Genialidade mutilada #1

Em 1972 , Chico Buarque (que aniversaria hoje) e Caetano Veloso resolveram estapear a mídia, que insistia em rivalizá-los, afinal um era tropicalista e outro, herdeiro do samba e artífice da MPB. Para muita gente, eram opostos, um querendo comer a jugular do outro. Coisa de jornalista que nada tinha a fazer. O tapa de luvas (de boxe) deu-se em forma de show no Teatro Castro Alves, em Salvador. O resultado desse show – cuja duração desconheço – foi um disco gravado e distribuído pela Polygram. É o disco do mês do blogue, como se pode ver, à sua direita. A capa está abaixo:

CD - Caetano e Chico - Juntos e Ao Vivo - Beco do Disco

Agora pasme: as canções, juntas, adicionadas às manifestações efusivas do público (sobre as quais falarei daqui a pouco) somam 35 minutos e 48 segundos. Você leu direito. O show, a contar pelo disco, não chega a 36 minutos. Qualquer pessoa minimamente inteligente percebe que há coisa errada aí. E essa coisa errada tem um nome: censura. Imposta, evidentemente, pelos militares e aplaudida pelos papalvos que a apoiavam. O governo Médici, sanguinário e truculento, mostrava sua força contra os artistas.

Se você já ouviu esse disco – creio que sim! -, percebeu que, em algumas canções, a efusão do público (assobios, palmas) foi grotescamente enxertada, com o objetivo de não permitir ao ouvinte uma audição plena do que se cantava. Sem contar que algumas canções – Bárbara, de Chico, e Tropicália, de Caetano – tivessem parte de sua letra simplesmente riscada do mapa. A isso chamo vilipêndio. Abaixo, ambos, nas areias da praia, em Salvador. Há 50 anos.

Caetano Veloso ...en detalle.: 1972 - CAETANO E CHICO juntos e ao vivo

Não conheço ninguém que tenha ido a esse show. Gostaria de conhecer, para que algumas perguntas pudessem ser respondidas. Duas delas: o que Chico e Caetano conversavam com o público, entre uma e outra canção? Outra: qual foi, mais ou menos, a verdadeira duração do show? Durante anos quis saber qual o repertório que foi apresentado à censura. Chico havia lançado, um ano antes, o discaço Construção, e nenhuma canção do disco foi executada – com exceção de Cotidiano. E apenas duas canções da trilha sonora de Quando o Carnaval chegar, filme de Cacá Diegues: Partido Alto e Bom Conselho.

E quanto a Caetano? Nenhuma canção dos seus discos de 1971 – composto no exílio londrino, intitulado Caetano Veloso – e de 1972, Transa. Enfim, a mutilação foi longe, exemplo da truculência de uma época que ninguém (ou quase ninguém) quer que volte. Na sequência – outra postagem – você saberá quais as canções propostas pelos artistas para o show.

Duas vezes Rosinha

Amanhã é dia 10 de junho e a morte de Rosinha de Valença atingirá a maioridade. Em 1992, após ter sofrido uma parada cardíaca que lhe corrompeu o cérebro, entrou em coma e de lá não saiu mais: morreu em 2004, após 12 anos de estado vegetativo. O Brasil perdera sua melhor violonista, uma virtuose que havia batalhado imensamente pela valorização da música instrumental no Brasil. Genial ao violão, rivalizava com Baden Powell, o grão-vizir do instrumento e, justamente com ele, iniciou um movimento que deu origem a vários grupos musicais que fundiram jazz e bossa.

Gosto muitíssimo de Ipanema Beat, seu disco de 1970. É obra-prima pouco (re)conhecida neste país que valoriza gente que não mereceria respirar o ar que ela respirou. Um timaço de músicos divertindo-se tocando temas estrangeiros – pérolas de Joe Zawinul, Jimmy Smith, Serge Gainsburg, Keith Reid e outros – e uma gema de próprio punho: Rosinhas’s Mood. Se você quer ouvir o disco inteiro, AQUI está. Preste atenção ao organista Duncan Makay. E, claro – e principalmente -, a Rosinha de Valença.

Outro disco que aprecio bastante é um show ao vivo ao lado do acordeonista Sivuca. Gravação do projeto Seis e Meia, os dois artistas se apresentaram no Teatro João Caetano, em 1977. Com produção de Sérgio Cabral, ainda contava com a participação especialíssima do saxofonista Raul Mascarenhas – que também tocou flauta. Lamentos, de Pixinguinha, e Asa Branca, de Gonzaga e H. Teixeira, são os pontos altíssimos de um encontro de pontos altos. Ouça AQUI o disco na íntegra.

