A verdadeira musa

A verdadeira musa

Reinaldo Santos Neves observa-nos do píncaro. Estacionado, movimenta sua literatura de forma diversificada, absoluta, como se somente ele tivesse permissão para criar textos tão distintos. Para quem sabe do que falo, aí vai: o que Kitty, Jose e Sueli têm em comum a não ser o fato de terem brotado da fértil criação do criador? Quem são elas? Se você não sabe, procure: é um conselho dos bons. Não vai se arrepender. Uma dessas citadas senhoras Jose é a musa de Muito Soneto por Nada: cinquenta poemas que, segundo seu próprio autor, foram escritos entre 1988 e 1991, mas publicados em 1998.

São sonetos sem divisão estrófica e possuem um tema fundamental: a forma como o texto literário se constrói a partir da ideia fixa entre criador e criatura. Fazendo uso de uma linguagem ora mais acadêmica, ora coloquial, passando pela intertextualidade e pela ironia, Santos Neves cria mais que sonetos — cria um romance que, se não narrado de forma convencional, dá-nos uma visão de início, meio e fim de uma história de amor na qual somente um ama. Eis o óbvio destino daquele que cria. É lícito afirmar que a Pós-Modernidade se nutre de elementos intraculturais como cinema, publicidade, quadrinhos etc.

Reinaldo Santos Neves se utiliza desses elementos para compor não somente sua musa-personagem Jose, mas também servem de apoio para a criação de todo um ambiente em torno da situação amorosa. Referências como o documentário Koyaanisqatsi, de Godfrey Reggio, ou o filme Hannah e Suas Irmãs, de Woody Allen, constituem esse universo pós-moderno de que faz uso o autor. Franz Kafka,  Hieronimus Bosch, o poeta norte-americano e. e. cummings, Federico Fellini, o escritor capixaba Renato Pacheco (na pele de seu personagem Fernão Ferreiro), os músicos de jazz Charles Mingus e Joe Pass, o lendário herói suíço Guilherme Tell são presenças que servem para criar a atmosfera pós-moderna dos poemas. O jazz, a Coca-cola (apresentada com maiúscula como ênfase ao símbolo consumista), o IRA, a pizza, Tântalo, o Santo Graal — todos elementos que perpassam o texto como adereços que compõem a poesia.

Reinaldo é um craque. Até para, ironicamente, ludibriar o leitor. Sua verdadeira musa não é Jose — e sim a própria literatura. Essa, sim, é esticada, comprimida, posta ao avesso e em pedaços, para depois refazê-la e, mais uma vez, ciclicamente, recomeçá-la. Jose, inatingível, apenas observa o que faz o criador. Se você não conhece Muito Soneto por Nada, corra atrás. Ainda há tempo.  

Feliz Ano Novo, Zé Rubem!

Feliz Ano Novo, Zé Rubem!

José Rubem Fonseca foi o camisa 10 durante os anos 1970. Manteve-se em campo até meados da década seguinte, quando se cansou. Não precisava provar mais nada: nem que sabia manejar as palavras, nem que sabia construir personagens ou boas tramas. Podia ter-se aposentado, mas continuou a insistir em criar e criou. O talento continuava, mas o fôlego foi, aos poucos, perdendo força, mesmo sendo capaz de, em 2003, escrever o ótimo Diário de um Fescenino. É seu último grande voo, seu derradeiro salto para a eternidade. Seus grandes livros? O Caso Morel, A Coleira do cão, O Cobrador, Feliz Ano Novo, Bufo & Spalanzani e sua obra-prima, A Grande Arte. Todos, coincidentemente, entre 1965 e 1985.

Ok, ok. Uma exceção, talvez, para Agosto mas eu disse talvez. Preciso pensar melhor sobre isso. O que quero dizer, com esse preâmbulo? Que não há livro melhor sobre o qual falar, nesta época do ano, do que Feliz Ano Novo um clássico das histórias curtas na literatura brasileira. Em 1975, durante o governo Geisel, Fonseca expõe, com crueza e vigor estético, a oposição entre classes sociais. O livro não se resume a isso, mas o conto-título é o escancaramento da diferença entre os que dão as cartas e os descartados sociais. Há contos antológicos, como Nau Catrineta — sobre canibalismo —, o metalinguístico Intestino Grosso e o divertido e futurista O Campeonato, sobre potência sexual. 

