Caetano, Luiz Guilherme: última palavra

Domingo após a segunda prova. Enem, 2024.

Rola um vídeo na internet em que o grande compositor e cantor Caetano Veloso resolve uma questão do Exame Nacional do Ensino Médio — o ENEM — em que ele mesmo fora citado.  Caetano não titubeia, escolhe a alternativa – e acerta. Poderia ter errado, como já aconteceu anteriormente, há uns dois anos. Eis então a pergunta de resposta óbvia: como pode o autor não saber a resposta correta sobre o texto que produziu? Resposta simples: o autor escreveu o texto, criou-o, produziu-o. O autor não o leu, de modo que a pergunta é feita para quem leu o texto; não para quem o escreveu.

Lembro-me de quando, há mais ou menos 35 anos, a UFES tornou obrigatória a leitura do romance A Nau Decapitada, de Luiz Guilherme Santos Neves. Sendo eu professor para alunos que querem acessar a universidade, preparei-lhes, como uma prova simulada, questões relativas à obra. Alguns acertaram; outro, não. Lembro-me também de mostrar as questões ao próprio autor, Luiz Guilherme que, ao tentar resolvê-las, não obteve êxito. Em bom vernáculo: errou-as. Eis mais uma vez o axioma: o autor não é leitor de si mesmo. Não possui a isenção necessária para, racionalmente, avaliar o texto.

Caetano, na verdade, avaliou uma crônica em que era citado – não um texto de sua lavra, criado e produzido por seu cérebro privilegiado, além da sensibilidade aguçada que possui ao escrever canções. O envolvimento emocional do autor com sua obra atrapalha-o, confunde-o. Tente imaginar um poeta, um escritor ou um compositor que, diante de sua criação, pergunta-se: o que eu quis dizer com isso? Ou, pior: como esse texto pode ser interpretado? Não é essa a função do artista.

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Eis uma outra questão: quem tem a última palavra sobre um texto literário? Qual a interpretação tão correta quanto definitiva? Claro que interpretações pressupõem elementos que as justifiquem, mas a arte — como um todo — pode (e deve) possui inúmeras significações. Eis sua beleza e sua função: multiplicar-se em significados. Textos literários cuja interpretação não é variável correm o risco de não serem tão literários assim. Ou de serem mal escritos. Enfim, é um debate que merece atenção. Por enquanto, no meu caso, fico assim: torcendo para não precisar resolver uma questão sobre meus próprios livros.

Tom Jobim & Jon Bon Jovi

Um querido amigo, professor no RJ, contou-me, estupefato:

“Pedi a meus alunos, todos na faixa dos 16 anos, que me apontassem um grande sucesso de Tom Jobim. Os alunos entreolharam-se, e os olhares pareciam perguntar ‘Quem é Tom Jobim?’. Eis que uma menina, mais espertinha e contumaz usuária de celulares conectados ao mundo, perguntou: ‘É esse?’, e mostrou-me uma foto — e subsequentes preciosas informações — sobre Jon Bon Jovi.” Para quem não sabe, este, abaixo, é Antônio Carlos Jobim:

Biografia de Tom Jobim revela mágoa com sucesso

Sim, caros sexto e sétimo leitores, é sério. A despeito do distante parentesco — afinal ambos os nomes possuam o, j e i, sem contar a nasalização após o fonema /o/ —, o problema não é confundir o gênio com o pop star. O real problema reside em não fazer ideia de quem é Tom Jobim. Ou pior: sequer ter ouvido falar nele. Convivo com essa realidade e, ao contrário de lamentar e pensar em suicídio, tomo-a como combustível para continuar meu trabalho. Insisto no árduo (e muitas vezes infértil) ofício de levar a essa meninada — no meu caso, pré-vestibulandos entre 17 e 20 anos — informações sobre o que vale a pena. Ou, por outra: o que eu penso que vale a pena.

