Filmes (re)vistos #8: O Baile, 1983

Para muita gente, Grease – ou Nos Tempos da Brilhantina – é o melhor musical já feito. Inegavelmente simpático e uma estrondosa máquina de fazer dinheiro, o filme tem um trunfo: o rock, gênero que a juventude preza e consome. Escrevi sobre musicais: quem quiser pode verificar AQUI. Mas por que estou falando sobre essa vertente cinematográfica? Porque assisti, mais uma vez – dentre tantas -, ao filme O Baile, do italiano Ettore Scola – para mim, obra-prima, daquelas que quem ama o cinema precisa assistir diversas vezes. Tenha certeza: o cansaço passa longe.

O Baile - Cenas de Cinema - Crítica do filme - Clássico

O Baile é o que é: um baile – ou seja: um evento em que música e dança unem-se para para entreter quem por ali se encontra. No caso, o filme vai além, porque seu objetivo (se é que precisa ter um) é contar a história da França a partir da união entre as duas artes citadas, conectando-as a suas causas e consequências: a cultura, o costume, o tempo, a história. A ousadia da película reside no fato de que palavras não são tão necessárias à comunicação. Música, gestos, comportamento e talento para unir tudo isso, sim.

O filme fará quarenta anos em dezembro – data de seu lançamento. Scola é craque: fez Nós que nos amávamos tanto e Feios, sujos e malvados. Só isso já lhe justificaria a celebridade, e seria suficiente para que não se sentisse na obrigação de dirigir a ótima comédia O Jantar. Voltemos, pois, ao baile. Há quem diga que, sem palavras, é impossível contar uma história. Balela de diletante, claro. Ettore Scola parte da ideia do contrário, transformando em narrador a combinação de cenário, vestimenta, gesto, expressões faciais e, claro, música. Sem legendas – porque elas são, aqui, desnecessárias -, a narrativa funciona: é poética, é engraçada, emotiva.

Cinco filmes para conhecer Ettore Scola | GZH

As referências culturais, sublinhadas pela coreografia e pelos variados gêneros musicais, são expostas como um banquete sobre a mesa: todas as iguarias juntas, mas é possível eleger aquela que mais agrada, que mais se destina ao espectador que, tenha certeza, participa, a seu modo, da atmosfera que a música e o movimento provocam. Nem tudo é alegria, claro. Por exemplo: uma das cenas mais tocantes da película é o repúdio do(a)s dançarino(a)s – que batem os pés no assoalho, repetidamente – a um personagem vestido de preto (cicatriz num dos olhos), que levanta a mão numa menção ao nazismo. Eis a resistência. Esse é Scola.

A propósito: é possível assistir ao filme AQUI.

Eu & Os Titãs

Qual o ponto alto de um show de rock? Quando o guitarrista ataca um solo monumental, daqueles que ninguém imita? Quando o vocalista, qual um tenor de ópera, arrisca um dó de peito e acerta em cheio? Naquele momento em que o baterista, à moda de Keith Moon, faz o instrumento eternizar-se? Cada espectador, claro, escolhe o momento primordial, inesquecível. Eu, por exemplo, escolhi – durante a apresentação da banda Titãs, em Vitória, ES, no último fim de semana – o instante em que Charles Gavin, batera do grupo, surrou os couros vestindo a camisa do meu time do coração, o doméstico Rio Branco.

Não sou um fã dos Titãs. A bem da verdade, quando surgiram, inaugurando, junto a outras bandas, o movimento BRock, no início dos anos 1980, não fui na onda. Embora gozando os meus 20 anos, mantive-me no gênero que havia me capturado (3 anos antes): a MPB. Chico Buarque, Gil, Caetano, a dupla Toquinho & Vinicius, Tom Jobim e Belchior valiam muito mais do que Renato Russo, Cazuza, Arnaldo Antunes e Nando Reis. Sim, claro, era – e ainda é – uma opinião. A bem de uma outra verdade: abstive-me da contemporaneidade, desconfiei da “revolução musical” que encheu o coração da juventude brasileira. Ignorei o movimento em si. Eu e minha senectude, disse-me uma amiga, certa vez.