Rosinha de Valença foi reconhecida internacionalmente: Henry Mancini, Bud Shank, Stan Getz e Sarah Vaughan (só para citar alguns) admiravam sua habilidade com as cordas. Apresentou-se em vários países de pelo menos 4 continentes, explorando a brasilidade e ao mesmo tempo o cosmopolitismo de sua música, repleta de ousadias, inventividades e, claro, perfeição instrumental. Não me recordo de nenhuma mulher que, ao violão, encantasse mais. Homem, talvez – mas ainda prefiro Rosinha. Que esteja sempre em paz, como ficamos nós – ao ouvi-la.

As parcerias do Lobo

Este rapazola abaixo chama-se Edu de Góes Lobo, mas você deve conhecê-lo sem o “de Góes”. Na foto, ele tem 24 anos e já não era mais uma promessa na música. Amadurecido (apesar da pouca idade), tinha composto ao menos dois grandes discos – um deles em companhia de uma cantora baiana que se tornaria, para muitos, a maior cantora brasileira: Maria Bethânia. O outro disco, feito quando ele tinha apenas 22 anos, chama-se A Música de Edu Lobo por Edu Lobo, seu primeiro LP, com a participação do Tamba Trio, grupo capitaneado pelo genial pianista Luiz Eça. Estou, neste momento em que escrevo – um sábado chuvoso -, ouvindo Reza, a faixa número 7. AQUI você ouve o disco inteiro.

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Dia desses ouvi – não me lembro exatamente quem falou – que o melhor parceiro de Chico Buarque era Francis Hime. É algo a se discutir, afinal o compositor carioca criou obras-primas com Vinícius de Moraes, com Ruy Guerra, com Tom Jobim. Tem canções esparsas com Toquinho, com Gilberto Gil e com Milton Nascimento. Fico eu, no entanto, na dúvida: e quanto a Edu Lobo? Com ele, Chico fez três discos antológicos: Dança da Meia Lua, O Grande Circo Místico e O Corsário do Rei. Há também Cambaio, sobre o qual tenho algumas reservas. Com nenhum desses outros parceiros citados Chico Buarque fez um disco inteiro, temático, absoluto.

Mas nem só de Chico vive Edu Lobo. Capinam e Vinicius de Moraes entram no rol de grandes parceiros. Com o poetinha, compôs Arrastão, canção que catapultou a carreira de Elis Regina, há quase 60 anos. Não precisaria fazer mais nada, mas fez, entre outras, Canção do Amanhecer, Zambi e Samblues do Dinheiro. Com o poeta e letrista baiano José Carlos Capinam fez o clássico Ponteio, que venceu o maior de todos os festivais da canção: o de 1967. Podia, então, aposentar-se, mas, juntos, fizeram mais: Cirandeiro, a magnífica Viola Fora de Moda, e ainda Limite das Águas e Rosinha.

Edu Lobo é um artista genial. Para mim, está entre os 5 grandes: ao lado de Gil, Chico, Caetano e Tom Jobim. É um arranjador de primeira, um violonista hábil, um harmonista tarimbado, um cantor afinadíssimo e praticamente não tem rivais quando o assunto é melodia. Lamentavelmente é pouco conhecido pelo público mais jovem, que faz escolhas – a meu ver! – duvidosas. Enfim, se alguém com menos de 30 anos ler esta postagem, que fique registrado: fiz minha parte, minha obrigação. Essa é minha parceria com você, Edu!

Listas servem para quê?

Listas são o diabo, eu já disse isso. Refletem a subjetividade de quem as constrói – ou seja: seu criador deixa-se levar, claro, pelo gosto pessoal, pelo possível afeto, pelo carinho efusivo que nutre por esta ou aquela obra, por este ou aquele artista. Isso quando a lista versa sobre arte, porque se pode fazer lista sobre qualquer assunto: de esporte a política; de cientistas a bandidos. Bem, dito isso, vamos à lista específica.

Este disco abaixo tem o título de Clube da Esquina, publicado em 1972. É uma beleza, uma reunião de canções – algumas delas obras-primas – que vale ser ouvida diariamente, durante semanas, meses, anos. Milton Nascimento e Lô Borges assinam o disco, mas há muita gente boa envolvida: destaque para Tavito e Beto Guedes. Elepê duplo com 21 canções, foi considerado o disco mais importante da história da música brasileira. Quem elegeu? Um grupo de jornalistas cuja subjetividade falou mais alto. É, entretanto, um discão, que comprei em 1981, e mantenho-o em meu coração.