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Claro que há exceções. Dia desses, surpreendi-me: uma aluna perguntou-me se eu conhecia a cantora Carmen McRae. Pensei imediatamente em pedir a Jorge Bergoglio que, sendo ele meu xará, rezasse uma missa — no Vaticano. É uma pergunta que, dado o ambiente e o costume, chega às raias do milagre dos pães e dos peixes. Comemorei tanto que estou escrevendo sobre. Aproveitei e sugeri a ela que lesse uma postagem sobre a distintíssima e extraordinária cantora Carmen. AQUI, caso alguém, além da aluna, deseje ler.

Eis a questão: qual o papel de um professor? Entristecer-se e, sozinho, no silêncio da noite, embebedar-se? Crer-se cúmplice do desconhecimento e, então, ingerir a letal ricina, proteína encontrada exclusivamente no endosperma das sementes de mamona? Frustrar-se com a duvidosa opção dos alunos ou, sabendo dessa triste realidade, oportunizar que eles conheçam algo além do que é veiculado pela restrita web que frequentam? Creio que a opção em negrito seja a adequada. Vou em frente, sempre. Drummond tinha razão ao afirmar “Lutar com palavras / é a luta mais vã. / Entanto lutamos / mal rompe a manhã.” Sem heroísmos, mas cumprindo a tarefa.

Músicos pintores #4: Dorival Caymmi

Acho Dorival Caymmi chato de doer. Não somente ele, mas a família inteira: Danilo, Dori e Nana entram na dança. Evidentemente, falo da música, do que eles produzem. Acho realmente entediante — ao mesmo tempo em que, paradoxalmente, não somente reconheço a importância musical dos 4 (o patriarca, mais), como chego a desconfiar que cometo um grande pecado ao achá-los chatos. Pode ser, mas, por enquanto, concordo comigo mesmo. Por outro lado, Dorival, o chefão familiar, pintava bem à beça. Era um craque, sua pintura era tão contundente quanto de aparente simplicidade. Observe isto:

Sem título - Dorival Caymmi - Dorival Caymi

Não há título, não há olhos, não há feições. Apenas o movimento da família em busca de algo – que provavelmente não será alcançado. O traço é aparentemente simples, sem rasuras, mãe grávida, pai pescador, crianças em fila. Eu, dentro de limitações críticas sobre pintura, acho um quadro genial. O primitivismo foi muito além; a simplicidade obteve algo lírico, pela citada leveza, e ao mesmo tempo narrativo. Há uma história sendo contada, que continuará num próximo capítulo. Caymmi foi certeiro.

O Nordeste é um tema de cem anos. Ou mais, se considerar que Alencar escreveu O Sertanejo mesmo sem nunca ter pisado o sertão. Virou tema literário, de fato, com o pessoal de 1930: Zé Lins, Graciliano, Raquel, Zé Américo. E, claro, seu irmão de armas: Jorge Amado. Caymmi fez, na pintura e na música, o que Jorge fez nos enredos: uma Bahia cheia de graça, beleza natural, sensualidade, gente simpática e solidária, misticismo e religiosidade. A cultura baiana — e nordestina, como um todo — é seu tema quase único.

Bahia: candomblé, pescadores, percussão — cuja origem é africanidade —, natureza, mar. Que elementos são mais necessários que esses, perguntou certa vez o próprio Caymmi. Não se sabe se o assunto é restrito pela próprias limitações do artista ou se o universo que ele reconhecia lhe bastava. Não interessa: o resultado é tão simples quanto original. Mais ou menos como sua música – só não é pintura aborrecida, chata (a meu ver, repito!). Ao contrário: é vivaz, alegre. Abaixo, o artista em ação, e diante de si personagens caros à Bahia. Caros a ele também.

 Caymmi com pincéis e telas: Rubem Braga dizia que ele foi o único a captar seu jeito de ser em uma pintura Foto: / Divulgação

Chico, o mensageiro

O extraordinário Art Blakey é, para muitos apreciadores do jazz, o melhor baterista do gênero. Eu prefiro Louis Hayes e Max Roach, mas não é isso que interessa. Um dos grandes feitos de Mr. Blakey foi ter levado o jazz a quem não o conhecia — ou, ao menos, a quem não tinha informações suficientes sobre o que era aquela música. Criou os Jazz Messengers em 1955, com o auxílio luxuoso do não menos extraordinário Horace Silver, pianista de primeira.