Por curiosidade: ouvi a banda com bons ouvidos a partir do início dos anos 2000. Minha mulher – namorada, à época – apresentou-me a banda e, claro, a forma apaixonada como ela consumia música & letras contagiou-me – num certo sentido. Não, não foi suficiente para eu me tornar um ardoroso entusiasta, mas amoleceu meu coração. O show foi bacana – muito mais por resumir uma carreira de sucesso e trazer à superfície a memória afetiva de uma plateia que ali estava justamente para isto: lembrar-se de momentos vividos à custa das canções. E, evidentemente, emocionar-se.

Por falar em emoção, a homenagem ao falecido guitarrista Marcelo Fromer – sua filha Alice subiu ao palco, e cantou -, e ouvir Branco Mello cantar (vítima que foi de um tumor na laringe) deram o tom sentimental – mas nem de longe piegas – ao encontro de artistas que, marcados pela honestidade musical e pela satisfação inequívoca de fazer um bom trabalho, tornaram o público feliz por 140 minutos. Sim, repito: foi um show bacana: não me arrependo de ter ido. Não chegarei a me tornar fã ou consumidor, mas valeu ter testemunhado a História. Valeu, Titãs! E valeu, Charles, por vestir a camisa do meu time.

Sem Jeff, sem música

Jeff Beck nasceu pronto – mas por que digo isso? Porque aos 20 anos substituiu Eric Clapton como guitarrista dos Yardbirds. Se você gosta de rock, entendeu o porquê. Caso não, lá vai: somente um guitarrista pronto, sem necessidade de nada que se acrescente a seu talento ou performance, seria capaz de substituir um dos maiores guitarristas de todas as épocas. Jeff nunca teve – é o que me parece – o reconhecimento pleno. É um dos ases do gênero, mas sua popularidade (se é que precisou de uma) sempre esteve na corda-bamba. E daí? Quem curte a grande música sabe quem ele é – e ponto.

Aos 78 anos, morre Jeff Beck, um dos mais influentes guitarristas da  história - ISTOÉ Independente

Em 1986, ganhei, não me lembro de quem, o elepê Wired, gravado dez anos antes do meu privilégio de ouvi-lo. Ouvinte de jazz, lembro-me de ter estranhado a gravação de Goobye Pork Pie Hat, escrita por Charles Mingus, o grande orquestrador, band-leader e maior contrabaixista do jazz. Você pode ouvir AQUI. Não consegui, exceto por algumas passagens bem breves, encontrar semelhanças com o original jazzístico. Só isso – que não é, nem de longe, um detalhe – já me fez apreciar aquele de quem eu compraria, quase imediatamente (creio que poucos dias depois), outro elepê: Blow by Blow, um clássico em que as homenagens ao jazz continuam: há uma faixa, escrita por Stevie Wonder, intitulada Thelonius. Ah, claro: o próprio Stevie participa da faixa, nos teclados.

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Por falar em teclado, Jeff e Max Middleton, tecladista, compuseram You Know What I Mean, Air Blower e Scatterbrain. Middleton, sozinho, escreveu Freeway Jam. A propósito: se você gosta dos Beatles, vai apreciar She’s a Woman: uma beleza de execução. A guitarra fala, literalmente. Bem, ouça o disco, por inteiro, AQUI. Vai gostar.

Antes de escrever este texto, fiquei pensando quantos discos dele eu possuía. Não são muitos: Truth, Wired, Blow by Blow, Flash, Crazy Legs e Emotion & Commotion (do qual não gosto), que foi lançado no dia em que completei 48 anos, num 13 de abril. Jeff Beck morreu anteontem, dia 10 de janeiro, aos 78 anos, vítima de meningite. Continuava na ativa, mantendo agenda de shows (inclusive em companhia do ator-músico Johnny Depp) e, algo tristemente irônico, cuidando da saúde. Uma tristeza para o rock; outra para a música.

O melhor do Jazz #11: os quintetos

O quinteto é a formação clássica do jazz: saxofone, trompete, piano, baixo e bateria. Há quem prefira um grupo com apenas um sopro, concentrando as atenções nos fraseados enquanto o piano estabelece a harmonia e a dupla baixo-bateria cozinha o alimento que é servido. Quais os grandes quintetos do jazz? Mais uma vez uma lista que revela a gosto pessoal deste que vos escreve.