Eis a questão: aí estão os outros 9 selecionados – e é aí que a discussão começa. Acabou Chorare, dos Novos Baianos, A Tábua de Esmeralda, de Jorge Ben, e Sobrevivendo no Inferno, dos Racionais Mc’s nunca estariam numa lista feita por mim. Não entram nem no top 50. À parte serem discos representativos, emblemáticos, não têm o vigor textual de Construção, de Chico Buarque, ou de Transa, de Caetano Veloso. Acabou Chorare, a meu ver, é um disco infantil, com letras bobinhas, pueris, embora bem executado hamônica e melodiosamente. 

Chega de Saudade é disco icônico, deu pontapé inicial. Merece respeito, sem contar que traz João Gilberto em ação. O mesmo se aplica ao décimo colocado: Tom Jobim, o maior músico popular, e Elis Regina: para muitos, a melhor cantora brasileira. São 14 faixas, com alguns clássicos. Grande disco mesmo. Se a lista fosse minha, Construção seria substituído por Meus Caros Amigos, mas há, sempre que se considerar o que o disco representa além da música em si. Secos & molhados, com sua capa-armazém, é um primor de miscelânea cultural e musical. E Ney assombrando o povaréu. Vale.

E, claro, por último mas não menos importante: o disco-manifesto da Tropicália: Panis et Circensis. À parte o erro em latim (deveria ser Panem et Circensis), é um discaço (e também representativo de uma ideologia): Caetano, Gil, Gal, Mutantes, Duprat, Tom Zé, Nara Leão, Capinam e Torquato Neto. Só a presença da genial Geléia Geral já valeria estar na lista.

Por falar em listas, vou fazer a minha. Em breve, aqui, neste canal!

Periferia e vestibular

Começo agradecendo ao Revson. Mas quem é ele e por que lhe agradeço? Bem, Revson – cujo nome familiar desconheço – é leitor assíduo deste blogue e, por sê-lo, merece meu humilde agradecimento. Pronto! Pois Revson fez um comentário sobre minha postagem anterior, na qual falo sobre Chico Buarque e sua canção Tanto Mar, que homenageia a lusitana Revolução dos Cravos. Disse que o compositor carioca é passadista e, segundo suas palavras, “O mundo é dos mano, da moçada que faz música periférica”. O que isso quer dizer? Que as atenções são dirigidas aos rappers, fanqueiros e que tais?

Sobrevivendo no inferno | Amazon.com.brTalvez ele tenha razão num ponto: o apelo que, hoje, essa música periférica (termo dele) tem é inegavelmente maior do que têm as canções de Caetano, Gil e Chico (compositores mencionados por ele). É preciso, entretanto, levar em consideração a faixa etária. Inúmeros cinquentões e sessentões, cuja formação musical contou com a participação de craques da MPB, muito provavelmente ignoram quem são os emicis, os fanqueiros et alli. Uma exceção que conheço: eu.

Acabei de ler Sobrevivendo no inferno, dos Racionais mc’s. Li porque é um dos livros selecionados por um dos vestibulares mais seletivos e importantes do país, o da Unicamp. Confesso que não leria, caso não me obrigasse a tal. Apreciei o prefácio – bastante esclarecedor, diga-se – do professor Acauam Silvério de Oliveira , fundamental para a compreensão da importância social e política do movimento no qual o grupo sobressaiu (e do qual, para muitos, é pioneiro). Os textos apresentados, contudo, não me apetecem esteticamente. Não aprecio a linguagem, mas não a desmereço. Sempre é bom lembrar que literatura não é tema. Literatura é linguagem.

Reconheço a relevância social do movimento – enalteço-a, inclusive. A representatividade política dos Racionais é inegável, e deve ser louvada porque é essencial. São, como diz o título, sobreviventes de um sistema social que quer – ou queria -, calar uma voz necessária a quem nunca teve permissão para falar. Desde 2018 são publicados pela prestigiada Cia. das Letras e a edição do livro é bem cuidada, eu diria até refinada. Resta saber se alguém considera isso uma conquista ou condescendência burguesa. Enfim, com as contas no fim: vale a leitura. E, mais uma vez, obrigado, Revson!