Mas não é sobre o jazz que quero falar — e sim sobre o mensageiro. Ou seja, aquele que leva a informação e a dissemina. Vou explicar direito. Em 2024, ano corrente, Chico Buarque de Holanda completou 80 anos. Homenagens em redes sociais, tevês, jornais impressos ou não. Depoimentos de amigos, de críticos, de produtores musicais e de irmãos de armas. Por falar em irmãos, a família manifestou-se: como não admirar seu mais ilustre membro? É minha vez de agradecer. E falo com tranquilidade: obrigado, mensageiro! Vou explicar direito mais uma vez.

Em dezembro de 1978 eu era um rapaz de 16 anos que ouvia rock (obrigações adolescentes), disco music (influência da época) e as big bands norte-americanas, das quais meu pai era fã. Nesse mesmo dezembro, Chico Buarque — de quem eu apenas ouvira falar — lançou o disco Chico Buarque, o famoso disco da samambaia, em cujos sulcos brilhavam Cálice, Até o Fim, Trocando em Miúdos, Tanto Mar, a tristíssima Pedaço de Mim, a censurada Apesar de Você e outras. No outro ano, em seus primórdios — últimos dias de janeiro —, coloquei o disco na vitrola e a epifania veio à tona. Sim, foi um momento epifânico, revelador. A ponto de eu ignorar, quatro anos depois, a música de minha geração, o BRock.

Mantive-me na MPB, ao contrário da maioria dos amigos, que foram na onda de Paralamas, Titãs, Plebe Rude, Legião Urbana, Camisa de Vênus e mais algumas tantas. Para mim, uma estrofe de Chico valia mais do que tudo o que Renato Russo e Herbert Vianna escreveram. Ainda vale. E o mensageiro? Bem, Chico me levou a Caetano, a Gil e a Vinícius, de imediato. Depois, a Edu Lobo, a Toquinho, a Francis Hime, ao MPB4 e aos sambistas da velha guarda. Merece medalha, merece homenagem, merece agradecimento. Sem Chico Buarque, eu estaria ouvindo o quê? Dinho Ouro Preto? Humberto Gessinger? Valeu, Xará, pelo livramento!

Freud, Chico, cavalos, charutos

9 Curiosidades Sobre Freud - Curiosa História“Às vezes um charuto é apenas um charuto”, disse Sigmund Freud a um analista que o questionou se o charuto, empunhado pelo fundador da Psicanálise em muitas fotografias, tinha significados fálicos. A autoridade de Freud criou um costume: interpretar à revelia, como se um padrão conceitual pudesse ser encaixado em qualquer situação. Não sei se a resposta do grande pensador é verdadeira; não sei se tal breve diálogo aconteceu, mas serve para ilustrar algo ocorrido nas Olimpíadas de Paris — ainda em andamento. E que gerou este texto.

Eu explico. Foi perguntado a alguém da organização dos jogos se os cavalos — cúmplices dos atletas do hipismo — eram fornecidos pelo comitê olímpico ou se os proprietários dos animais cuidavam do transporte dos equinos até o país em que sairiam pulando obstáculos, trotando e se exibindo ao público e aos juízes. Um internauta fez uma brincadeira, usando as palavras de Chico Buarque, contidas na conhecidíssima parceria com Sivuca, João e Maria: “O meu cavalo só falava inglês.” Lembro-me dos meus 20 anos, quando, na universidade, conversávamos sobre política, ditadura e que tais, e alguém afirmar que o cavalo da canção representava a repressão dos militares. E a língua inglesa nada mais era que uma referência de Chico ao apoio dos EUA ao regime.

