Cacaso & meu xará: a poesia essencial

Cacaso & meu xará: a poesia essencial

Book coverNo início da década de 80, século passado, a Abril Cultural lançou uma coleção intitulada Literatura Comentada, que se propunha reunir os grandes nomes da produção literária brasileira — contemporâneos ou não — em edições cujos autores eram, também, pessoas ligadas às letras: professores e estudiosos, na maioria. Foi por meio dessas publicações que conheci, metonimicamente falando, os poetas Francisco Alvim e Cacaso, criadores de estilos distintos pertencentes a uma geração de jovens poetas que se tornaram referência da poesia jovem dos anos 1970. Aliás, esse era o título do volume de Literatura Comentada, que trazia também figuras como Ana Cristina César, Paulo Leminski, Chacal, Alice Ruiz e mais um bocado de poetas — além dos dois citados. A organização do volume ficou por conta de alguém tarimbadíssima na área: Heloísa Buarque de Holanda.

Elefante, volume de pouco mais de 140 páginas, foi publicado há 25 anos. Afeito aos minimalismos da palavras, Francisco Alvim é um herdeiro do epigrama (por aqui chamado poema-minuto, tão caro a Oswald no início do Modernismo). Há de tudo, ao menos um pouco: quotidiano, sensualidade, política, medo, esperanças perdidas e reencontradas, amor — e por aí vai. A linguagem? Da secura ao lirismo fingido, usando as palavras economicamente. Alguns poemas têm apenas um verso. Outros, apenas uma palavra.

Há algo de Dalton Trevisan, em Tetéia: “Quem te deu esse brinquinho?/Comprei lá na feira do Gaminha.” Embora não seja leitura fácil, assimilada de imediato, vale conhecer o universo do meu xará. E Cacaso? É outro caso à parte nessa nova poesia de 50 anos. Suas œuvres complètes são absolutamente essenciais a quem gosta de poesia. Cacaso é o Baudelaire brasileiro pós-moderno, é um mestre da ironia, ingrediente fundamental de um texto sem propósito definido. Aliás, para que definir?

Aí vai Salário Máximo: “De noite sou amante da empregada/De dia sou patrão da amante”. Poemas curtos, poemas longos, poemas sem tamanho: letras de canções, homenagens, ritual cotidiano, iconoclastia, homenagens, metalinguagem, e muito mais. Ou seja: se não tudo, quase. E ainda a fortuna crítica, com as vozes de Roberto Schwarz, a citada Heloísa Buarque de Holanda e o aqui mencionado Francisco Alvim. O poema-minuto, instaurado naquela geração que precisava da velocidade da mensagem, está presente. Cacaso foi um herói literário de seu tempo, e que nos deixou esta pérola, tão atual, no poema intitulado Palavra do $enhor: “No princípio era a Verba.”

Valeu, Cacaso! Valeu, Xará!

 

 

 

Brendel e Levine concertando Ludwig

Brendel e Levine concertando Ludwig

O notável pianista Alfred Brendel deixou-nos há alguns meses. Foi, para muita gente, o maior intérprete das obras para piano de 3 grandes: Beethoven, Liszt e Schubert. Eu não sei dizer se é o maior — mas está entre os melhores que ouvi. James Levine é um californiano que mandou e desmandou em duas grandes companhias musicais: a Met Opera e a Sinfônica de Boston. São dois craques que, inseridos (cada um a seu modo, mas como convidados) na centenária Sinfônica de Chicago, fizeram história. Um dos resultados dessa história é um disco triplo da Philips, ilustrado ao lado.

Que fique claro: sobre o casamento Brendel-Beethoven, ao menos um fruto é fundamental: foi o pioneiro na gravação de todos os concertos do alemão para piano. Ninguém se aventurava, já que era empreitada que previa desgaste, muito trabalho e o tempo parecia andar lentamente. Sem contar que era necessária a presença de um maestro tão linha-dura quanto maleável, a depender da situação. James Levine era o cara certo. Quanto à Sinfônica de Chicago, bem, quase mil gravações e mais de 60 prêmios Grammy credenciam-na como adequada para acompanhar a dupla Brendel-Levine.

