale de literatura, de filosofia, de história, de sonhos, de lendas. Um bate-papo entre dois homens cujo interesse intelectual transgride as preferências superficiais da maioria dos viventes. Pois é. Esses três livros que me foram presenteados pela sogra tratam justamente disso. São conversas que foram, mais tarde, transcritas para o jornal Tiempo Argentino, um espaço dedicado a quem se interessa por aquilo que a maioria dos brasileiros despreza: a leitura. Os argentinos, por sua vez, levam a coisa a sério.

Livro: Sobre a Amizade e Outros Diálogos - Borges / Osvaldo Ferrari | Estante VirtualEstou terminando o volume cuja capa ilustra esta postagem. Altamente recomendável pela beleza linear da conversa, pela versatilidade dos conteúdos e, principalmente, porque figuras como Edgar Alan Poe, Spinoza, Virgílio, Shakespeare, Bertrand Russel, Swedemborg, Francisco de Quevedo e G. K. Chesterton planarem como aves rarae no céu pintado pelo extraordinário argentino. É ler para crer – e se regozijar. Sim, o prazer dessa específica leitura é potencializado. Aposte nisso.

Jorge L. Borges foi um erudito – e dos bons. Um bom erudito é aquele que traduz o saber grandioso, estimulando quem o lê. Não rechaça o ignorante; ao contrário: consegue seduzi-lo a ponto de torná-lo fiel, mas crítico. Os diálogos, para Borges, são a grande descoberta intelectual, legado dos gregos, a partir da amizade entre Sócrates e Platão, o assunto do título. Daí para Holmes e Watson, ou para Sancho e Quixote, é um pulo, um salto olímpico cuja distância não se mede. Conversar, sei disso, é descobrir.

Jean, Ava & o possível sexismo*

Jean Cocteau, o poeta, romancista e dramaturgo francês, disse que a atriz Ava Gardner era “o mais belo animal do mundo”. Referia-se, claro, ao conjunto da obra, o qual nunca viu, por inteiro. Não se pode dizer o mesmo do baixinho ator Mickey Rooney, do clarinetista Artie Shaw, do meu xará Frank Sinatra e de alguns toureiros, sendo um deles o famoso Luis Miguel Dominguín, que dizia abater mulheres e bovinos com a mesma competência. Esses tiveram a sorte que Cocteau não teve — até porque o francês não apreciava as mulheres. A frase, no entanto, é boa, e traz em seu núcleo uma ideia charmosamente machista. Talvez eu seja criticado pelo advérbio, mas vou correr o risco.

Jean Cocteau: The Juggler's Revenge | Exhibition | Peggy Guggenheim Collection

A afirmação de Cocteau, nos dias de hoje, causaria fúria — e não somente de mulheres, mas de todos aqueles que, munidos de um justificado patrulhamento, tornam réu aquele que transgride regras do bem-viver. A bem-viver leia-se respeito. Há algo de tão grave quanto qualquer patrulhamento: o outro lado, travestido de democrático baluarte da liberdade de expressão, chamar a isso mimimi. Não, não é mimimi, não é reclamação barata nem chatice repetitiva. Vestir a pele do outro não é fácil, mas parece-me a melhor maneira de frear os arroubos arbitrários dirigidos a quem, numa situação específica, está vulnerável.

Tenho um programa — podcast e vídeo — intitulado Vitrine Literária. É um programa semanal em que entrevisto atores ligados à arte das letras, sejam eles poetas, escritores, editores, bibliotecários, leitores, críticos etc. Alguns consumidores assíduos já me questionaram por que há mais homens sendo convidados do que mulheres. Respondi, com a honestidade costumeira, que a matemática é simples: há mais homens expondo o trabalho (livros, no caso) do que mulheres, de modo que é mais frequente a participação masculina do que a feminina. Digo isso com certa angústia, porque, em minha modestíssima opinião, mulheres têm mais sensibilidade para a arte do que os homens. São capazes de enxergar nuances da realidade que os homens, por não terem sido treinados para tal tarefa, têm dificuldades para notar. Não, não estou sendo sexista, embora possa parecer. É apenas uma opinião, e sujeita a apedrejamentos de ambos os lados.