Músicas, vídeos, estatísticas e fotos de Chico Buarque | Last.fmEm outras palavras: houve um momento em que tudo o que o compositor carioca escrevia era interpretado como uma ação contrária ao repressivo momento político brasileiro. Isso soa tão resumitivo quanto injusto. Chico Buarque foi muito além da política, e essa atitude heroica — de baluarte da democracia — nunca esteve em seu radar, a despeito de canções como Apesar de você, Tanto Mar, Cálice, Acorda Amor (sob pseudônimo), Deus lhe pague e algumas poucas outras. Vale, entretanto, a interpretação do leitor/ouvinte, afinal ela diz muito mais sobre quem lê e ouve do que sobre a obra em si.

Eis aí uma das belezas da arte: a capacidade de ela nos fazer interpretá-la de acordo com o que somos, não de acordo com o que ela é. A carência de alguém que falasse por uma parcela significativa da juventude da época era tão grande que Chico Buarque se tornou essa voz, mesmo que muitas de suas canções não tivessem a intenção de dizer mais do que diziam. Não importa. Se um charuto, em algumas situações, é apenas um charuto realmente não faz diferença. Infeliz é o artista que quer ter a última palavra sobre sua criação.

Adeus a Leny

Ouvi Leny Andrade pela primeira vez aos 25 anos, quando alguém – não me lembro quem – afirmou que ela cantava melhor que Carmen McRae, a qual eu ouvia com devoção, reverência. Indignado com a possível blasfêmia, e com a intenção inequívoca de contestar a afirmação, fui, com cautela, ouvir Estamos Aí, um elepê que a Odeon havia lançado em 1968, no qual havia duas canções de Marcos Valle, A Resposta e Banzo. Marcos Valle é uma fera desconhecida das gerações que enaltecem padres cantores, rappers, funkeiros, cantores sertanejos e que tais. Havia também gemas cristalinas como Deixa o morro cantar e Esqueça não, ambas de Tito Madi, e Razão de Viver, de Eumir Deodato e Paulo Sérgio Valle. Um discão!

Após a audição – cautelosa, repito -, fiquei em dúvida quanto à comparação com Mrs. McRae, mas cheguei à certeza de que Leny Andrade não lhe era inferior. No fim e ao cabo, para que comparar? Desde então saí garimpando discos de Leny – o que era difícil de encontrar até o advento do cedê, que trouxe, finamente, alguns de seus mais interessantes trabalhos, dos quais destaco Embraceable You, clássico dos irmãos Gershwin, em que brilham maravilhas como Stella by Starlight, Night and Day, The Shadow of your smile, The Man I Love, Misty e Autumn Leaves. É um disco de jazz, executado por uma das suas maiores intérpretes. Tenho vários outros discos dela: todos ótimos.

O vozeirão cantava tudo (em notas certas): do samba-canção à MPB; do blues à valsa, passando pelo jazz, pela balada, pelos ritmos latinos. Não conheço faixa em que ela tenha cantado rock, mas, caso o fizesse, colocaria muita gente no bolso. Leny Andrade fez fusion: jazz, Bossa Nova e samba tradicional andaram de mãos dadas, numa ciranda criativa e à base de improvisos: o que caracteriza a arte da voz. Ir de um lado a outro, de uma ponta à outra, mantendo-se firme e autêntica. Consagrada internacionalmente, respeitada por quem a ouviu, é a cantora brasileira mais reverenciada.

Leny morreu hoje, dia 24 de julho. Dependia de amigos (quase todos artistas reverentes) para tratamento de saúde. Nos últimos dois anos, fizeram-se lives de cantores e compositores, via YouTube, com o objetivo de fazer dinheiro para financiar sua terapêutica e os medicamentos. Sua música, contudo, fica para sempre para aqueles que amam o jazz e a música brasileira. Para mim, é, ao lado de Elizeth Cardoso e Elis Regina, a maior cantora brasileira. Ouvindo bem de perto, Leny Andrade supera as duas. Mais uma vez, entretanto: para que comparar, não?