Alfred Brendel gravou os concertos para piano três vezes. Fez o mesmo com as sonatas. Era um apaixonado por Beethoven, a quem considerava o maior nome da música. E olhe que gravou Schubert, Schumann, Haydn, Mozart e Brahms. Deu colher de chá aos russos Balakirev, Stravinsky e a Mussorgsky — naquele ótimo cedê da One Music. Sinceramente? O que mais se aproxima, em qualidade, dos concertos de Beethoven é a caixa que a Decca lançou, há alguns anos, intitulada Piano Works. Sim, com a obra de Schubert. Claro que considero apenas o que conheço. É opinião para lá de limitada.

Há muito lirismo na interpretação de Alfred Brendel e na condução de James Levine — mas esse lirismo, segundo o próprio pianista, está na concepção de Beethoven. Ao pianista cabe expor as características da obra sem embutir muito sua subjetividade. Há muita seriedade também: alguns concertos trazem a marca grave do grande criador que era o velho Ludwig. Bem, alguém disse que escrever sobre música é como dançar sobre arquitetura. Deixo para um possível leitor ouvir o que o trio Brendel-Beethoven-Levine tem a dizer. E esse leitor pode decidir se concorda ou não com Alfred. Eu, não.

Liszt, Wakeman & meu primo

Liszt, Wakeman & meu primo

Se assim se pode dizer: o húngaro Franz Liszt foi o primeiro astro pop da música, uma espécie de Elvis Presley sem as costeletas e os barbitúricos. As mulheres na plateia não lhe jogavam calcinhas, mas é provável que tivessem vontade. Daí se firmou o termo lisztomania, cunhado pelo poeta romântico Henrich Heine que — dizia-se — cobrava uma boa grana por elogios musicais nos folhetins que escrevia. Liszt não quis pagar e se deu mal: Heine caluniou-o e ainda disse que as fãs do compositor só eram fãs porque recebiam buquês de rosa para gritarem freneticamente em seus concertos. Isso é papo para postagem futura.

Lisztomania (album) - WikipediaPor que falo de Liszt e da lisztoamnia? Porque ganhei, há poucos dias, de um querido primo, o elepê da trilha sonora do filme Lisztomania, de Ken Russel, o diretor norte-americano que trouxe ao mundo pérolas como Gothic e Crimes de Paixão — além, claro, de Tommy. Aliás, Lisztomania e Tommy são do mesmo ano, 1975, e estrelados pelo mesmo ator-roqueiro Roger Daltrey, vocalista da banda The Who. A trilha sonora é assinada pelo ás dos teclados progressivos: Rick Wakeman que, no filme, aparece banhado a ouro, como o deus nórdico Thor. É divertido, quase hilário. Além do áureo Wakeman, Ringo Starr — baterista dos Beatles — faz o papel do papa Gregório XVI, usando uma mitra cravejada de pedras preciosas. Sim, você leu direito. É uma festa.

O disco é ótimo — o filme, nem tanto. Há mais surrealismo do que o necessário, Daltrey não sabe atuar, alguns flash-backs são mal costurados, há muita devoção fálica e maluquice de provocar enxaqueca. Não há, contudo, muito o que reclamar: vale assistir porque é um filme difícil de encontrar. Eu assisti por acaso — numa madrugada insone, num canal Telecine. E o disco? Pois apesar da pressa com que foi feito (Rick Wakeman estava atolado de compromissos), é ótimo. Muita coisa de Liszt, de Richard Wagner e adaptações das obras de ambos, incluindo letras embutidas em temas instrumentais. Da lavra de Wakeman só uma faixa: Hibernation, que ele compôs em uma tarde.