A linguagem (o que define a literatura) é marcada pela oralidade, e em algumas histórias o vocabulário — por muitos considerado chulo, pornográfico — é expresso de forma rude, desleixada, bem a gosto da realidade periférica que, em muitos casos, é retratada. Há outras histórias em que a linguagem é mais bem elaborada, mais acadêmica, como o diálogo entre o entrevistador e o Autor, no citado Intestino Grosso. Rubem Fonseca é craque nisto: representar linguisticamente cada camada social presente no enredo. Ninguém conseguiu isso — ao menos não com tanta precisão — na literatura contemporânea. 

Mandrake The Magician - Magic - T-Shirt | TeePublic

Uma curiosidade: no conto Dia dos Namorados, a personagem central é um advogado de apelido Mandrake. Sim, tornou-se famoso: estrelou A Grande Arte, vários contos e uma pequena novela, intitulada Mandrake, a Bíblia e a Bengala, de 2005. No citado conto, ele mesmo narrador, diz quando nasci me chamaram de Paulo, que é nome de papa, mas virei Mandrake, uma pessoa que não reza, e fala pouco, mas faz os gestos necessários.” Alguém ainda se lembra de Mandrake the Magician? Aquele que, nos gibis que estrelava, hipnotizava instantaneamente seus oponentes fazendo gestos? Às novas gerações: ao lado, na imagem. Pois é. Rubem Fonseca foi mágico por 20 anos. E para muitos ainda é.

Cacaso & meu xará: a poesia essencial

Cacaso & meu xará: a poesia essencial

Book coverNo início da década de 80, século passado, a Abril Cultural lançou uma coleção intitulada Literatura Comentada, que se propunha reunir os grandes nomes da produção literária brasileira contemporâneos ou não em edições cujos autores eram, também, pessoas ligadas às letras: professores e estudiosos, na maioria. Foi por meio dessas publicações que conheci, metonimicamente falando, os poetas Francisco Alvim e Cacaso, criadores de estilos distintos pertencentes a uma geração de jovens poetas que se tornaram referência da poesia jovem dos anos 1970. Aliás, esse era o título do volume de Literatura Comentada, que trazia também figuras como Ana Cristina César, Paulo Leminski, Chacal, Alice Ruiz e mais um bocado de poetas — além dos dois citados. A organização do volume ficou por conta de alguém tarimbadíssima na área: Heloísa Buarque de Holanda.

Elefante, volume de pouco mais de 140 páginas, foi publicado há 25 anos. Afeito aos minimalismos da palavras, Francisco Alvim é um herdeiro do epigrama (por aqui chamado poema-minuto, tão caro a Oswald no início do Modernismo). Há de tudo, ao menos um pouco: quotidiano, sensualidade, política, medo, esperanças perdidas e reencontradas, amor — e por aí vai. A linguagem? Da secura ao lirismo fingido, usando as palavras economicamente. Alguns poemas têm apenas um verso. Outros, apenas uma palavra.

Há algo de Dalton Trevisan, em Tetéia: “Quem te deu esse brinquinho?/Comprei lá na feira do Gaminha.” Embora não seja leitura fácil, assimilada de imediato, vale conhecer o universo do meu xará. E Cacaso? É outro caso à parte nessa nova poesia de 50 anos. Suas œuvres complètes são absolutamente essenciais a quem gosta de poesia. Cacaso é o Baudelaire brasileiro pós-moderno, é um mestre da ironia, ingrediente fundamental de um texto sem propósito definido. Aliás, para que definir?

Aí vai Salário Máximo: “De noite sou amante da empregada/De dia sou patrão da amante”. Poemas curtos, poemas longos, poemas sem tamanho: letras de canções, homenagens, ritual cotidiano, iconoclastia, homenagens, metalinguagem, e muito mais. Ou seja: se não tudo, quase. E ainda a fortuna crítica, com as vozes de Roberto Schwarz, a citada Heloísa Buarque de Holanda e o aqui mencionado Francisco Alvim. O poema-minuto, instaurado naquela geração que precisava da velocidade da mensagem, está presente. Cacaso foi um herói literário de seu tempo, e que nos deixou esta pérola, tão atual, no poema intitulado Palavra do $enhor: “No princípio era a Verba.”

Valeu, Cacaso! Valeu, Xará!