A desastrosa vida íntima de Ava Gardner

E qual o motivo? Provavelmente porque — a História mostra isso — as mulheres foram relegadas a um plano secundário. Repelidas, não puderam protagonizar na pintura, na música, na literatura, na escultura etc. Claro que há exceções — ainda bem! Ava Gardner foi uma dessas exceções. Escolhia os próprios filmes, assim como dizia com que diretor preferia trabalhar. Trocava de marido quando enjoava dele, tinha opiniões polêmicas sobre vários temas e era a mulher mais bonita do cinema de sua época. Provavelmente de qualquer época. Se para você, um filme feito antes de 2000 é tão antigo quanto o teorema de Thales, não fará ideia de quem seja Ava Gardner. O Gúgol revolve isso para você (eu também, é só olhar a foto) — e quando resolver, prepare-se: é possível que você assine embaixo da frase de Jean Cocteau.

*Este texto faz parte do novo volume de crônicas, intitulado DOXA, volume 2. Em breve!

O universo de Sagan

Li e reli, nestes dias pré-Carnaval, para um absoluto deleite, alguns contos de Philip K. Dick, o volume 5 da Caixinha Preta, que contém, inclusive, a pequena obra-prima Nós Recordamos para você por atacado, que rendeu, há algumas décadas, o excelente longa de aventura O Vingador do Futuro. Entretenimento e ciência, numa linguagem compreensível a qualquer pessoa com um mínimo de senso. Imaginei-me tentando escrever ficção científica e, claro, concluo que tropeçaria num item fundamental: o referencial científico, o qual ignoro como um cego ignora as cores. Não se iludam os meus 6 ou 7 leitores: se algum dia vier à superfície algum texto – curto que seja –, de minha autoria, contendo elementos ficcionais e científicos, podem apostar: é plágio, e merecerei tanto o cárcere quanto o desprezo daqueles que, ao menos por enquanto, têm-me em conta. Estamos conversados.

Não sou íntimo do cientificismo, mas reconheço seu absoluto valor – incluindo aí sua capacidade de ilustrar a arte, de reforçá-la, de torná-la veículo para a comunicação e para a educação. Assisti, quase trinta anos após sua exibição de estreia no Brasil, a todos os episódios de Cosmos, o extraordinário documentário estrelado e coproduzido pelo astrofísico norte-americano Carl Sagan. É acachapante, para dizer o mínimo. Como tentar resumir quase 800 minutos de imagens e texto que transformam a inacessível – ao menos teoricamente – ciência em algo quotidiano? Repito: é difícil, pelo menos para mim. Carl Sagan fez um trabalho social. Mandou às favas a mística de que ciência é coisa para iniciados, cheia de códigos e vocabulários específicos que apenas físicos, astrônomos, biólogos e bioquímicos são capazes de compreender.

Clube de Astronomia exibe episódio de “Cosmos” nesta sexta (12/5) | Instituto de Física

O que me impressionou no documentário foi sua assombrosa atemporalidade, principalmente no que diz respeito à relação homem/planeta, seja ela direcionada ao âmbito ecológico-ambiental, seja ela fincada na questão científica de que é preciso compreender o processo histórico para se chegar a conclusões que hoje facilitam a vida de todos. Embora todo o documentário seja uma apologia à informação, é interessante perceber que Carl Sagan não dedicou capítulos – um só que fosse – à inevitabilidade da internet. Talvez nem ele mesmo pudesse imaginar o que aconteceria dez anos depois. Está tudo lá: desde a história dos grandes homens que fizeram a ciência até as probabilidades quanto à inteligência extraterrestre; dos microrganismos até a mitologia hindu, da biblioteca de Alexandria aos limites da eternidade, passando por teorias e conceitos herméticos como quarta dimensão, anos-luz, velocidades inimagináveis, questões sobre espaço-tempo e diálogos entre cetáceos. Até o Google, muito antes de ser criado, está lá.