Видео Lisztomania (1975) | OK.RU

Fica em segundo plano a brigaiada entre Rick Wakeman e os chefões da gravadora Universal. Bem, Rick Wakeman briga com todo o mundo, mas parece que na contenda com David Geffen ele tinha razão. Voltemos ao presente: encontrado num sebo de livros, foi arrematado por meu primo que, é bom que se diga, foi quem me apresentou o disco, no final dos anos 1970. Esse exemplar, agora, encontra-se em local seguro, junto a outros elepês. Ouço-o neste momento, com uma satisfação ainda maior do que ouvi pela primeira vez. Até onde me lembro, evidentemente.

Antes do sétimo dia, Macalé!

Antes do sétimo dia, Macalé!

Não se pode cobrar de um artista, em qualquer área de atuação, que ele se comprometa com alguma causa política. Quando ele o faz, entretanto, os efeitos colaterais são previsíveis — tanto positiva quanto negativamente. Há quem diga que a arte deve privilegiar a estética, e seu envolvimento com questões sociais e ideológicas não só a prejudica como a torna ineficaz. Isso é um erro. A arte pode — e talvez até deva — espelhar o que é o homem, e dissociar esse mesmo homem de seu ambiente sociopolítico é, para dizer o mínimo, mutilá-lo em seu propósito: viver. Claro que isso é apenas uma opinião, sujeita a pedradas e a afagos.

Por quer digo isso? Porque faz 5 dias que o genial compositor Jards Macalé nos deixou. Durante mais de 60 anos, ele fez o brasileiro saborear a mistura de música de qualidade + bom humor + ironia + humanidade. Ao lado de outros gênios da MPB, foi além do que era esperado: brindou fãs e detratores com o que havia de melhor na arte musical. Eis a questão: por que abordei, no primeiro parágrafo, o envolvimento social de um artista? Porque em 1973, nos estertores do governo Médici, Macalé fez o que era necessário: juntou um grupo de músicos e, em comemoração aos 25 anos da Declaração Universal dos direitos Humanos, trouxe ao mundo este disco, ao vivo:

O BANQUETE DOS MENDIGOS

Há quem diga que tudo não passou de uma piada, e que Macalé só queria faturar, já que estava quebrado, sem grana sequer para uma cervejinha, segundo as próprias palavras. Importa tanto isso? Um show em benefício próprio? Esta postagem vai por outro caminho, e mostra que, mesmo brotando do anedotário, vale a pena levar em conta o aspecto humanista do evento. Em 1974, quando lançado, o disco foi censurado e apreendido. Previsível: a truculência, levada ao extremo pelos militares, ainda estava na ordem do dia. Cinco anos depois, veio ao mundo, álbum duplo, gravado clandestinamente pelo baixista Bruce Henry do grupo de rock Soma, que participou do show. Quem foi a ponta-de-lança do evento? Jards Macalé, que convidou a rapaziada da capa do disco para um banquete, e o que se serviu foi uma reunião de cantores e compositores somente comparada, em termos de qualidade artística, ao evento Phono 73, sobre o qual escrevi há alguns anos. Leia AQUI, caso queira.

Os 50 anos do 'Banquete dos Mendigos', ato contra ditadura - 09/12/2023 - Ilustrada - Folha

Eu conhecia o disco desde o início dos anos 1980, já tinha ouvido mais de uma vez — na casa de um meu compadre que, muito tempo depois, presenteou-me. É disco raro, necessário, que expressa o questionamento do início do texto: qual o papel — também — do artista: comprometer-se com as demandas de seu tempo e lugar, posicionar-se politicamente, abster-se da individualidade, associar-se ao que considera legítimo e humanista. Jards Macalé foi um artista dessa espécie. Somos obrigados a viver com a sua ausência — mas temos a  sua memória e o que ele eternizou. Valeu, Macalé!