 

 

 

Brendel e Levine concertando Ludwig

Brendel e Levine concertando Ludwig

O notável pianista Alfred Brendel deixou-nos há alguns meses. Foi, para muita gente, o maior intérprete das obras para piano de 3 grandes: Beethoven, Liszt e Schubert. Eu não sei dizer se é o maior — mas está entre os melhores que ouvi. James Levine é um californiano que mandou e desmandou em duas grandes companhias musicais: a Met Opera e a Sinfônica de Boston. São dois craques que, inseridos (cada um a seu modo, mas como convidados) na centenária Sinfônica de Chicago, fizeram história. Um dos resultados dessa história é um disco triplo da Philips, ilustrado ao lado.

Que fique claro: sobre o casamento Brendel-Beethoven, ao menos um fruto é fundamental: foi o pioneiro na gravação de todos os concertos do alemão para piano. Ninguém se aventurava, já que era empreitada que previa desgaste, muito trabalho e o tempo parecia andar lentamente. Sem contar que era necessária a presença de um maestro tão linha-dura quanto maleável, a depender da situação. James Levine era o cara certo. Quanto à Sinfônica de Chicago, bem, quase mil gravações e mais de 60 prêmios Grammy credenciam-na como adequada para acompanhar a dupla Brendel-Levine.

Alfred Brendel gravou os concertos para piano três vezes. Fez o mesmo com as sonatas. Era um apaixonado por Beethoven, a quem considerava o maior nome da música. E olhe que gravou Schubert, Schumann, Haydn, Mozart e Brahms. Deu colher de chá aos russos Balakirev, Stravinsky e a Mussorgsky — naquele ótimo cedê da One Music. Sinceramente? O que mais se aproxima, em qualidade, dos concertos de Beethoven é a caixa que a Decca lançou, há alguns anos, intitulada Piano Works. Sim, com a obra de Schubert. Claro que considero apenas o que conheço. É opinião para lá de limitada.

Há muito lirismo na interpretação de Alfred Brendel e na condução de James Levine — mas esse lirismo, segundo o próprio pianista, está na concepção de Beethoven. Ao pianista cabe expor as características da obra sem embutir muito sua subjetividade. Há muita seriedade também: alguns concertos trazem a marca grave do grande criador que era o velho Ludwig. Bem, alguém disse que escrever sobre música é como dançar sobre arquitetura. Deixo para um possível leitor ouvir o que o trio Brendel-Beethoven-Levine tem a dizer. E esse leitor pode decidir se concorda ou não com Alfred. Eu, não.

Liszt, Wakeman & meu primo

Liszt, Wakeman & meu primo

Se assim se pode dizer: o húngaro Franz Liszt foi o primeiro astro pop da música, uma espécie de Elvis Presley sem as costeletas e os barbitúricos. As mulheres na plateia não lhe jogavam calcinhas, mas é provável que tivessem vontade. Daí se firmou o termo lisztomania, cunhado pelo poeta romântico Henrich Heine que dizia-se cobrava uma boa grana por elogios musicais nos folhetins que escrevia. Liszt não quis pagar e se deu mal: Heine caluniou-o e ainda disse que as fãs do compositor só eram fãs porque recebiam buquês de rosa para gritarem freneticamente em seus concertos. Isso é papo para postagem futura.

Lisztomania (album) - WikipediaPor que falo de Liszt e da lisztoamnia? Porque ganhei, há poucos dias, de um querido primo, o elepê da trilha sonora do filme Lisztomania, de Ken Russel, o diretor norte-americano que trouxe ao mundo pérolas como Gothic e Crimes de Paixão além, claro, de Tommy. Aliás, Lisztomania e Tommy são do mesmo ano, 1975, e estrelados pelo mesmo ator-roqueiro Roger Daltrey, vocalista da banda The Who. A trilha sonora é assinada pelo ás dos teclados progressivos: Rick Wakeman que, no filme, aparece banhado a ouro, como o deus nórdico Thor. É divertido, quase hilário. Além do áureo Wakeman, Ringo Starr baterista dos Beatles faz o papel do papa Gregório XVI, usando uma mitra cravejada de pedras preciosas. Sim, você leu direito. É uma festa.

O disco é ótimo — o filme, nem tanto. Há mais surrealismo do que o necessário, Daltrey não sabe atuar, alguns flash-backs são mal costurados, há muita devoção fálica e maluquice de provocar enxaqueca. Não há, contudo, muito o que reclamar: vale assistir porque é um filme difícil de encontrar. Eu assisti por acaso — numa madrugada insone, num canal Telecine. E o disco? Pois apesar da pressa com que foi feito (Rick Wakeman estava atolado de compromissos), é ótimo. Muita coisa de Liszt, de Richard Wagner e adaptações das obras de ambos, incluindo letras embutidas em temas instrumentais. Da lavra de Wakeman só uma faixa: Hibernation, que ele compôs em uma tarde.