Charlie Chan (5) • Dizzy Gillespie • Bud Powell • Max Roach • Charlie  Mingus - Jazz At Massey Hall (Vinyl, LP, Album, STEREO - Amazon.com MusicNa verdade, este quinteto não deveria entrar na lista, afinal não foi uma reunião sistemática de cinco músicos, que tivessem feito vários discos etc. Mas é um quinteto e é o melhor disco de jazz que conheço. Eu já disse isso. Por que melhor? Bem, reuniu ninguém menos que Charlie Parker, Dizzy Gillespie, Bud Powell, Charles Mingus e Max Roach. Ou seja: ao menos 4 desse grupo são os melhores em sua especialidade. Ouça o disco AQUI, para comprovar. Gravado no Massey Hall canadense, em maio de 1953.

Workin with Miles Davis Quintet | Amazon.com.brO segundo lugar não poderia deixar de ser do quinteto de Miles Davis – aquele, nascido em 1955 e desfeito em 1959, com variações ao piano e a adição do sax alto. O time básico: Miles Davis (trompete), John Coltrane (sax tenor), Red Garland (piano), Paul Chambers (baixo) e Philly Joe Jones (bateria). A série de discos Relaxin’, Cookin‘, Workin‘ e Steamin’ é de fazer chorar. No bom sentido, claro. Eis o melhor: Workin with the Miles Davis Quintet: AQUI.

Charlie Parker foi o maior raciocínio do sax alto e, para muitos críticos e estudiosos do jazz, o maior de todos os saxofonistas. Genial em todos os estilos, fez-se acompanhar de um timaço de músicos no coração dos anos 1940: Duke Jordan ao piano; Tommy Potter no baixo; o sempre magnífico Max Roach na bateria. E quem, no trompete? Sim, Miles Davis que, segundo suas próprias palavras, aprendeu jazz com Bird. Ouça, AQUI, Bluebird, o disco na ilustração.

Serenade to a Bus Seat - WikipediaClark Terry não entrou na lista de trompetistas favoritos, mas entra aqui, com seu quinteto. Veja só: Johnny Griffin, no sax tenor; Wynton Kelly ao piano; Paul Chambers no baixo, e Philly Joe Jones nos couros. Onde vc já viu parte dessa sessão rítmica? Com Miles Davis em seus ótimos dias. Timaço. Um extraordinário quinteto. Esse disco, Serenade to a bus seat é de se ouvir agradecendo a Deus por seus tímpanos funcionarem. AQUI você inicia o agradecimento.

Moanin' (Art Blakey).jpgDe todas as formações que conheço do Art Blakey and the jazz messengers, esta é a melhor: Lee Morgan (trompete), Bobby Timmons (piano), Benny Golson (sax tenor), Jymie Merritt (contrabaixo) e, claro, o líder, Art Blakey, na bateria. Um disco sem erro protagonizado por um quinteto absolutamente perfeito. Uma atenção especialíssima ao som de Timmons, um dos grandes pianistas que o jazz produziu. Ouça tudo, AQUI.

Minha lista (devida)

Listas divertem – e somente isso. Divertem quem lê e quem a produz. Aquele que lê adora discordar, criticar, mandar às favas. Embora concorde com alguns pontos, prefere apontar, de fato, aquilo de que discorda. Comigo é assim. Deve ser assim com você também, prezado(a) leitor(a). Há algumas semanas, postei uma lista de discos escolhida por vários jornalistas espalhados pelo Brasil. Comentei-a, AQUI. Se quiser lê-la antes de ler a minha, fique à vontade.

Ressalto: não entraram na lista música instrumental ou clássica. Você perceberá também que nenhum dos discos envolvidos tem menos de 40 anos. Sim, é preferência minha. E não há somente MPB, como se pode observar. Canção do Amor demais é um disco de bossa nova, assim como Chega de Saudade. Entraram, contudo, na lista. Não sou tão purista quanto pareço. Ei-la:

ÓPERA DO MALANDRO – Teatro em Escala1. Ópera do Malandro, Chico Buarque. O disco duplo é a perfeição, da escolha dos intérpretes à confecção das canções. Algumas delas obras-primas, como Geni e o Zepelim, O Meu Amor, O Malandro e Uma Canção Desnaturada. E a ópera, que fecha o disco, é de fazer inveja a muitos escritores tarimbados. Arranjos do craque Francis Hime. Chico Buarque é o maior nome da MPB.