Gil, o Tempo, o show & amigos

Gil, o Tempo, o show & amigos

Tempo Rei é o título da última turnê de Gilberto Gil. Assisti ao show, no último sábado, no RJ, em companhia de amigos queridos — tão fãs de Gil quanto eu. Como sou o decano do grupo, posso dizer que sou fã há mais tempo, a considerar que Gil chegou a meus ouvidos em 1977, quando nenhum desses meus amigos era sequer nascido. Sim, sou velho. Eis aí a questão, que me consola: Gil mostra, durante todo o espetáculo, que o tempo existe para nosso aprendizado. Ele está certo: eu, por exemplo, muito aprendi com ele, com suas canções, em suas entrevistas, com a sua forma muito peculiar de encarar o mundo. Ele me levou à literatura e, claro, à MPB.

Emocionei-me durante o show: chorei mesmo, enquanto a maioria do público comemorava a comunhão com um dos mais importantes artistas da história da música brasileira. Chorei porque o tempo assim exigiu: voltei à minha adolescência, à minha querida amiga baiana Izinha, née Josemília, que me apresentou Refazenda, disco que veio ao mundo em 1975. Retornando aos 15 anos — minha idade em 1977 —, o tempo faz sua parte, e as lembranças sobrevieram, a emoção foi inevitável. Gilberto Gil foi-me um professor afetuoso, daqueles cujo trabalho se torna emblema que fica e se desenvolve.

Gil revisitou-se: foi do início da carreira — Domingo no Parque, Procissão, Eu só quero um xodó — passando por canções de pegada roqueira (Punk da Periferia, Expresso 2222, Banda Um e Realce, por exemplo), por temática familiar: Esotérico, Drão, Vamos Fugir, e clássicos como Se eu quiser falar com Deus, Refazenda, Refavela, Cálice e muito mais canções absolutamente inesquecíveis. Essa revisita é uma forma de respeitar o tempo, que passa e deixa seu rastro, sua marca indelével. E mais: a banda que o acompanha, formada por alguns familiares, é de primeiríssima linha, e família é um indício de que o tempo passa. Um naipe de metais competentíssimo aliado a um quarteto de cordas pra lá de eficiente. Chamou-me a atenção o acordeonista Mestrinho e o guitarrista João Gil, seu neto. 

Só para constar: Nara Gil, a primogênita, é cantora; o filho Bem Gil é baixista e guitarrista; José Gil, outro filho, é ótimo baterista; o citado guitarrista João — filho de Nara — e, de quebra, a backing vocal Mariá Pinkusfeld, a bela nora casada com José. Afeto transbordando no palco. E por falar em afeto, repito-me: emocionei-me e sei que essa emoção se manterá por muito tempo. Gilberto Gil foi e continua sendo um dos meus compositores essenciais. Tenho certeza de que sem ele, sem sua música e seus ensinamentos, este texto que você lê não existiria. Já que o tema deste post refere-se ao tempo, aproveito e afirmo que serei grato a Gil para sempre. Sim, para sempre.

Gilberto Gil em turnê 'Tempo Rei' — Foto: Pridia

Muhammad, Bruce e Caetano Veloso

Sou fã de boxe. Sempre que possível, assistia aos combates de Eder Jofre pela tevê, quando a nobre arte ainda não era demonizada (com certa razão) pela medicina e pelos puritanos. Claro: também era fã de George Foreman e de Joe Frazier, mas o grande astro desse esporte era Cassius Marcellus Clay. Ou, como exigiu ser chamado após converter-se ao Islã, Muhammad Ali. Li O Rei do Mundo logo que veio a público, traduzido. É ótimo — até porque não se concentra no boxe per si, mas no seu engajamento político e religioso. Tudo o que envolveu o astro do boxe em sua jornada espiritual, e de como os wasps viram seu herói virar-lhe as costas. É um ótimo registro, se você aprecia o assunto.