Amazon.com.br eBooks Kindle: Cosmos, Sagan, Carl, Druyan, Ann, Geiger, PauloFalo por mim: a ciência seduz quando é bem traduzida, quando se torna comum (nunca banal), quando suas portas e janelas estão tão escancaradas que é possível vislumbrar o que há em seu interior. E qual o óbvio papel dos professores nessa empreitada? Penso que eles existem para tornar a ciência viável, para expor sua sedução e ajudar na sua compreensão. Não há por que distanciá-la do indivíduo ordinário – no bom sentido –, que não domina conceitos e, por triste consequência, ignora conteúdos essenciais. Essa é sua tarefa e – talvez – seu martírio. Quem, a não ser aqueles poucos, interessa-se pela compreensão de funcionamentos, ligações, movimentos, temperaturas, moléculas, vácuo? E quando mostram interesse? São chamados nerds, habitantes de uma outra dimensão. Mas isso é outro papo.

Carl Sagan foi pelo caminho oposto. Cosmos é uma aula saborosa e dinâmica que, mesmo atrasado 30 anos, usufruo como se tudo fosse uma grande novidade. E é provável que seja mesmo.

João Ubaldo, aos 83

Talvez eu esteja exagerando, mas o romance brasileiro do século XX chegou a seu apogeu com dois autores: João Guimarães Rosa e Nelson Rodrigues. O primeiro aperfeiçoou o regionalismo, saindo do NE e rumando para o sertão mineiro, levando a linguagem – que é a matéria-prima da literatura – a consequências últimas. O outro não tem rivais quando os temas são a perversão humana, a vilania, o pecado, a hipocrisia e o sexo. São dois mestres inquestionáveis, a meu ver. E depois deles? Quem é o grande romancista brasileiro? Quem conseguiu a façanha de manter-se sempre no auge, enquanto escreveu?

O escritor João Ubaldo Ribeiro Foto: Leo Aversa

Eu escolho João Ubaldo Ribeiro. Ok, você dirá: ele é muito mais cronista que romancista. O citado Nelson Rodrigues também – mas o que é um romance senão um emaranhado de pequenas narrativas que, juntas, caracterizam uma longa história? Se duvida, leia, ao menos, dois de seus livros: Viva o povo brasileiro e O Sorriso do Lagarto. E olhe que estou deixando de lado a obra-prima Sargento Getúlio que, na verdade, mereceria uma postagem só para ela. A Casa dos budas ditosos é ótimo, mas não tem o vigor literário dos 3 citados neste parágrafo.

VIVA O POVO BRASILEIRO, POR JOÃO UBALDO RIBEIRO, EDITORPermitam-me a metonímia: ler João Ubaldo Ribeiro é usufruir daqueles prazeres que somente a boa literatura vira-página é capaz de proporcionar. Texto fluido, é quase uma maré que tem suas mansidões e seus destemperos, mas ainda assim oceânica, grandiosa. Em Viva o povo brasileiro, 330 anos de formação de um país que foge à história oficial – contada pelos dominantes -, e indo em busca do olhar anônimo, do homem comum (do brasileiro popular). Há humor, há seriedade, há tragédia, há intertextualidade. Sob a bênção de Jorge Amado, seu padrinho literário, o escritor criou o romance definitivo de um país de poucos grandes romancistas.

Livro: O Sorriso do Lagarto - João Ubaldo Ribeiro | Estante VirtualO Sorriso do Lagarto (que já foi filmado para a tevê) traz a mesma ligeireza narrativa, de vocábulos exatos, bem colocados para criar uma história em que sexo, ciência, humor e política misturam-se de forma a expor o que realmente somos: finitos, fúteis e ignorantes mesmo que nos camuflemos como cidadãos honestos e de boas intenções. Há triângulo amoroso, há cientista despudorado, há político canalha e há, claro, a figura feminina ambígua e perigosa. Elementos que, bem temperados por uma boa história, fazem do livro uma obra-prima.

Escolhi escrever sobre João Ubaldo Ribeiro porque hoje, 23/1, ele faria 83 anos, caso estivesse vivo. E não está?, alguém pode perguntar.