Alucinação de Belchior dialogando com a nossa época | LOID2. Alucinação, Belchior. Um disco em que brilham canções que ficarão para sempre – e olhe que nasceram entre 1973 e 1975! Exemplos? Como Nossos Pais, Apenas um rapaz latino-americano, A Palo Seco e Velha Roupa Colorida. Belchior é um dos melhores letristas do gênero, e este disco, em que quase todos os integrantes eram ligados ao rock, é seu apogeu.

Caetano Veloso – Bicho, 40 anos – linksonoro3. Bicho, Caetano Veloso. Todos os discos de Caetano entre 1969 e 1982 são ótimos, de modo que escolher este – de 1977 – não foi tarefa fácil. O que destaca? O Caetano absolutamente maduro e criativo. Canções como Tigresa, Gente, Um Índio, O Leãozinho e Alguém Cantando provam isso. Todas sensacionais: letra e música. Escolhi por conta delas.

Edu & Tom - Tom & Edu4. Tom & Edu, Edu Lobo/Tom Jobim. Junte Beckenbauer e Cruyff no mesmo time. Mal comparando, é mais ou menos isso. Dois maestros juntos, divertindo-se, cantando e tocando canções que eles mesmos eternizaram. Destaque para Vento Bravo, Chovendo na roseira, Pra dizer adeus e Luíza. Aliás, destaque para tudo, porque o disco é antológico!

Canção do Amor Demais – Wikipédia, a enciclopédia livre5. Canção do Amor Demais, Elizete Cardoso. Os fãs de Elis que me perdoem, mas Elizete é a maior cantora brasileira. Opinião particular – é óbvio. Agora imagine essa senhora sendo acompanhada por Tom Jobim e João Gilberto, pais da Bossa Nova! E imagine-a cantando canções de Tom & Vinicius! Se você aprecia o gênero, vais achar esse disco a obra-prima entre as obras-primas. Arranjado por Tom, todas as faixas são excepcionais. Bem, afinal é Elizete cantando.

Chega de Saudade - João Gilberto - LETRAS.MUS.BR6. Chega de Saudade, João Gilberto. Pois é: disco icônico, fundamental, do qual – confesso! – só fui realmente gostar após tê-lo ouvido na vida madura, nos meus quarenta e poucos. Sim, é revolucionário, criou um outro modo de se cantar samba, e gerou uma filharada que se mantém até hoje. Claro que algumas letras são bobinhas, infantis, mas o que conta é como se canta e como se toca. É um mundo que se abre, em 1959. Se você pensa que esse mundo fechou, erra.

Há 45 anos, Jards Macalé reunia | Podcast | Rádio Brasil de Fato7. Banquete dos Mendigos, Jards Macalé. Um disco-manifesto, comemorando os 25 anos da Declaração Universal dos Direitos Humanos. Emblemático, representou a reunião de vários nomes: Chico Buarque, Gal Costa, Johnny Alf, Paulinho da Viola, Edu Lobo, Jorge Mautner, Raul Seixas, Gonzaguinha, Milton Nascimento, Toninho Horta e, claro, Jards Macalé. Muita gente boa junta: difícil não sair algo fenomenal.

Refavela: como o álbum de Gil revolucionou a MPB nos anos 708. Refavela, Gilberto Gil. Por que não discos extraordinários como Refazenda, Um Banda Um, Nightingale ou Dia Dorim Noite Neon? Bem, primeiro porque Refavela também é extraordinário. Em segundo lugar, porque foi o primeiro disco de Gil que comprei, em 1979, dois anos depois de ele ter sido lançado. A relação é pessoalíssima. Não precisaria nem citar que Balafon, Sandra, No Norte da Saudade e a faixa-título são primores textuais.

Antologia - MPB 4 - Álbum - VAGALUME9. Antologia, MPB4. Gosto de todos os discos do MPB4, sem exceção. Nunca fizeram nada que me desagradasse. Os fãs do quarteto – se é que lerão esta postagem – vão torcer o nariz, afinal, como uma antologia pode ser o melhor disco? Pois é. Mas juntar pot-pourri de Ismael Silva, Ataulfo Alves, Chico Buarque, Tom Jobim, Paulinho da Viola, Nelson Cavaquinho, Noel Rosa, Monsueto, Dorival Caymmi e Baden Powell não é pouca coisa. E a afinação do quarteto é coisa de outro mundo. Discaço!