Também sou fã de artes marciais — em especial o judô, o qual pratiquei quando adolescente, tendo como sensei o lendário José de Barros. Eram os anos 1970 e o judô, claro, levou-me à coreografada porradaria dos filmes de Bruce Lee e, mais tarde, ao blaxpoitation de Jim Kelly. Nunca li uma biografia de Bruce Lee, mas lerei, porque fã merece que a vida do ídolo seja exposta, principalmente quando sua morte é motivo de teorias da conspiração e conjeturas tão divertidas quanto essenciais ao mito. Os filmes que estrelou tinham enredos sofríveis e a carga dramática que Lee embutia em seus personagens era risível. Quem se importa, todavia? O que valia era a ação! Bruce é, junto a Fred Astaire e Gene Kelly, o maior bailarino do cinema.

Bruce Lee em 'O Voo do Dragão'

Lembro-me da série Kung Fu, cujos episódios — estrelados por David Carradine — iam ao ar no horário pós-telenovela da Globo, às 21h. Colecionei os números da revista Kung Fu, que vieram ao mundo pela Ebal, a partir de 1973. Assisti ao filme Operação Dragão um pouco mais tarde, e, vingado por conta da classificação indicativa (da época), fui ao cinema incontáveis vezes, para ver Bruce Lee, John Saxon, Jim Kelly e Bolo Yeung. Eram bons aqueles tempos, em que os filmes da artes marciais pareciam mais críveis, embora tão heroicos quanto os de Van Damme e Steven Seagal.

Eis a questão: o que Caetano Veloso, presente no título desta postagem, está fazendo aqui? Eu explico. Em 1977, quando eu ainda não me ligava à MPB, minha querida amiga Izinha — née Josemília — apresentou-me a canção Um Índio, contida no elepê Bicho. Não conhece? AQUI você ouve a versão original. Foi uma revelação, uma epifania. Na canção, Muhammad Ali e Bruce Lee, rimados com o romântico Peri e os Filhos de Gandhi, constam dos estribilho. É obra-prima. Anos mais tarde, já fã de Caetano e já professor de literatura brasileira, fiz um paralelo entre o compositor baiano e o poeta maranhense Gonçalves Dias. Isso, entretanto, é papo para outro dia.

Seinfeld: 3 livros

Jerry Seinfeld e Larry David, criadores da sitcom Seinfeld, não faziam ideia do sucesso que fariam ao escrever sobre o quotidiano de um comediante de stand-up comedy. Não imaginavam que o programa se tornaria um ícone pop nem que ficariam milionários com o resultado de uma ideia. Aliás, todos os cinco diretamente envolvidos — Jason Alexander, Julia Louis-Dreyfus e Michael Richards, inclusos — passaram a nadar em dólares, gozando de um prestígio que nenhum outro comediante, nos anos 1990, gozou. Bem, Julia já era bilionária — ou seria, quando o pai, o francês Gérard Louis-Dreyfus morresse. E morreu, em 2016.

Na esteira da sitcom, Jerry Seinfeld — que escrevia os diálogos com Larry David — resolveu reunir muitos dos textos que foram ao ar e publicou O Livro sobre Nada. É a premissa resumida e enganosa do programa: falar sobre o nada. Enganosa porque, de fato, fala-se do cotidiano do próprio Jerry e de seus amigos, um bando de egoístas cujo desprezo pela humanidade se esparramava por 25 minutos semanais. Ninguém prestava ali — e é aí que estava o charme da sitcom. Há passagens engraçadas no livro: quase todas elas já consumidas por quem é fã daquela turma. Eu, por exemplo.