Eu & Os Titãs

Qual o ponto alto de um show de rock? Quando o guitarrista ataca um solo monumental, daqueles que ninguém imita? Quando o vocalista, qual um tenor de ópera, arrisca um dó de peito e acerta em cheio? Naquele momento em que o baterista, à moda de Keith Moon, faz o instrumento eternizar-se? Cada espectador, claro, escolhe o momento primordial, inesquecível. Eu, por exemplo, escolhi – durante a apresentação da banda Titãs, em Vitória, ES, no último fim de semana – o instante em que Charles Gavin, batera do grupo, surrou os couros vestindo a camisa do meu time do coração, o doméstico Rio Branco.

Não sou um fã dos Titãs. A bem da verdade, quando surgiram, inaugurando, junto a outras bandas, o movimento BRock, no início dos anos 1980, não fui na onda. Embora gozando os meus 20 anos, mantive-me no gênero que havia me capturado (3 anos antes): a MPB. Chico Buarque, Gil, Caetano, a dupla Toquinho & Vinicius, Tom Jobim e Belchior valiam muito mais do que Renato Russo, Cazuza, Arnaldo Antunes e Nando Reis. Sim, claro, era – e ainda é – uma opinião. A bem de uma outra verdade: abstive-me da contemporaneidade, desconfiei da “revolução musical” que encheu o coração da juventude brasileira. Ignorei o movimento em si. Eu e minha senectude, disse-me uma amiga, certa vez.

Por curiosidade: ouvi a banda com bons ouvidos a partir do início dos anos 2000. Minha mulher – namorada, à época – apresentou-me a banda e, claro, a forma apaixonada como ela consumia música & letras contagiou-me – num certo sentido. Não, não foi suficiente para eu me tornar um ardoroso entusiasta, mas amoleceu meu coração. O show foi bacana – muito mais por resumir uma carreira de sucesso e trazer à superfície a memória afetiva de uma plateia que ali estava justamente para isto: lembrar-se de momentos vividos à custa das canções. E, evidentemente, emocionar-se.

Por falar em emoção, a homenagem ao falecido guitarrista Marcelo Fromer – sua filha Alice subiu ao palco, e cantou -, e ouvir Branco Mello cantar (vítima que foi de um tumor na laringe) deram o tom sentimental – mas nem de longe piegas – ao encontro de artistas que, marcados pela honestidade musical e pela satisfação inequívoca de fazer um bom trabalho, tornaram o público feliz por 140 minutos. Sim, repito: foi um show bacana: não me arrependo de ter ido. Não chegarei a me tornar fã ou consumidor, mas valeu ter testemunhado a História. Valeu, Titãs! E valeu, Charles, por vestir a camisa do meu time.

Minha lista (devida)

Listas divertem – e somente isso. Divertem quem lê e quem a produz. Aquele que lê adora discordar, criticar, mandar às favas. Embora concorde com alguns pontos, prefere apontar, de fato, aquilo de que discorda. Comigo é assim. Deve ser assim com você também, prezado(a) leitor(a). Há algumas semanas, postei uma lista de discos escolhida por vários jornalistas espalhados pelo Brasil. Comentei-a, AQUI. Se quiser lê-la antes de ler a minha, fique à vontade.

Ressalto: não entraram na lista música instrumental ou clássica. Você perceberá também que nenhum dos discos envolvidos tem menos de 40 anos. Sim, é preferência minha. E não há somente MPB, como se pode observar. Canção do Amor demais é um disco de bossa nova, assim como Chega de Saudade. Entraram, contudo, na lista. Não sou tão purista quanto pareço. Ei-la:

ÓPERA DO MALANDRO – Teatro em Escala1. Ópera do Malandro, Chico Buarque. O disco duplo é a perfeição, da escolha dos intérpretes à confecção das canções. Algumas delas obras-primas, como Geni e o Zepelim, O Meu Amor, O Malandro e Uma Canção Desnaturada. E a ópera, que fecha o disco, é de fazer inveja a muitos escritores tarimbados. Arranjos do craque Francis Hime. Chico Buarque é o maior nome da MPB.