Milton Nascimento, LP Duplo Clube Da Esquina 2- Série Clássicos Em Vinil  [Disco de Vinil]: Amazon.com.br: CD e Vinil10. Clube da Esquina 2, Milton Nascimento. Sim: acho o número 2 melhor. Gosto daquele que ficou em primeirão, no juízo dos jornalistas. Prefiro este porque Canção Amiga, Casamiento de Negros, Credo, Paixão e Fé, Maria Maria e Tanto estão nele. E, claro: Canción por la unidad de Latino America, em companhia de Chico Buarque, com um show de Wagner Tiso. Política e arte nas alturas.

Se quiser enviar a sua lista, sinta-se convidado(a) a fazê-lo.

Desafio do Ipsis Litteris

Mais um DESAFIO do Ipsis Litteris (o terceiro). O primeiro a acertar as 3 respostas – é necessário que sejam as 3! – ganhará os prêmios acima. Haverá somente 1 ganhador: aquele que responder primeiro, e enviar a resposta ao blogue. Os prêmios: 1 exemplar de Os Mamíferos – crônica biográfica de uma banda insular, de Francisco Grijó; 1 blu-ray Vinicius de Moraes e 1 exemplar do disco Cantando Vitória, de Pedro de Alcântara.

A duração do desafio: até terça-feira, dia 16, às 23h59! Caso ninguém acerte, a resposta será publicada neste horário. Boa sorte!

Eis as perguntas:

  1. Quem são as personagens na foto?

         2. Que crítico literário escreveu estas palavras sobre o romance Moby Dick?

        3. Qual a principal obra de cada um desses senhores destacados?

O melhor do Jazz #10: trompetistas

Quem são os maiores trompetistas do jazz? Bem, cada um tem sua preferência – e eu me incluo nesse cada um. Essa série O Melhor do Jazz revela, é evidente, minha preferência. Já adianto que deixo de lado um jazzista hors concours (que, hoje, faria 121 anos): Louis Armstrong. Justifico: além de ser o “pai” de todos, foi – mais uma vez a meu ver – superior a outros trompetistas, independentemente da época. Fica de fora, então. Agora, meu top 5:

Dizzy Gillespie é um dos maiores nomes do jazz, considerado o criador do bepob, ao lado de Charlie Parker. Sendo seu fraseado constantemente inventivo, criou um vocabulário jazzístico próprio, muitas vezes sincopado. Foi virtuose, mas foi, também, vanguardista, ligando o jazz norte-americano à música caribenha – para horror dos puristas. É uma figura genial, um instrumentista de primeira linha, imitado, admirado, reconhecido. Sugestão: ouça Bird and Diz, AQUI. É um dos clássicos do jazz.

Miles Davis mudou o jazz três vezes. Criou o modal jazz, o cool jazz e o  jazz fusion. A despeito de concordar ou não comigo, é um nome fundamental do gênero. Sem sua liderança, não conheceríamos o melhor quinteto da história do jazz, nem o noneto que apresentou a conexão com a música clássica, nem a troca de beijos com o rock. Miles arregimentou músicos como ninguém fez, nem antes nem depois. Essencial! Sugestão: ouça, AQUI, ‘Round About Midnight, um dos grandes discos do quinteto de Miles, no qual brilhavam John Coltrane, Paul Chambers, Red Garland e Philly Joe Jones.

Miles Davis' Historic First Blue Note Recording Session | uDiscover

Clifford Brown é, para muita gente, o melhor de todos os trompetistas. Tenho todos os discos dele pela Emarcy, e meu preferido é este AQUI. Sua morte prematura, aos 25 anos, contribuiu para a mística de que um substituto para Louis Armstrong havia deixado este mundo, embora tenham tido, ambos, diferentes estilos. A potência do sopro, as frases limpas e a força improvisativa eram suas marcas inequívocas. Um músico genial, que sobressaiu ao lado de um dos maiores bateristas de jazz de todos os tempos, Max Roach.