Racionais MC's anuncia retorno e promete: "Em breve, novidades"

Antes que eu me esqueça: aos olhos de muitos, então, Chico Buarque, sim, é um autor periférico. Hoje, claro.

Cravos, Chico, Festa (e a versão original)

Hoje é dia 25 de abril – e os portugueses estão em festa desde então. Há 47 anos Portugal, por meio da Revolução dos Cravos, mostrava-se frente a frente ao processo democrático. Segundo consta, uma garçonete lisboeta chamada Celeste Caeiro, iniciou a distribuição de cravos durante o conflito. Muitas dessas flores chegaram aos soldados que, simbolicamente, acoplavam-nas às espingardas.

Não vou explicar como e por quê se deu a revolução que pôs fim ao salazarismo em Portugal. Este espaço é insuficiente para tal narrativa. AQUI você encontra tudo. O que quero dizer é que meu xará, Chico Buarque, homenageou o país e o movimento na canção Tanto Mar. A segunda versão dessa canção é conhecida: está no disco Chico Buarque, de 1978. A primeira, original, feita em 1975, está aqui:

Play

Observe a atualização das formas verbais utilizadas em uma e outra versões. O resto é com você, leitor.

Um P.S. No disco Chico e Bethânia, de 1975, a canção Tanto Mar teve a letra censurada – por motivos óbvios, de modo que apenas a melodia (violão, flauta, palmas etc) pôde ser veiculada. Há também uma belíssima – mesmo! – interpretação da cantora portuguesa Eugênia de Melo e Castro dessa canção. Wagner Tiso acompanha a moça. Vale ouvir!

 

 

 

 

Nara, aos 32

Sim, a voz de Nara Leão era pequena – e daí? Alguém cantava como ela, como se sussurrasse ao ouvido despreocupado de seu ouvinte? Sim, era limitada no alcance, mas expressava-se como ninguém em qualquer gênero musical. Foi do rock ao frevo, passando pelo baião, pela valsa, pela MPB, pelo blues. Foi tropicalista, foi bossanovista, foi a melhor intérprete feminina das canções de Chico Buarque; fez o que ninguém conseguiu: cantar alguns temas de Roberto Carlos melhor do que ele mesmo, o dono da bola.

Li a biografia de Nara, escrita por Sérgio Cabral. É um texto esclarecedor em muitos pontos, embora o autor tenha sido jornalista demais ao escrever.  Foi protocolar, a meu ver. Faltou-lhe um pouco de Ruy Castro na construção das personagem que nos apresentou. Faltou um pouco de new journalism, acho. A técnica do romance teria feito bem ao texto porque Nara merecia que sua jornada fosse assim celebrada. Bem, é apenas uma opinião.

O primeiro disco de Nara que comprei foi Com Açúcar Com Afeto, em 1981, no qual ela interpretava canções de Chico Buarque. Por conta da abertura política, foi possível ouvir a gravação (duo com o autor) de Vence na Vida Quem Diz Sim, originalmente na peça proibida Calabar – O Elogio da Traição, e aquela que, também em dueto com o próprio Chico, iria se tornar um clássico: Dueto. A propósito, AQUI, uma raridade. Para quem gosta de Nara e de Chico, é um manjar.

Nara Leão morreu há 32 anos – num dia 7 de junho, o mesmo dia em que Paulo Leminski nos deixou, por conta da cirrose que o acompanhou como uma sombra. Nara não teve melhor sorte: um tumor no cérebro venceu-a por pontos, até levá-la de forma definitiva. O que ficou? Tudo o que dela necessitamos: voz, suingue, candura, sofisticação, ternura, inquietude, talento, coragem, versatilidade. E muito mais, porque assim era ela: infinita e eterna.

Desafio do IPSIS #2

O IPSIS LITTERIS comemora sua 150ª postagem.

150 postagens sobre música, literatura, cinema, quadrinhos, esporte, política, arte, comportamento – e tudo priorizando o leitor adulto. Em outras palavras, é um blogue pouco lido, mas isso não chega a ser um problema. Vamos em frente assim mesmo, sendo mais ignorado do que reconhecido. Quando este blogue chegou a 100 postagens, propus um desafio, que consistia NISSO. Houve um ganhador, cujo nome é Vítor Sarmento, e que nunca veio buscar o prêmio. Aliás, desapareceu deste blogue, embora eu tenha comunicado a ele, nos comentários, que o sucesso bateu à sua porta. Ao que me consta, hoje, após tanto tempo, o prêmio prescreveu. Talvez não.