Machado, Woody & as crianças francesas*

Imagine que um determinado livro, ao ser lido, tenha impactado seu leitor de forma tão impressionante que esse mesmo leitor passe a citá-lo quando lhe perguntam quais as obras de sua preferência. Isso é plenamente possível – eu diria até corriqueiro. Woody Allen, o cineasta norte-americano, confessou ao jornal inglês Guardian que Memórias Póstumas de Brás Cubas, do autor carioca Machado de Assis, foi um dos cinco livros que mais influenciaram sua carreira. Isso também é plenamente possível, já que a obra – o título traduzido, Epitaph of a Small Winner, é muito melhor – é tremendamente bem escrita e, para os moldes da provinciana literatura brasileira da época, de uma inventividade sem precedentes.

O que me causa espécie é o fato de Woody Allen, tão impressionado com o livro citado, não tenha buscado ler outras obras de Machado. Ou, por outra: não há registros de que ele tenha mencionado, por exemplo, Philosopher or Dog?, que é o título inglês do mais bem acabado livro de Machado de Assis, Quincas Borba. Eu me lembro de que, em meados dos anos 80, após ter lido Bem-vindo à Casa dos Macacos, de Kurt Vonnegut, Jr., numa daquelas edições mal traduzidas da Artenova, passei a garimpar, em sebos principalmente, livros desse autor com uma urgência que mal cabia no discurso, já que nem eu mesmo sabia exatamente por que se tornara necessário ler todos os seus livros. Hoje, compreendo que a busca por outros livros de um autor nada mais representa do que a manutenção de um diálogo que se estabeleceu na primeira leitura e que se deseja contínuo, arrastando-se por outras obras até que o leitor, por motivos que dizem respeito somente a ele, queira dar um fim a esse, digamos, bate-papo.

E por falar em diálogo, e também em Machado de Assis, tenho-me incomodado com uma questão, que certamente se liga a Mr. Allen. Simples: creio eu que o cineasta, já que afeito à palavra escrita, tenha-se relacionado com o texto machadiano de forma adulta – ou seja: leu-o com a maturidade necessária a uma compreensão que favorece não somente o leitor, mas também o texto. Em outras palavras: os livros do autor carioca – assim como acontece com vários outros autores – exigem daqueles que os leem um certo costume de boa leitura, uma apreensão criteriosa do texto literário, uma intimidade com textos que desafiem o leitor. Isso não retira, em absoluto, a possibilidade de ler tais textos como passatempo, hobby. Fiquei sabendo, há uns dois anos, que o texto machadiano Conto de Escola havia sido, numa tradução, adotado para crianças francesas de 8 a 10 anos de idade. 

Eis a questão: será que crianças nessa idade, mesmo que bem orientadas por professores tarimbados, têm condições de perceber o pessimismo irônico de Machado e, mais ainda, que a corrupção pode ser fruto circunstancial da infância? Refrescando a lembrança: o personagem central do conto – e também seu narrador – é um menino de nome Pilar, que aceita dinheiro de um colega para fazer-lhe um trabalho escolar, mas que, ao final, por circunstâncias alheias a sua vontade, acaba ficando sem o pagamento. Se possível fosse, o menino manteria consigo a quantia obtida com a venalidade. Não há esperanças para ele. O destino está traçado. Sem contar que a corrupção, no conto, tem um viés sensual que desafia qualquer professor a traduzi-lo para crianças – francesas ou não. 

Ler Machado de forma superficial é um pecado de escala estratosférica. Por outro lado, é sempre bom saber que um escritor de sua envergadura aproxima-se de leitores infantis. Desmistifica-se, então, a ideia de que a literatura brasileira do século XIX é inacessível à garotada. Mas o que pergunto é se a coisa funciona. Aquele sutil questionamento sobre moralidade, as nuances que proporcionam breves confusões ao leitor, as obliquidades, o camuflado deboche às instituições – haverá uma tradução francesa capaz de captar essa atmosfera? Pode até ser, mas crianças de 10 anos serão capazes de isso perceber? Se não, quem perde, de fato nessa história, é o texto.

*Publicado, originalmente, em A Gazeta (jornal local), em julho de 2011.

 

Cinema ou sardinha, Guillermo?