Видео Lisztomania (1975) | OK.RU

Fica em segundo plano a brigaiada entre Rick Wakeman e os chefões da gravadora Universal. Bem, Rick Wakeman briga com todo o mundo, mas parece que na contenda com David Geffen ele tinha razão. Voltemos ao presente: encontrado num sebo de livros, foi arrematado por meu primo que, é bom que se diga, foi quem me apresentou o disco, no final dos anos 1970. Esse exemplar, agora, encontra-se em local seguro, junto a outros elepês. Ouço-o neste momento, com uma satisfação ainda maior do que ouvi pela primeira vez. Até onde me lembro, evidentemente.

Antes do sétimo dia, Macalé!

Antes do sétimo dia, Macalé!

Não se pode cobrar de um artista, em qualquer área de atuação, que ele se comprometa com alguma causa política. Quando ele o faz, entretanto, os efeitos colaterais são previsíveis tanto positiva quanto negativamente. Há quem diga que a arte deve privilegiar a estética, e seu envolvimento com questões sociais e ideológicas não só a prejudica como a torna ineficaz. Isso é um erro. A arte pode e talvez até deva espelhar o que é o homem, e dissociar esse mesmo homem de seu ambiente sociopolítico é, para dizer o mínimo, mutilá-lo em seu propósito: viver. Claro que isso é apenas uma opinião, sujeita a pedradas e a afagos.

Por quer digo isso? Porque faz 5 dias que o genial compositor Jards Macalé nos deixou. Durante mais de 60 anos, ele fez o brasileiro saborear a mistura de música de qualidade + bom humor + ironia + humanidade. Ao lado de outros gênios da MPB, foi além do que era esperado: brindou fãs e detratores com o que havia de melhor na arte musical. Eis a questão: por que abordei, no primeiro parágrafo, o envolvimento social de um artista? Porque em 1973, nos estertores do governo Médici, Macalé fez o que era necessário: juntou um grupo de músicos e, em comemoração aos 25 anos da Declaração Universal dos direitos Humanos, trouxe ao mundo este disco, ao vivo:

O BANQUETE DOS MENDIGOS

Há quem diga que tudo não passou de uma piada, e que Macalé só queria faturar, já que estava quebrado, sem grana sequer para uma cervejinha, segundo as próprias palavras. Importa tanto isso? Um show em benefício próprio? Esta postagem vai por outro caminho, e mostra que, mesmo brotando do anedotário, vale a pena levar em conta o aspecto humanista do evento. Em 1974, quando lançado, o disco foi censurado e apreendido. Previsível: a truculência, levada ao extremo pelos militares, ainda estava na ordem do dia. Cinco anos depois, veio ao mundo, álbum duplo, gravado clandestinamente pelo baixista Bruce Henry do grupo de rock Soma, que participou do show. Quem foi a ponta-de-lança do evento? Jards Macalé, que convidou a rapaziada da capa do disco para um banquete, e o que se serviu foi uma reunião de cantores e compositores somente comparada, em termos de qualidade artística, ao evento Phono 73, sobre o qual escrevi há alguns anos. Leia AQUI, caso queira.

Os 50 anos do 'Banquete dos Mendigos', ato contra ditadura - 09/12/2023 - Ilustrada - Folha

Eu conhecia o disco desde o início dos anos 1980, já tinha ouvido mais de uma vez — na casa de um meu compadre que, muito tempo depois, presenteou-me. É disco raro, necessário, que expressa o questionamento do início do texto: qual o papel — também — do artista: comprometer-se com as demandas de seu tempo e lugar, posicionar-se politicamente, abster-se da individualidade, associar-se ao que considera legítimo e humanista. Jards Macalé foi um artista dessa espécie. Somos obrigados a viver com a sua ausência — mas temos a  sua memória e o que ele eternizou. Valeu, Macalé!