Houve quem levou a sério a série sobre o nada. Houve quem resolveu, por molecagem ou não, olhar para a sitcom e conectá-la a Sócrates, Kierkegaard, Sartre, Platão, Wittgenstein, Aristóteles e Nietzsche. Sim, a fina-flor da filosofia ocidental. E mais: ética, moral, paradoxos, sofisma e virtude são explorados em 14 textos divertidíssimos, mas todos eles levados a sério. E mais: o livro é dedicado a Bob Sacamano. Quem curte a sitcom sabe quem é. Organizado por William Irwin, professor de Filosofia da King’s College, na Pensilvânia, o livro é um achado. É para ser lido devagar, porque faz o leitor lembrar-se de cada situação mencionada. Quem curte ver a filosofia falar sobre o nada vai apreciar. Eu, por exemplo.

Após o voluntário fechamento das portas, Jerry Seinfeld envolveu-se em outros projetos — a animação Bee Movie e o ótimo Comedians in Cars Getting Coffee, sobre o qual já escrevi. AQUI, caso haja interesse. Resolveu também biografar-se em Será que isso presta?: à sua maneira, por meio dos textos para stand-up comedy, de 1975 até meados da segunda década do século XXI. Percebe-se, na leitura, a evolução do comediante, seja em textos curtos ou naqueles que, no máximos, gastam duas páginas. A ideia continua a mesma: o nada, o cotidiano, os costumes. E, claro, o humor. Vai gargalhar? Não creio, mas o livro vai divertir e provocar uma certa nostalgia nos órfãos de Seinfeld. Eu, por exemplo. 

p.s. Escrevi sobre Larry David e a maldição de Seinfeld. AQUI, caso se interesse.

Pantoja, Stern: o melhor do Santa Jazz

Não sei se você — que agora lê — foi ao Santa Jazz, o festival de jazz de Santa Teresa, cidade da região serrana  do ES. Se foi, presenciou apresentações de excelência, música de altíssimo calibre, som de primeira. Se não foi, perdeu a oportunidade de assistir a shows inesquecíveis. Veja só: eu não fui, porque estava dentro de um estúdio comentando os shows, como se isso fosse privilégio absoluto. Não é. Privilégio absoluto é ver e ouvir ao vivo, e não numa moldura de plasma com definição de primeiro mundo. Enfim, mesmo assim, pude ouvir e ver o que o festival proporcionava de melhor.

E o que houve de melhor? Tendo em vista que o termo melhor é superlativo de bom, afirmo que todos os shows tiveram qualidade inequívoca — dois, contudo, foram melhores. Os dois foram apresentados ao público em noites distintas: Rique Pantoja e seu quarteto, e Mike Stern, o guitarrista a quem Miles Davis chamada de gênio. E devia ter razão. Vi Pantoja pela prima vez em 1985, no Free Jazz, homenageando, em companhia de  o enormíssimo maestro Moacir Santos. Stern eu ouvi quando comprei, em meados dos anos 1980, o disco duplo We Want Miles. Dois momentos em que o jazz entrou em minha vida e de lá não sai nem que me façam beber ácido.

Rique Pantoja é sensacional: pianista de primeira linha, fez-se acompanhar de um escrete: Danilo Sinna, no saxofone (alto e soprano); Felipe Alves, na bateria, e Rubem Farias, no contrabaixo. Um show cheio de pontos altíssimos em que o jazz e a bossa se fundiram, criando uma atmosfera rítmica e harmônica de causar inveja a qualquer jazzista tarimbado. Pantoja já era craque quando, em companhia do grande baterista Paschoal Meireles, do saxofonista Mauro Senise e do baixista Artur Maia, deram vida a uma das formações do Cama de Gato, um grupo de música instrumental que, nos anos 1980 e 1990, encheu muitos corações de alegria. Pantoja, a meu ver, era o pulmão do quarteto. Bem, muita gente diz que essa a função de um pianista. AQUI você assiste ao show dele no Santa Jazz.