Guillermo Cabrera Infante y la censura

Escrevi sobre livros de Guillermo Cabrera Infante, um dos meus ídolos literários. Dois deles: Fumaça Pura e Mea Cuba, volumes cuja (re)leitura me enche de prazer e – se me permitem a pieguice – enchem meu coração de alegria. Cabrera Infante é fã de cinema, e o compreende de forma bastante singular, e essa singularidade é expressa em palavras que se transformam em crônicas bem humoradas, por vezes mordazes, que emitem luz sobre a arte que tanto aprecia a luminosidade. No início de 2023, adquiri os três volumes de artigos sobre filmes: Cinema ou sardinha. Em espanhol os volumes concentram-se num só.

Cinema ou sardinha - parte 2: Vias, bem vivas: Volume 2 | Amazon.com.brCabrera Infante tem aquilo que todo escritor deseja ter: maturidade irônica. E é justamente munido dessa ferramenta que ele escreve – parece conversar com o leitor, entre charutos e doses de bourbon – sobre Howard Hawks, Orson Welles, Hitchcock, Vincente Minnelli, sobre seus filmes e como eles conseguiram referenciar uma época e muitos costumes. Sim, o cinema é, claro, a grande personagem do livro, reverenciada por um autor que desde a infância se mostrou cinéfilo apaixonado, febril. O título, aliás, é uma grande brincadeira. Pode-se viver sem sardinha, mas não sem cinema.

As mulheres não estão ausentes: o volume 2, cuja capa ilustra a postagem, é marcado por crônicas que homenageiam Marilyn, Rita Hayworth, Anita Loos, Mae West, Barbara Stanwyck, Gloria Swanson, Ava Gardner. Até Sharon Stone e Melanie Griffith entraram no rol. E homens célebres como William Holden, Orson Welles, Fellini, Chaplin, Cary Grant e James Mason. É uma festa. E tudo isso escrito com a pena infantiana – ou seja, veloz, mordaz, sacana, trocadilhesca e tão literária que causa inveja: ao menos em mim. Vai causar inveja a você, também. Se você que lê aprecia cinema, não pode deixar de ler a trilogia.

Cinema Ou Sardinha - Parte 1 Pompas Fúnebres - SBSE para quem torce o nariz para o cinema americano, há diversão fora do eixo: Guillermo Cabrera Infante escreve sobre Almodóvar, Fritz Lang, Kiarostami, Kurosawa. Escreve sobre grandes diretores e, claro, grandes filmes feitos por eles, sobre filmes B, sobre o faroeste, os filmes em preto e branco e por aí vai. Tudo sob a ótica de um erudito que sabe ser popular – e vice-versa. Li vários livros sobre cinema – da crônica ao romance, passando por biografias e análises fílmicas -, mas nada me divertiu tanto quanto, diante da erudição e do conhecimento de Cabrera Infante, perceber que o cinema sobrevive e para sempre viverá. Vale ler para crer.

 

Filmes (re)vistos #10: Fahrenheit 451, 1966

Fahrenheit 451 (Filme), Trailer, Sinopse e Curiosidades - Cinema10De volta.

Qualquer estudante secundarista já estudou escalas termométricas: Celsius, Kelvin, Reaumur, Rankine e, claro, aquela que possui o nome mais charmoso, Fahrenheit. Esse nome alemão pertence a Daniel Gabriel, físico teuto-polonês que inventou o termômetro de mercúrio e que adorava spaghetti. Na escala Fahrenheit, o papel combure a 451 graus – daí o título. Um filmaço, dirigido pelo meu xará, François Truffaut, e com a presença luminosíssima da bela Julie Christie.

Revi o filme porque queria apresentá-lo a um amigo que havia lido o livro – homônimo, de Ray Bradbury – no qual o filme se baseou. A película é uma declaração de amor aos livros: a mais potente, precisa e poética forma de dizer aos livros o quanto eles importam. E como seria o mundo sem eles? Eis a questão: o que seria deste planeta sem Shakespeare, Cervantes, Dante, Camões? E olhe que cito somente gente ligada à literatura, porque sem a Arte em geral e Filosofia, estaríamos de 4, no bosque, uivando para a lua.