Clifford Brown Jazz Festival (Live Virtual Stream) - JazzBuffalo

Dentre os inúmeros discos de Lee Morgan que possuo, Leeway é o que mais me impressiona – e o primeiro que adquiri, no início dos anos 1990. AQUI você o ouve, inteirinho, em companhia de quem o projetou, Art Blakey, e de um dos ótimos pianistas do jazz, Bobby Timmons. Muito ligado ao blues, Lee Morgan criou uma forma muito particular de tocar: solos longos, bem articulados, claros, inspirados no som de seu primeiro professor, Clifford Brown. Lee morreu aos 33 anos, assassinado pela esposa.

Casamento, assassinato e heroína: o trágico conto do trompetista de jazz  Lee Morgan

Woody Shaw empatou com Fats Navarro, Donald Byrd, Freddie Hubbard e Clark Terry na escolha do quinto nome. Escolhi-o porque, ao ouvi-lo, lembro-me de dois outros grandes trompetistas (que não entraram na lista): os citados Navarro e Hubbard. Woody Shaw mistura a força improvisativa do primeiro e o suingue cerebral do segundo. AQUI um disco fabuloso, com standards do jazz, e em companhia do excelente pianista Cedar Walton.

Last studio recording of jazz trumpeter Woody Shaw released | PBS NewsHour

Próxima edição: os quintetos.

Barrocos fundamentais

Alguém disse – e eu acredito – que a música barroca é o apogeu da criação na arte. Principalmente a música barroca alemã, capitaneada pela maior personalidade da música: Johann Sebastian Bach. O barroco musical italiano não fica muito atrás, e, caso quem está lendo duvide, ouça o disco abaixo. É uma coletânea da folia barroca, na qual brilham 4 italianos, um francês e um alemão. No dna deste último descansava a herança do citado Johann. Essa coletânea é simplesmente a melhor compilação de música barroca (reunida em apenas um disco) que conheço. Eis a capa:

Quem são os italianos? Corelli, Geminiani, Scarlatti e Vivaldi. O francês é Marin Marais e o alemão, o filho mais criativo de Bach: Carl Philipp Emanuel. O Quarteto Purcell – formado por Robert Wooley (cravo e órgão), Richard Boothby (violoncelo) e por duas Catherines nos violinos: Weiss e Mackintosh – é de uma extraordinária competência. A exatidão da execução é tanta que parece ter sido corrigida (como se houvesse necessidade!) por programas de computador. Coisa assombrosa, ao mesmo tempo que edificante e tremendamente emotiva. Eis o time:

Primary

A música barroca está em primeiro lugar, no que se refere às minhas preferências. A polifonia, o uso do baixo contínuo – que só fui compreender muito tempo depois de ouvir exaustivamente – e a inventividade de tantos sons combinados me fizeram admirar, primeiramente, J. S. Bach. Depois, fui a seus pares: os seis senhores que compuseram as variações que geraram esse disco excepcional. Confesso que minha predileção, dentre as seis gravações, está centrada no meu xará, Francesco Geminiani e seu Concerto Grosso La Folia (after Corelli). Infelizmente essa gravação não é com o Quarteto Purcell.

Caso se interesse, aí vão os links para se ouvir: AQUI, 12 Variationen über Die Folie D’Espagne, de C. P. E. Bach. AQUI, Trio Sonata in D Minor (Variations on “La Folia”), de Vivaldi. AQUI, Folia From Toccata No 7 (Primo Tono), de Scarlatti. AQUI: Les Folies d’Espagne, de Marais. E, finalmente, AQUI, a genial Sonata In D Minor Op 5 No 12, de Corelli. Sinceramente? Eu ouviria todas, na sequência que quiser – não deixe de ouvir, contudo.

55 anos sem JC

JC, claro, não é Jesus Cristo; tampouco se refere ao pernambucano Jornal do Commercio, com m duplo e sem acento agudo no e. Na verdade, são as iniciais de um dos maiores músicos de jazz de todos os tempos (e para muita gente, o maior): John Coltrane que, no dia 17 de julho, há 55 anos, morreu de câncer hepático – aos 40 anos. Se há uma perda que a música lamente há tanto tempo, tenha certeza: é essa. Muito se falou sobre Coltrane. Muito se teorizou, avaliou, escreveu, estudou. É reverenciado com merecimento: até uma igreja para louvá-lo existe. Nada que eu escreva sobre ele será inédito ou original. Ao lado de Charlie Parker, é o mais celebrado nome do jazz.