Comemorando a tal 150ª postagem, aí vai a segunda edição do DESAFIO DO IPSIS. Três perguntas. Quem acertar as três respostas – é necessário que sejam as três! – ganhará UM (e apenas um) dos prêmios abaixo, a escolher:

1) o blu-ray do filme Vinícius de Moraes, de Miguel Faria Jr, devidamente lacrado e selado.

2) 4 livros: um exemplar do livro Os Mamíferos – crônica biográfica de uma banda insular (biografia) + um exemplar de Fama Volat (romance) + um exemplar de Todas Elas, Agora (contos) + um exemplar de Licantropo (contos). Todos, evidentemente, de minha autoria. 

                         

3) Um voucher no  valor de 100 reais na loja Amigos do Vinil, situada no Shopping Praia da Costa. Fica em frente à C&A. Caso você, vencedor do desafio, não seja adepto do vinil, há, nessa mesma loja, camisas, livros e cedês à disposição. O voucher vale para tudo.

A imagem pode conter: 1 pessoa, sapatos e área interna

DESAFIO

1) Um músico de jazz, conhecido por ser um gentleman que não destinava a ninguém uma crítica, foi abordado por dois amigos, também músicos, que resolveram lhe perguntar qual sua opinião sobre Hitler. Imaginaram, claro, que tal músico/gentleman não teria como falar de Hitler sem criticá-lo. Equivocaram-se. A resposta, elegantíssima, foi: “Indiscutivelmente, Hitler foi o melhor em sua especialidade”. Qual o nome desse músico e qual o instrumento que ele tocava?

2) Chico Buarque de Holanda é um dos grandes compositores da MPB. Para muitos, o maior. Durante muito tempo, principalmente entre 1968 e 1975, sofreu ataques frontais da censura, o que, em muitos casos, obrigou-o a modificar letras de algumas canções. Na lista a seguir, duas canções NÃO sofreram modificações (por conta dos censores) em seus versos. Quais? O Meu Amor, Tanto Mar, Jorge Maravilha, Bárbara, Vence na Vida Quem Diz Sim, Gota D’Água.

3) A ilustração/foto abaixo apresenta a famosa entrevista de alguns integrantes do famoso tabloide O Pasquim com o jornalista Carlos Castelo Branco, identificado com o número 6. Identifique os senhores marcados com os números 1, 2, 3, 4 e 5.

Não, não é fácil. A validade para as respostas do desafio vigora até dia 11/05/2020. Ou seja: quem quiser responder terá 7 dias para fazê-lo.

Roberto, Erasmo e O Bofe

Hoje é dia 19 de abril e o cantor e compositor Roberto Carlos faz 79 anos. Na estrada desde 1961, esse conhecidíssimo senhor já não tem a potência de antes, mas consegue disputar público com duplas sertanejas, padres cantores e funkeiros iletrados. Mantém inatacada a fidelidade de seu público, praticamente não faz shows e tem a seu dispor um grupo de músicos de primeiríssima linha. Não sou fã, mas respeito o trabalho do distinto. E, mesmo não sendo fã, tenho alguns discos em que o talento dele é posto à prova. E passa de ano, com louvor.

Como este blogue, todavia, não suporta os clichês, resolvi falar de um disco especial: a trilha sonora de O Bofe, que não apresenta a voz afinada de Roberto Carlos. Por quê? Porque todas as canções são interpretadas por outras cantores: Jaques Wu, Osmar Milito, Elza Soares, Os Vips, Nelson Motta e mais alguns menos votados. É um disco bem feito, suingado, há algo de soul nele, há algo de rock – tudo misturado, claro. Aquilo que os críticos chamam de música romântica, marca registrada de Roberto, não predomina. Ah, não consta da discografia da dupla Roberto/Erasmo. Isso faz dele ainda mais especial. Se quiser ouvir o disco, CLIQUE AQUI.

Em frente ao coqueiro verde

Não há canção ruim neste elepê, e não falo apenas de gosto pessoal. Letras bem armadas, irônicas, ligeiras, debochadas. Os arranjos? São simplesmente elaborados por Waltel Branco, que trabalhou com Tim Maia, Marcos Valle, Flora Purim, Rosa Passos. Acha pouco? Então lá vai: Chico Hamilton, Dizzy Gillespie, Henry Mancini, Sergio Mendes e João Gilberto, além de ser um dos responsáveis pela trilha de A Pantera Cor de Rosa. Está bom, não? E quem produziu o disco foi Eustáquio Sena, que ficou conhecido como produtor do mais importante – segundo a crítica especializada – disco de música brasileira: Acabou Chorare, dos Novos Baianos. Eustáquio canta a faixa Perdido no Mundo.