Mike Stern é uma figura. Divertido, simpático, fã de música brasileira, genial nas cordas da guitarra. Miles Davis tinha razão — embora eu não tenha a dimensão do gênio. Nem na minha área sei o que vem a ser isso, mas desconfio de que ele e Rique Pantoja estejam nessa categoria. Acompanhado dos músicos Bob Franceschini, no sax; Rubem Farias, no contrabaixo, e do extraordinário baterista Dennis Chambers, Mike Stern fez um show inesquecível, vigoroso sem ser enfadonho; preciso sem ser burocrático. E ainda se faz acompanhar da esposa alemã, Leni Stern. Uma beleza, que você pode ouvir AQUI, (de 3:15:48 a 4:16:11). Sinceramente? Se eu fosse você, ouvia tudo.

Pois é: alguém disse que escrever sobre música é como dançar sobre arquitetura — mas está valendo. A propósito: eu apareço fazendo comentários sobre as performances. Você pode pular, se quiser.

Vida Boêmia: Lush Life, o filme

Filmes sobre jazz geralmente satisfazem tanto o espectador comum quanto o aficcionado por música — mais ainda, claro, aquele que considera o jazz um ritmo essencial, o que é meu caso. Bird, de Clint Eastwood, e ‘Round Midnight, de Bertrand Tavernier, são filmes que versam sobre artistas autodestrutivos que, sem a música, teriam pulado da ponte mais cedo, sem que o mundo tomasse deles pleno conhecimento. As vidas conturbadas de Charlie Parker e Bud Powell, respectivamente reproduzidas nos filmes citados, oscilaram entre a genialidade absoluta e o desespero existencial, o que sobrecarregou as películas de uma dramaticidade angustiante.

Não é o caso de Vida Boêmia, de Michael Elias, um diretor tão apaixonado por jazz quanto Eastwood. Seu filme (originalmente feito para a tevê) também não é impactante do ponto de vista estrutural, mas a história não desagrada ao espectador mais exigente, que se vê diante de uma dupla de músicos — um saxofonista e um trompetista — que têm amor ao jazz na mesma proporção que amam viver. Ironicamente, um deles está condenado à morte por conta de um tumor cerebral. O outro, para celebrar-lhe a vida que resta, resolve fazer uma grande festa em que todos os músicos de jazz de NY comparecem — todos, sem exceção, o que causa um enorme problema para os night clubs da cidade.

Forrest Withaker — que já havia encarnado Parker no filme Bird cinco anos antes — interpreta o trompetista por cuja porta a morte quer entrar, mas ele se recusa a atender, de imediato. Antes, quer o jazz, e quer executá-lo tendo em mãos um trompete que pertencera a Clifford Brown, comprado numa loja de penhores por 2.500 dólares por um talentoso garoto aspirante a músico. Assim é o jazz: quem faz leva-o a consequências últimas. E por falar em amor a ele, uma outra história — periférica — é retratada na película: a dificuldade de se relacionar com um artista. A mulher do canastra Jeff Goldblum (o saxofonista garanhão) é uma professora que quer ter uma vida normal ao lado do marido, quer desvencilhar-se da lush life que o companheiro leva. Não é possível. Assim é o jazz.

A propósito: revi esse filme anteontem, na tevê. Busquei na internet o devedê ou o blu-ray que, acredito, não foram lançado por aqui, mas aí vai, ao lado, seu rosto. E o link, no Youtube, com legendas en español. A propósito 2: John Coltrane lançou, em 1957 — dez anos antes de morrer —, o álbum Lush Life, hard bop da melhor qualidade com um time grandioso de músicos: Don Byrd (trompete), Red Garland (piano), Earl May (baixo), Paul Chambers (baixo), Albert Heath (bateria), Art Taylor (bateria) e Louis Hayes (bateria). Não, não estão tocando todos juntos, como na tal festa do filme. O tema Lush Life foi composto por Billy Strayhorn e já foi interpretado por uma multidão de músicos. Clique AQUI para ouvi-la pelos dedos do extraordinário pianista Phineas Newborn.