Num futuro distópico, os livros representam o perigo, afinal versam sobre o conhecimento, sobre a informação. Não são eles os grandes inimigos do totalitarismo? Devem ser extirpados, destruídos como se fossem uma lepra social. Em se tratando de um Brasil recente – e considerando as proporções óbvias -, passamos por isso. Artistas, neste país, durante quatro anos, foram os vagabundos, os inomináveis párias contrários à pátria amada. Enfim, isso é papo para outra postagem.

VIVER É PERIGOSO: FAHRENHEIT 451

Truffaut foi feliz. Conseguiu imprimir no celuloide a força poética do romance de Bradbury. Conseguiu contar uma história cheia de suspense, amor, erotismo, aventura. Criou um cenário fotográfico nebuloso, tenso, corroborando a ideia de que algumas ações representam perigo tão imediato quanto fatal. Ler é crime, e criminosos devem ser punidos e educados a abominar a fonte de onde vêm as ideias. É um filmaço, uma ode à memória literária. E a propósito: esta aí embaixo é Julie Christie, de quem falei. Bonitinha, não?

Джули Кристи (Julie Christie) - актриса - фильмография - голливудские актрисы - Кино-Театр.Ру

Beethoven, Bach: 2 livros

Beethoven: Solomon, Maynard: 9780028724607: Amazon.com: BooksMais livros, mais música.

Maynard Solomon é um craque, um ás. Escreve para quem conhece o assunto com profundidade; escreve para quem é leigo e se interessa por aquilo que ele fala: música clássica. Conheço poucos com essa habilidade, porque ambos – o conhecedor e o ignorante interessado -, para ele, têm a mesma importância, já que se nutrem da mesma matéria, cada um a seu modo. E de qual matéria eu falo? De Ludwig van Beethoven, um dos mais importantes nomes da música em qualquer época. Para muitos, o maior. 

Acabei de ler a biografia do grande homem escrita por Solomon. É um assombro. Um trabalho cirúrgico sobre a amplidão de uma obra sem limites: as influências, a vaidade, a surdez, a bajulação, a saúde débil. O Beethoven despótico, o incompreendido, o arrogante. O Beethoven absolutamente genial que, quando queria, era incomparável, senhor absoluto do elemento musical. Claro: há um capítulo sobre o tema amoroso e, evidentemente, a Amada Imortal dá o ar da graça. Há também os relatos absolutamente saborosos das circunstâncias que levaram o gênio a compor determinadas peças musicais. É de não querer parar de ler.

I48 variações sobre Bach | Amazon.com.brniciei, neste mesmo dia em que escrevo este texto, a releitura de 48 variações sobre Bach, de Franz Rueb. Li-o quando veio a público, há 21 anos. É biografia estilosa, diferente de tudo o que já li (ou reli), traduzido numa narrativa incomum. Rueb é suíço, dedica-se à música desde a adolescência e ele mesmo sabia que ouvir Bach aos dezoito anos é diferente de ouvi-lo 40 anos depois. Essa é a premissa: Bach varia, modifica-se para melhor, sempre. E essa variação estende-se à própria concepção do Kantor.

Há o Bach religioso, luterano; há o Bach iluminista, algébrico, pensador. Franz Rueb analisa os dois de forma descontraída, com linguagem acessível – um tanto distinta daquela de Solomon – e simples. As Variações Goldberg, mote para o livro, são, originalmente, um exercício para teclado: repetições necessárias com sutis modificações. O livro é isso. Bach, único, torna-se variável em vida, obra, realizações, sentimentos, pessoas. Nada mais óbvio, nada mais inventivo. Vale a leitura.

Alejo Carpentier: música & letras

Alejo Carpentier - Portal da LiteraturaFiquei alguns anos me preparando para escrever sobre aquele que considero o maior escritor latino-americano: o cubano Alejo Carpentier. Bem, afirmar que ele é o maior é juízo de valor e, portanto, subjetivo. Um querido amigo disse que ser o maior num país que produziu Lezama Lima e Cabrera Infante não é fácil. Concordo: mantenho a afirmação, entretanto. Carpentier tem a elegância e a erudição necessárias aos grandes escritores – sem deixar, claro, que tais elementos o afastem de leitores menos exigentes, mas que apreciam a arte literária. Antes que me apedrejem: escritores inteligentes escrevem para leitores inteligentes.