Ficheiro:O bofe - nacional.jpg – Wikipédia, a enciclopédia livre

Tenho pouca recordação da telenovela. Lembro-me de Ziembinski vestido de mulher e de Claudio Marzo barbudão. A trilha vim a conhecer uns quinze anos depois, quando, já mais amadurecido, deixei de falar que telenovela é alienação e que suas trilhas sonoras prestam-se unicamente a vender bobagens que vão povoar lares incultos. E passei também a reconhecer o talento de Roberto Carlos, antes relegado a cafona, ultrapassado, chato. Merece os parabéns, também pelo aniversário.

Sarah: a mais completa, em 3 discos

Mais um pouco sobre jazz. Já comentei, aqui mesmo neste espaço, que a Santíssima Trindade do vocal feminino, no gênero, é composta por Ella Fitzgerald, Carmen McRae e Sarah Vaughan. A maioria discorda: dizem que Billie Holiday é mais cantora que Carmen, tem mais charme, mais carisma e é mais afinada. Quanto ao carisma e ao charme, eu não discuto, porque são avaliações pessoalíssimas. Mas parece-me difícil avaliar quem, entre as 4 citadas, é a mais afinada. Eu não sei. Acho que empatam. Deixando de lado, contudo, as comparações (mas contraditoriamente as mantendo), dedico esta postagem àquela que considero a mais completa: Sarah Vaughan, que nos deixou num dia 3 de abril, há 30 anos.

Sarah Vaughan, Birdland, NYC by Herman Leonard on artnet

 

Difícil dizer qual o melhor disco de Sarah Vaughan. Oficialmente, ela gravou 50 álbuns em estúdio e 8 álbuns ao vivo. Existe pelo menos o dobro disso quando se fala em gravações piratas. Há, contudo, 3 discos que ouço regularmente: Sarah Vaughan, de 1954, acompanhada pelo genial Clifford Brown, no qual brilham faixas como April in Paris, Lover Man e Body and Soul, sem falar na clássica They Can’t Take That Away From Me. AQUI você ouve o disco inteiro. Sarah é a mais versátil: vai da balada marcada por intensos vibratos ao diálogo seco e direto com o trompete de Brown. Atenção especial a April in Paris e Lover Man. Sarah faz de tudo com a voz. Ouça e concordará comigo, tenho certeza.

Sarah Vaughan - Clifford Brown - Sarah Vaughan With Clifford Brown ...

 

Junte os dois mais completos em suas áreas e você terá um disco irrepreensível. Duke Ellington é o maior compositor do jazz, e Sarah Vaughan, em dois discos, resolveu mostrar ao mundo por que ele deve ser ouvido. Sempre. Coloque no disco Frank Foster e Zoot Sims (sax), J. J. Johnson (trombone) Grady Tate (bateria), Joe Pass (guitarra) e Frank Wess (flauta) e você vai achar que não precisa mais ouvir nada nesta vida. Um grande disco, em dois volumes. Escolhi o primeiro porque nele há Sophisticated Lady, Lush Life e In a Sentimental Mood. Clique nos temas e aprecie. A propósito: Duke não está ao piano. Jimmy Rowles e Mike Wofford revesam. É um disco lento, para ser ouvido com atenção. Ao menos é assim, comigo.

Sarah Vaughan - Duke Ellington Song Book One (1982, Vinyl) | Discogs

 

O terceiro e último é um primor de gravação, e mostra Sarah Vaughan à vontade com a música brasileira. Há mais 3 discos em que ela expressa seu encanto pela Bossa Nova e pela MPB: O Som Brasileiro de Sarah Vaughan, de 1978, I Love Brazil, de 1979, e Brazilian Romance, de 1987, com Milton Nascimento. Por que escolhi Copacabana? Porque há a gravação de Double Rainbow, a qual conhecemos como Chovendo na Roseira. Só ela já vale a escolha. E ainda há Dindi, e Gentle Rain, em gravações que considero definitivas. Em tempo: Helio Delmiro e Wilson das Neves abrilhantam o escrete que a acompanha, formado ainda pelo baterista Grady Tate e pelo baixista Andy Simpkins. Discaço!

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