Alucinação de Belchior dialogando com a nossa época | LOID2. Alucinação, Belchior. Um disco em que brilham canções que ficarão para sempre – e olhe que nasceram entre 1973 e 1975! Exemplos? Como Nossos Pais, Apenas um rapaz latino-americano, A Palo Seco e Velha Roupa Colorida. Belchior é um dos melhores letristas do gênero, e este disco, em que quase todos os integrantes eram ligados ao rock, é seu apogeu.

Caetano Veloso – Bicho, 40 anos – linksonoro3. Bicho, Caetano Veloso. Todos os discos de Caetano entre 1969 e 1982 são ótimos, de modo que escolher este – de 1977 – não foi tarefa fácil. O que destaca? O Caetano absolutamente maduro e criativo. Canções como Tigresa, Gente, Um Índio, O Leãozinho e Alguém Cantando provam isso. Todas sensacionais: letra e música. Escolhi por conta delas.

Edu & Tom - Tom & Edu4. Tom & Edu, Edu Lobo/Tom Jobim. Junte Beckenbauer e Cruyff no mesmo time. Mal comparando, é mais ou menos isso. Dois maestros juntos, divertindo-se, cantando e tocando canções que eles mesmos eternizaram. Destaque para Vento Bravo, Chovendo na roseira, Pra dizer adeus e Luíza. Aliás, destaque para tudo, porque o disco é antológico!

Canção do Amor Demais – Wikipédia, a enciclopédia livre5. Canção do Amor Demais, Elizete Cardoso. Os fãs de Elis que me perdoem, mas Elizete é a maior cantora brasileira. Opinião particular – é óbvio. Agora imagine essa senhora sendo acompanhada por Tom Jobim e João Gilberto, pais da Bossa Nova! E imagine-a cantando canções de Tom & Vinicius! Se você aprecia o gênero, vais achar esse disco a obra-prima entre as obras-primas. Arranjado por Tom, todas as faixas são excepcionais. Bem, afinal é Elizete cantando.

Chega de Saudade - João Gilberto - LETRAS.MUS.BR6. Chega de Saudade, João Gilberto. Pois é: disco icônico, fundamental, do qual – confesso! – só fui realmente gostar após tê-lo ouvido na vida madura, nos meus quarenta e poucos. Sim, é revolucionário, criou um outro modo de se cantar samba, e gerou uma filharada que se mantém até hoje. Claro que algumas letras são bobinhas, infantis, mas o que conta é como se canta e como se toca. É um mundo que se abre, em 1959. Se você pensa que esse mundo fechou, erra.

Há 45 anos, Jards Macalé reunia | Podcast | Rádio Brasil de Fato7. Banquete dos Mendigos, Jards Macalé. Um disco-manifesto, comemorando os 25 anos da Declaração Universal dos Direitos Humanos. Emblemático, representou a reunião de vários nomes: Chico Buarque, Gal Costa, Johnny Alf, Paulinho da Viola, Edu Lobo, Jorge Mautner, Raul Seixas, Gonzaguinha, Milton Nascimento, Toninho Horta e, claro, Jards Macalé. Muita gente boa junta: difícil não sair algo fenomenal.

Refavela: como o álbum de Gil revolucionou a MPB nos anos 708. Refavela, Gilberto Gil. Por que não discos extraordinários como Refazenda, Um Banda Um, Nightingale ou Dia Dorim Noite Neon? Bem, primeiro porque Refavela também é extraordinário. Em segundo lugar, porque foi o primeiro disco de Gil que comprei, em 1979, dois anos depois de ele ter sido lançado. A relação é pessoalíssima. Não precisaria nem citar que Balafon, Sandra, No Norte da Saudade e a faixa-título são primores textuais.

Antologia - MPB 4 - Álbum - VAGALUME9. Antologia, MPB4. Gosto de todos os discos do MPB4, sem exceção. Nunca fizeram nada que me desagradasse. Os fãs do quarteto – se é que lerão esta postagem – vão torcer o nariz, afinal, como uma antologia pode ser o melhor disco? Pois é. Mas juntar pot-pourri de Ismael Silva, Ataulfo Alves, Chico Buarque, Tom Jobim, Paulinho da Viola, Nelson Cavaquinho, Noel Rosa, Monsueto, Dorival Caymmi e Baden Powell não é pouca coisa. E a afinação do quarteto é coisa de outro mundo. Discaço!