Em 2018, escrevi sobre o álbum perdido – ou seja: mais um disco seminal, uma obra de primeira, com o quarteto que trouxe ao mundo o sensacional A Love Supreme, um disco espiritualizado, místico, ao mesmo tempo que excessivamente cerebral, quase matemático. É seu ponto máximo, para muitos. Meu primeiro contato com o gênio deu-se por conta de outro músico: Duke Ellington, o maior dos compositores no gênero. O disco Duke Ellington & John Coltrane é absurdamente bom: sete faixas em que tudo está no lugar certo, e traz – provavelmente – a melhor gravação de In a Sentimental Mood que há. Duvida? É só checar clicando no título!

Li uma entrevista de Alice Coltrane, sua viúva, em que ela afirmou que JC estacionara em um ponto sem retorno. A busca espiritual havia-se tornado uma obsessão, a beatitude chegara a um limite incompreensível – mesmo para ela, companheira de casa e estúdio. É a fase mística da carreira, com pelo menos um disco excepcional (embora complexo): Ascension, publicado um ano antes de sua morte. E o quarteto está lá: McCoy Tyner, Jimmy Garrison e Elvin Jones. Sim, há mais gente.

Tenho 68 discos de John Coltrane – entre cedês e elepês. Difícil dizer de qual gosto mais. Caso fosse necessário escolher um, eu apostaria em Olé, disco de 1961 com apenas 3 faixas (4 em cedê: To Her Ladyship como faixa-bônus). É um monumento, o apogeu criativo tanto na confecção quanto na execução. Coltrane ao lado de dois gigantes: Freddie Hubbard, no trompete, e Eric Dolphy, na flauta. E McCoy Tyner, o pianista, quase rouba a cena. Se duvida (novamente), clique no título do disco. Escolhi Olé, mas poderia ter escolhido Giant Steps, My Favourite Things, Ballads, Live in Seattle, Soultrane, Coltrane plays the Blues e por aí vai. Melhor parar por aqui.

A única antologia, por enquanto

Vamos ao óbvio: só se deve enumerar um artigo se houver outros exemplares dele. Se for único, não faz sentido chamá-lo “primeiro”. Sim, falei algo dispensável, implícito em qualquer discurso. A editora Paz  e Terra, entretanto, pensa diferentemente. Aliás, sendo honesto: o problema não é da editora brasileira, mas da própria revista mundialmente conhecida e respeitada: The New York Review of Books. Vou explicar: em 1997, adquiri um livro que saía do forno: a edição brasileira de uma reunião de artigos publicados, por 30 anos, do citado veículo.

Se você que está lendo se interessa por cultura, arte, política, sociologia e uns nacos de filosofia vai apreciar a seleção de artigos feita por Robert Silvers, Barbara Epstein e Rea Hederman. Algumas perguntas iniciais devem ser feitas. Quem escreve? Sobre o que e sobre quem se escreve? Como se escreve? Esta última pergunta é fácil de responder: escreve-se bem. Alguns textos são absurdamente bem escritos – chega a dar inveja, ao menos a mim. As duas primeiras perguntas podem ser respondidas ao mesmo tempo.

Para se ter uma breve ideia: o crítico de arte Robert Hughes escreve sobre Andy Warhol; o poeta Wystan Auden versa sobre enxaquecas, enquanto o polêmico Gore Vidal fala sobre aviação em A Paixão de Voar. É um prazer saborear cada parágrafo da entrevista que o maestro Robert Craft faz com o sempre genial Igor Stravinski: o assunto é Beethoven e suas sinfonias. Richard Ellmann, claro, fala sobre Joyce, e meu texto preferido, Balzac aos trinta anos, é escrito pelo brilhante crítico inglês V. S. Pritchett.

Falei em preferência textual, mas é difícil escolher, dentre 23 artigos, qual o mais interessante. Eu não conheço uma revista literária com tamanha envergadura intelectual, capaz de abraçar tanto talento pontuando ideias que interessam não somente aos iniciados, mas a qualquer um que enxergue na boa leitura prazer e benefícios. Em tempos de boçalidade escrita e falada, de superficialidade de ideias, de enaltecimento dos medíocres, o New York Review of Books é um foco necessário de resistência.