Gil, o Tempo, o show & amigos

Gil, o Tempo, o show & amigos

Tempo Rei é o título da última turnê de Gilberto Gil. Assisti ao show, no último sábado, no RJ, em companhia de amigos queridos — tão fãs de Gil quanto eu. Como sou o decano do grupo, posso dizer que sou fã há mais tempo, a considerar que Gil chegou a meus ouvidos em 1977, quando nenhum desses meus amigos era sequer nascido. Sim, sou velho. Eis aí a questão, que me consola: Gil mostra, durante todo o espetáculo, que o tempo existe para nosso aprendizado. Ele está certo: eu, por exemplo, muito aprendi com ele, com suas canções, em suas entrevistas, com a sua forma muito peculiar de encarar o mundo. Ele me levou à literatura e, claro, à MPB.

Emocionei-me durante o show: chorei mesmo, enquanto a maioria do público comemorava a comunhão com um dos mais importantes artistas da história da música brasileira. Chorei porque o tempo assim exigiu: voltei à minha adolescência, à minha querida amiga baiana Izinha, née Josemília, que me apresentou Refazenda, disco que veio ao mundo em 1975. Retornando aos 15 anos — minha idade em 1977 —, o tempo faz sua parte, e as lembranças sobrevieram, a emoção foi inevitável. Gilberto Gil foi-me um professor afetuoso, daqueles cujo trabalho se torna emblema que fica e se desenvolve.

Gil revisitou-se: foi do início da carreira Domingo no Parque, Procissão, Eu só quero um xodó — passando por canções de pegada roqueira (Punk da Periferia, Expresso 2222, Banda Um e Realce, por exemplo), por temática familiar: Esotérico, Drão, Vamos Fugir, e clássicos como Se eu quiser falar com Deus, Refazenda, Refavela, Cálice e muito mais canções absolutamente inesquecíveis. Essa revisita é uma forma de respeitar o tempo, que passa e deixa seu rastro, sua marca indelével. E mais: a banda que o acompanha, formada por alguns familiares, é de primeiríssima linha, e família é um indício de que o tempo passa. Um naipe de metais competentíssimo aliado a um quarteto de cordas pra lá de eficiente. Chamou-me a atenção o acordeonista Mestrinho e o guitarrista João Gil, seu neto. 

Só para constar: Nara Gil, a primogênita, é cantora; o filho Bem Gil é baixista e guitarrista; José Gil, outro filho, é ótimo baterista; o citado guitarrista João — filho de Nara — e, de quebra, a backing vocal Mariá Pinkusfeld, a bela nora casada com José. Afeto transbordando no palco. E por falar em afeto, repito-me: emocionei-me e sei que essa emoção se manterá por muito tempo. Gilberto Gil foi e continua sendo um dos meus compositores essenciais. Tenho certeza de que sem ele, sem sua música e seus ensinamentos, este texto que você lê não existiria. Já que o tema deste post refere-se ao tempo, aproveito e afirmo que serei grato a Gil para sempre. Sim, para sempre.

Gilberto Gil em turnê 'Tempo Rei' — Foto: Pridia

Músicos pintores #5: David Bowie

David Bowie era uma estrela dos palcos, do rock, da música. Inovador inveterado, mudava de pele surpreendendo a todos até isso se tornar previsível, e ele, mais uma vez, surpreender a todos, modificando-se quando ninguém mais esperava. Um ciclo. Os amigos diziam que nos anos 1990, Bowie estava cansado de shows e gravações, da rotina de composição e de lidar com músicos, regentes, produtores etc. Abandonou temporariamente as atividades musicais para se dedicar à pintura. Alguns resultados se mostram nesta postagem.

25 Paintings by David Bowie - Art-Sheep

David Bowie paintings - The rape of Bigarschol - 1996

Claro que prefiro o David Bowie roqueiro, cantor, dançarino, vozeirão bluseiro. Como não admirar, entretanto, a tela acima, Portrait of JO, uma homenagem ao também roqueiro Iggy Pop, cujo nome de batismo é James Osterberg? Até onde consigo perceber, o artista conseguiu capturar não a essência do Padrinho do Punk, mas o olhar desafiador e desconfiado de quem olha o mundo com certo desdém. Bowie, aliás, produziu dois discos de Iggy em meados dos anos 1970: The Idiot e Lust for Life. Não acho grande coisa, mas isso é irrelevante. O papo aqui é o traço de Bowie.

David Bowie paintings - The rape of Bigarschol - 1996

 The hearts filthy lesson é quadro e é canção. Está no disco Outside, de 1995 aliás, é também a data do quadro de cores muito fortes, principalmente o amarelo (em contraste com o cinza), que expressa ou parece expressar que algo incomoda as entranhas do homem. Sugere um parto masculino, de cócoras, imundo como o título. A imobilidade do homem contrasta com o movimento da cria o que sai de dentro dele, expresso pela cor. É o aparente parto no lixo, na imundície inevitável. É um outsider de primeira hora.