Fiz referência a ele ao escrever sobre Antonio Vivaldi, numa postagem recente. Concerto Barroco é uma obra-prima, que se aproxima de uma outra, intitulada A Sagração da Primavera, dois livros que nascem da música e vivem por ela. Isso sem contar El Acoso, que ganhou tradução como O Cerco, e que versa sobre política e, claro, música. Alejo Carpentier era um sujeito de muitas caras (no ótimo sentido): era jornalista apaixonado por arquitetura, música e pintura. Lia partituras e versava sobre pintores expressionistas com propriedade.

E era um escritor extraordinário, cujo barroquismo da linguagem pode parecer, de imediato, difícil (e um tanto fastidioso). Seus livros (li alguns) não me assombraram inicialmente – com exceção para o citado Concerto Barroco -, e me obrigaram, não sem paciência, a esperar os enredos ganharem ritmo. Aconteceu com A Sagração da Primavera, uma história de amor entre um cubano revolucionário e uma bailarina russa. Aconteceu com O Cerco, narrativa curta cuja base é a Eroica, terceira sinfonia de Beethoven.

Carpentier escreveu La Musica en Cuba. Não conheço a obra, mas imagino que sua pesquisa deva ter a profundidade necessária ao esclarecimento pleno dessa específica arte. Em O Músico em mim, um retrato extraordinário da relação entre o romancista e a música, Alejo Carpentier expõe seu conhecimento vastíssimo sobre a música clássica do século passado, mas isso é papo para uma outra postagem. Fique com A Sagração da Primavera, com Concerto Barroco e com O Cerco. Ou, ao menos, um deles.

As lacunas de Campos de Carvalho

Walter Campos de Carvalho escreveu poucos livros. A exemplo de figuras como os norte-americanos J. D. Salinger e Thomas Pynchon, (adiciono o mexicano Juan Rulfo), o autor sempre achou que deveria falar apenas o necessário, e – dizem! – arrependeu-se de alguns textos. Não sei dizer até onde essa informação é segura. Li 4 livros desse autor. Dois deles são obras-primas da anarquia literária: A Lua vem da Ásia e Vaca de Nariz Sutil. Os outros dois, A Chuva Imóvel e O Púcaro Búlgaro são divertidíssimos (principalmente este último), e deveriam ser lidos por quem aprecia boa e originalíssima literatura.

Tribo by Campos de Carvalho | GoodreadsEis a questão: faltam-me a leitura de 3 obras, a saber: Banda Forra, livro de ensaios, de 1941; Tribo, romance de 1954, e a coletânea de contos O Espantalho Habitado de Pássaros, que nem sei se existe, de fato. Consta que foi publicada em 1965, mas não conheço ninguém que tenha lido, nem que sequer tenha conhecido, folheado etc. Campos de Carvalho renegou Tribo e Banda Forra. Calou-se sobre tais obras como se elas denunciassem um escritor que ele não era, mas que, tenho certeza, moldaram o fenômeno literário que ele se tornou.

Se há um bom autor no insipiente surrealismo brasileiro, essa figura é Campos de Carvalho. É possível garantir isso a partir da leitura das obras que não foram renegadas, e que trazem a marca do absurdo conectado a uma linguagem veloz e quase automática, incisiva, e que parece brotar de um inconsciente em ebulição. Há, também, o elemento cômico – mas aí o papo é outro, e o Surrealismo se desloca para dar lugar ao farsesco, ao deboche desmesurado, ao chiste e aos trocadilhos.

A surrealidade da guerra em "Vaca de Nariz Sutil", de Campos de Carvalho - Homo Literatus

A vontade do autor deve ser respeitada, é evidente. Se ele não quer que os títulos citados venham à tona, que seja feito seu desejo, e nem é necessário que isso seja explicado. Resta ao leitor, principalmente ao leitor que apreciou a leitura dos livros cuja edição e reedição foram permitidas, imaginar a razão dessa lacuna. No fundo, tal razão não importa muito. A lacuna, sim. Campos de Carvalho é daqueles autores cujas linhas deveriam ser expostas em toda a sua integridade.

AQUI um ótimo ensaio sobre a obra do autor.