Milton Nascimento, LP Duplo Clube Da Esquina 2- Série Clássicos Em Vinil  [Disco de Vinil]: Amazon.com.br: CD e Vinil10. Clube da Esquina 2, Milton Nascimento. Sim: acho o número 2 melhor. Gosto daquele que ficou em primeirão, no juízo dos jornalistas. Prefiro este porque Canção Amiga, Casamiento de Negros, Credo, Paixão e Fé, Maria Maria e Tanto estão nele. E, claro: Canción por la unidad de Latino America, em companhia de Chico Buarque, com um show de Wagner Tiso. Política e arte nas alturas.

Se quiser enviar a sua lista, sinta-se convidado(a) a fazê-lo.

Desafio do Ipsis Litteris

Mais um DESAFIO do Ipsis Litteris (o terceiro). O primeiro a acertar as 3 respostas – é necessário que sejam as 3! – ganhará os prêmios acima. Haverá somente 1 ganhador: aquele que responder primeiro, e enviar a resposta ao blogue. Os prêmios: 1 exemplar de Os Mamíferos – crônica biográfica de uma banda insular, de Francisco Grijó; 1 blu-ray Vinicius de Moraes e 1 exemplar do disco Cantando Vitória, de Pedro de Alcântara.

A duração do desafio: até terça-feira, dia 16, às 23h59! Caso ninguém acerte, a resposta será publicada neste horário. Boa sorte!

Eis as perguntas:

  1. Quem são as personagens na foto?

         2. Que crítico literário escreveu estas palavras sobre o romance Moby Dick?

        3. Qual a principal obra de cada um desses senhores destacados?

Genialidade mutilada #2

Cover of the album Caetano e Chico - juntos e ao vivo.jpgEscrevi sobre o disco Caetano e Chico – juntos e ao vivo, lançado pela Polygram em 1972. Você pode ler a postagem AQUI. Repito: a capa do disco, agora numa repetição mais tímida, está ao lado. O elepê em questão – destaque do mês -, um dos shows mais emblemáticos do período brabo do regime militar, foi miserável, grotesca e truculentamente mutilado. Um encontro entre dois dos maiores artistas da música brasileira, num show, durou menos de 36 minutos. Vou repetir: um show com pouco mais de meia hora. E pior: mal gravado.

Tenho buscado na web informações sobre o disco. Busquei também na biografia de Caetano, sobre a qual também escrevi. Pouca coisa se fala sobre esse show, até porque sua temporada fora abalada pela morte suicida do jornalista, poeta e compositor Torquato Neto, amigo chegado de Caetano. A Polygram imaginou que o disco, lançado no início de 1973 – mas registrado como se fosse de 1972 -, fosse fracassar. Errou feio. O disco vendeu bem, e dinamitou a ideia de que os dois artistas eram inconciliáveis. Não encontrei detalhes sobre o assunto nem em Verdade Tropical, do próprio Caetano.

Consegui, entretanto, algumas informações sobre o que os dois compositores propuseram para o show. Caetano, vestido intencionalmente de forma espalhafatosa, de batom e brilhos, escandalizava os censores. Chico, comedido por conta da timidez, deu seu recado. O que interessa, entretanto, é que as canções propostas praticamente não foram gravadas. Ou, se foram, não constam do disco. Daí a pergunta (a qual repito): que diabos de show é esse que dura menos de 40 minutos? Veja a lista das canções num documento da época:

O trabalho da censura foi um sucesso. Das canções propostas, apenas algumas foram selecionadas. Os originais dessa gravação certamente estão em poder da Polygram, que poderia – e deveria, em minha opinião! – corrigir esse erro. Imagine, nos 50 anos de vida desse disco, ele realmente vir à tona, sem cortes! Para os fãs, o tesouro absoluto. Resta saber se haverá disposição para resgatar o passado. Um passado de valor absolutamente necessário. Um resgate essencial.