David Bowie paintings - The rape of Bigarschol - 1996

DryHeads Capetown, de 1995, é um exemplo do que os críticos chamam de neo-expressionismo. Duas mulheres nuas, de diferentes etnias, lado a lado, enquanto treze macacos — ou suas silhuetas — sobrepõem-se a elas, indo e vindo de algum lugar. Tons de azul melancólico, sugerindo o encontro do mar com o céu, convivendo com o bege quase marrom, terroso, contrastam com o vermelho-símio. As mulheres, aparentemente estáticas, mexem os cabelos como se os prendessem diante de um espelho. Tudo é expressão.

David Bowie paintings - The rape of Bigarschol - 1996

Head portrait of Mike Garson é outra homenagem no caso, o pianista e diretor musical de discos e shows de David Bowie. É ele quem toca piano em Aladdin Sane, um dos melhores trabalhos de Bowie, na primeira metade dos anos 1970. Tocou piano também na turnê que promoveu Ziggy Stardust. David Bowie fez uma série de retratos tenho Mike como tema — e chamou a essa série de DHead. A calvície de Mike parece ser o elemento chave de todos os retratos: alguns com pinceladas de azul sobre gelo: outros, com vermelho e marrom. É a homenagem valiosa.

David Bowie paintings - The rape of Bigarschol - 1996

Self portrait 1996. O que um autorretrato pode oferecer, senão a visão um tanto narcisista de quem o produz? O neo-expressionismo escancarado mostra um Bowie ameaçador e ao mesmo tempo frágil, feito de vermelho, cinza, preto e verde, olhando diretamente quem se põe diante dele, como um espelho. Os olhos de pupilas desiguais são bem marcados, combinando bem com o bigode chinês e a barbicha quase judaica. É uma beleza. Há outros quadros de David Bowie apresentando David Bowie. Escolhi esse, que me parece definitivo.

Melhores filmes: a quem interessa uma lista?

Pois é: fiquei em tempo sem postar, mas não consigo me segurar muito. Espero que meus escassos leitores tenham sentido falta. Tenho acessado a Folha de São Paulo e, nos últimos meses, leio, nesse veículo, algumas listas dos melhores filmes de todos os tempos. Geralmente demandam cineastas Scorsese, Oliver Stone, Francis Coppola, Walter Salles, Del Toro e alguns atores, como De Niro e Di Caprio. Enfim, deve haver outros, mas minha memória falha. Eis a questão: qualquer lista brota da subjetividade e, portanto, está sujeita tanto a aplausos quanto a porretadas. Sem ter muito o que fazer, fui na onda, e fiz também minha lista. De onde vem a ideia de que ela interessa a alguém?, pergunta-me um de meus seis ou sete leitores.

Ei-la, sem uma ordem de preferência:

  1. A Laranja Mecânica, Stanley Kubrick
  2. Asas do Desejo, Win Wenders
  3. A Batalha de Argel, Gillo Pontecorvo
  4. O Poderoso Chefão, Francis Coppola
  5. O Vento será tua herança, Stanley Kramer
  6. O dia em que a Terra parou, Robert Wise
  7. Interestelar, Christopher Nolan
  8. A Felicidade não se compra, Frank Capra
  9. O Anjo Exterminador, Luís Buñuel
  10. O jardim dos Finzi-Continis, Vittorio De Sica

Imagens de Pessoa em duvida sem royalties | DepositPhotos

10 filmes? Os que vieram à cabeça, de imediato. Sem pensar muito, sem avaliar as consequências de ter deixado de lado algumas obras-primas. O cinema norte-americano aparece 6 vezes. Os outros  referem-se a filmes europeus alemão, italiano, espanhol. Deixar cineastas como François Truffaut, Federico Fellini, Werner Herzog, Charlie Chaplin, Martin Scorsese, Roberto Rossellini, Akira Kurosawa e Carlos Saura de fora parece ser ousadia demais. Ou burrice demais. Enfim, resumir os melhores filmes em apenas 10 é tarefa inacabada.

Qualquer leitor que por acaso ou não leia esta postagem, vai apontar inconsistências. Pode manifestar-se, caso queira. Em tempo: não sei quem é o sujeito da ilustração acima,  mas espero que, ao menos, goste de cinema.